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Fragilidade, a virtude esquecida

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Fragilidade, a virtude esquecida

A palavra alta e luminosa de Blaise Pascal imerge-nos imediatamente nas fundações existenciais da fragilidade: «O homem não passa de uma cana, a mais fraca da natureza, mas é uma cana pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para o esmagar: um vapor, uma gota de água, bastam para o matar. Mas mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que aquilo que o mata, porque sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo desconhece tudo isso».

A fragilidade nos “slogans” mundanos dominantes é a imagem de uma experiência inútil e antiquada, imatura e doente, inconsciente e destituída de sentido, estranha ao espírito do tempo, e todavia na fragilidade ocultam-se valores de sensibilidade e de delicadeza, de gentileza e de dignidade, de comunhão com o destino de sofrimento de quem está mal. A psiquiatria, por sua vez, quando é psiquiatria humana e gentil, psiquiatria da interioridade, não pode considerar a fragilidade como sintoma de uma perturbação psíquica – ainda hoje, por vezes, se sustenta essa tese –, mas como uma forma de vida doadora de sentido: isto é o que me foi possível constatar (também) no coração da deficiência mental, testemunha de uma extrema e última fragilidade, nos meus anos de trabalho num hospital psiquiátrico feminino, em Novara. Como definir a fragilidade?

Frágil é uma coisa (uma situação) que se pode romper, e frágil é um equilíbrio emocional que se pode estilhaçar, mas frágil é também uma coisa que não pode ser senão frágil: esse é o seu destino. São frágeis e podem romper-se não só aquelas que são as nossas emoções e as nossas razões de vida, as nossas esperanças e as nossas inquietações, as nossas tristezas e os nossos impulsos do coração, mas também as nossas palavras que nem sempre sabem consolar e voltar a dar esperança à dor. (A região semântica da fragilidade ultrapassa sem fim a da debilidade e da sensibilidade, que lhe completam os horizontes temáticos.)

Que emoções se podem considerar frágeis? São frágeis a tristeza e a timidez, a mansidão e a esperança, a alegria e a ternura, a nostalgia e as lágrimas, que, se não fossem frágeis, perderiam o seu fulgor e a sua significação humana. As emoções frágeis quebram-se facilmente, não resistem aos avanços dos glaciares do desprezo e da indiferença, das tecnologias triunfantes e dos ídolos do consumo; mas o que seria a esperança se não fosse alimentada e entretecida de fragilidade? Não seria mais do que uma das muitas problemáticas certezas que, na sua impenetrabilidade à dúvida, esvaziam de sentido a vida.

Mesmo a alegria é uma emoção frágil e luminosa: brota em nós, como uma fonte de água na alta montanha, da vida interior, e frágil é a tristeza da alma, que nunca é estranha à fragilidade; e a cada um de nós é requerida a tarefa de procurar os traços da alegria e da esperança, da tristeza da alma, nos rostos e nos olhares, nos olhos e no sorriso das pessoas que a vida nos faz encontrar. A doença leva à luz da consciência a nossa humana fragilidade, e nela cria outras, ancoradas na angústia, que é angústia da morte. Mas cada um de nós revive o seu estar doente de modos diferentes, e, se pode servir de ajuda a quem está mal, deveremos saber ouvir (também) as palavras não ditas da dor e do cansaço de viver, do silêncio e da nostalgia.

Não é, todavia, apenas a fragilidade do corpo e da alma que é visível na sua fenomenologia, mas há também a fragilidade que se esconde nas sensibilidades feridas pela timidez e pela tristeza, pela inquietação da alma e do silêncio. São humanas fragilidades que nos passam junto à vida de cada dia, e não é fácil reconhecê-las. São fragilidades que gritam no silêncio da alma, e são escutadas apenas quando há em nós sensibilidade e atenção que, quando é ardente, como diz Simone Weil, pertence à ordem da graça.

Reconhecer estas fragilidades, as fragilidades que vivem secretamente no coração das pessoas nos diversos lugares da sua vida, é ainda mais importante. Recuperar o significado da fragilidade, a sua complexidade e as suas metamorfoses, e reconhecer-lhes os traços nos outros, é um dever moral, um serviço ao qual todos somos chamados. Na vida é muito fácil não se dar conta da fragilidade, da vulnerabilidade e da sensibilidade, das feridas da alma das pessoas com quem nos encontramos, e que até, provavelmente, fazem parte das nossas famílias, sem que, não por ausência de amor, e às vezes por medo, ou por pudor, nos seja possível reconhecê-las; mas como reconhecê-las?

Distanciando-nos das febris ocupações diárias, que nos distraem da nossa vida interior, e recuperando a solidão, a grande solidão interior, que nos permite descer às profundidades do nosso eu. Não é fácil salvar a solidão em nós, mas não cessemos de andar à sua procura; isso aproximar-nos-á das fragilidades que há em nós e daquelas que estão nos outros, reencontrando-lhes os horizontes de sentido. A solidão é uma boa companheira de estrada no caminho da nossa vida, por vezes dolorosa, porque nos confronta com as nossas emoções, com os nossos conflitos e, sobretudo, com as nossas fragilidades. Não queremos ter fragilidades em nós, e somos sempre tentados a não olhar para elas, a considerá-las estranhas à nossa vida, mas assim secamos os nossos corações, que da fragilidade são alimentados de mansidão, e o impulso a interiorizar a experiência.

A fragilidade é desejo de escuta, de gentileza, de serviço a si e aos outros, e permite-nos escapar ao fascínio enfeitiçador das ideologias, ao deserto da indiferença e do egoísmo, da agressividade e da violência. Como diz von Hofmannsthal, o grande escritor austríaco, o mais perigoso adversário da força é a fragilidade. As pessoas frágeis conhecem a tristeza da alma, e não a imagem gélida do poder, tendem por natureza a escutar as pessoas que têm necessidade de ajuda, as mais sós e as mais pobres em particular, sentindo-as próximas da sua sensibilidade.

As pessoas frágeis são incapazes de fazer o mal, e a fragilidade abre o seu coração à gentileza e à ternura, à comunhão e à solidariedade, à oração; e como não pensar, lendo os manuscritos autobiográficos de Santa Teresa de Lisieux, na sua misteriosa fragilidade? Em conclusão, gostaria de retomar as palavras de S. Paulo na Segunda Carta aos Coríntios (12, 9-10): «Ele respondeu-me: “Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza”. De bom grado, portanto, prefiro gloriar-me nas minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo. Por isso me comprazo nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições e nas angústias, por Cristo. Pois quando sou fraco, então é que sou forte». A fragilidade é admiravelmente testemunhada na sua epifania e na sua conotação, não só humana, mas cristã, destas palavras.

 

Eugenio Borgna
In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 23.08.2016

 

 
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São frágeis a tristeza e a timidez, a mansidão e a esperança, a alegria e a ternura, a nostalgia e as lágrimas, que, se não fossem frágeis, perderiam o seu fulgor e a sua significação humana. As emoções frágeis quebram-se facilmente, não resistem aos avanços dos glaciares do desprezo e da indiferença, das tecnologias triunfantes e dos ídolos do consumo
Recuperar o significado da fragilidade, a sua complexidade e as suas metamorfoses, e reconhecer-lhes os traços nos outros, é um dever moral, um serviço ao qual todos somos chamados
A solidão é uma boa companheira de estrada no caminho da nossa vida, por vezes dolorosa, porque nos confronta com as nossas emoções, com os nossos conflitos e, sobretudo, com as nossas fragilidades. Não queremos ter fragilidades em nós, e somos sempre tentados a não olhar para elas
As pessoas frágeis conhecem a tristeza da alma, e não a imagem gélida do poder, tendem por natureza a escutar as pessoas que têm necessidade de ajuda, as mais sós e as mais pobres em particular, sentindo-as próximas da sua sensibilidade
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