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Feridas tornam-se oportunidades quando em vez de questionarmos “porquê?”, perguntamos “para quem?”

Na viagem ao interior das Dez Palavras, chegamos hoje ao mandamento sobre o pai e a mãe. Fala-se da honra devida aos pais. O que é esta “honra”? O termo hebraico indica a floria, o valor, à letra o “peso”, a consistência de uma realidade. Não é questão de formas exteriores, mas de verdade. “Honrar” significa por isso reconhecer este valor.

Não é uma questão de formas exteriores, mas de verdade. Honrar Deus, nas Escrituras, quer dizer reconhecer a sua realidade, lidar com a sua presença; isto exprime-se também com os ritos, mas implica sobretudo o dar a Deus o justo lugar na própria existência. Honrar o pai e a mãe quer dizer, portanto, reconhecer a sua importância inclusive com atos concretos, que exprimem dedicação, afeto e cuidado. Mas não se trata só disso.

A Quarta Palavra tem uma característica: é o mandamento que contém um desfecho: «Honra o teu pai e a tua mãe, como o Senhor, teu Deus, te mandou, para que se prolonguem os teus dias e tu sejas feliz na terra que o Senhor, teu Deus, te dá» (Deuteronómio 5, 16). Honrar os pais conduz a uma longa vida feliz. A palavra “felicidade” no Decálogo aparece só ligada à relação com os pais.

Esta sabedoria plurimilenar declara o que as ciências humanas souberam elaborar só há pouco mais de um século: que a marca da infância afeta toda a vida. Pode ser muitas vezes fácil compreender se alguém cresceu num ambiente saudável e equilibrado. Mas também perceber se uma pessoa vem de experiências de abandono ou violência. A nossa infância é um pouco como uma tinta indelével, exprime-se nos gostos, nas madeiras de ser, mesmo se alguns tentam esconder as feridas das suas origens.



Pensemos em Santa Josefina Bakhita, que cresceu numa horrível escravidão; ou no beato Carlo Gnocchi, órfão e pobre; e no próprio S. João Paulo II, marcado pela perda da mãe em tenra idade



Mas a Quarta Palavra diz ainda mais. Não fala da bondade dos pais, não pede que os pais e mães sejam perfeitos. Fala de um ato dos filhos, independentemente dos méritos dos pais, e diz uma coisa extraordinária e libertadora: ainda que nem todos os pais sejam boas e nem todas as infâncias sejam serenas, todos os filhos podem ser felizes, porque conseguir uma vida plena e feliz depende do justo reconhecimento por quem nos pôs no mundo.

Pensemos em quanto esta Palavra pode ser construtiva para muitos jovens que vêm de histórias de dor, e para todos aqueles que sofreram na sua juventude. Muitos santos – e muitíssimos cristãos –, após uma infância dolorosa, viveram uma vida luminosa, porque, graças a Jesus Cristo, reconciliaram-se com a vida. Pensemos (…) em S. Camilo de Lellis, que de uma infância desordenada constrói uma vida de amor e de serviço; em Santa Josefina Bakhita, que cresceu numa horrível escravidão; ou no beato Carlo Gnocchi, órfão e pobre; e no próprio S. João Paulo II, marcado pela perda da mãe em tenra idade.

O ser humano, de qualquer história que provenha, recebe deste mandamento a orientação que conduz a Cristo: nele, com efeito, manifesta-te o Pai verdadeiro, que nos oferece a possibilidade de «renascer do alto». Os enigmas das nossas vidas iluminam-se quando se descobre que Deus desde sempre prepara-nos para uma vida de filhos seus, onde cada ato é uma missão recebida por Ele.

As nossas feridas começam a ser potencialidades quando, por graça, descobrimos que o verdadeiro enigma já não é “porquê?”, mas “para quem?” me aconteceu isto. Em vista de que obra Deus me forjou através da minha história. Aqui tudo se inverte, tudo se torna precioso, tudo se torna construtivo (…). Então podemos começar a honrar os nossos pais com liberdade de filhos adultos e com misericordioso acolhimento dos seus limites. (…)

Mas esta vida maravilhosa é-nos oferecida, não imposta: renascer em Cristo é uma graça a acolher livremente, e é o tesouro do nosso Batismo, no qual, por obra do Espírito Santo, um só é o Pai nosso, o do céu.


 

Papa Francisco
Audiência geral | Vaticano, 19.9.2018
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Família do pescador" (det.) | Marc Chagall | 1968
Publicado em 19.09.2018

 

 
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