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Felicidade é um dos nomes de Deus: Meditação sobre o Evangelho de Domingo

Imagem Fra Angelico | C. 1423-24 | National Gallery, Londres, Reino Unido

Felicidade é um dos nomes de Deus: Meditação sobre o Evangelho de Domingo

Naquele tempo, ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-se. Rodearam-no os discípulos e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados os humildes, porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa». (Mateus 5, 1-12a, Evangelho da Solenidade de Todos os Santos)

Os santos são os homens das Bem-aventuranças. Estas palavras são o coração do Evangelho, a narrativa de como o homem Jesus passou pelo mundo, e por isso são o rosto alto e puro de cada ser humano, as novas hipóteses de humanidade. São o desejo de um totalmente outro modo de ser homens, o sonho de um mundo feito de paz, de sinceridade, de justiça, de corações límpidos.

No coração do Evangelho surge nove vezes a palavra "Bem-aventurados" ["Felizes" noutras traduções], revelando um Deus que toma a seu cuidado a alegria do ser humano, traçando-lhe os caminhos. Como habitualmente, inesperados, contracorrente. E ficamos como que sem respiração diante da ternura e do esplendor destas palavras.

As Bem-aventuranças recapitulam a boa notícia, o anúncio jubiloso de que Deus oferece a vida a quem produz amor, que se alguém se encarrega da felicidade de alguém, o Pai se encarregará da sua felicidade.

Quando são proclamadas, continuam a saber fascinar-nos, mas depois saímos da igreja e damo-nos conta de que para habitar a Terra, este mundo agressivo e duro, escolhemos o manifesto mais difícil, incrível, revolucionário e em contramão que o ser humano pode pensar.

A primeira diz: felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino, já, não na outra vida. Felizes porque há mais Deus em vós, mais liberdade, mais futuro. Felizes porque guardais a esperança de todos.

Neste mundo onde se está diante do desperdício e da miséria, um exército silencioso de homens e mulheres preparam um futuro bom: constroem paz, no trabalho, na família, nas instituições; são obstinados a propor a justiça, honestos mesmo nas pequenas coisas, não conhecem a duplicidade. Os homens das Bem-aventuranças, desconhecidos do mundo, aqueles que não aparecem nos jornais, são os secretos legisladores da história.

A terceira Bem-aventurança é a mais paradoxal: felizes aqueles que choram. Erguei-vos, vós que comeis um pão de lágrimas, diz o salmo. Deus está do lado de quem chora, mas não do lado da dor. Um anjo misterioso anuncia a cada um que chora: o Senhor está contigo. Deus não ama a dor, está contigo no reflexo mais profundo das tuas lágrimas, para multiplicar a coragem, para envolver o coração ferido, na tempestade está ao teu lado, força da tua força.

A palavra-chave das Bem-aventuranças é felicidade. Santo Agostinho, que redige uma obra inteira sobre a vida feliz, escreve: falámos da felicidade, e não conheço valor maior que se possa dizer dom de Deus. Deus não só é amor, não só é misericórdia, Deus é também felicidade. Felicidade é um dos nomes de Deus.

 

Ermes Ronchi
In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins:
Publicado em 29.10.2015

 

 
Imagem Fra Angelico | C. 1423-24 | National Gallery, Londres, Reino Unido
A primeira Bem-aventurança diz: felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino, já, não na outra vida. Felizes porque há mais Deus em vós, mais liberdade, mais futuro. Felizes porque guardais a esperança de todos
A terceira Bem-aventurança é a mais paradoxal: felizes aqueles que choram. Erguei-vos, vós que comeis um pão de lágrimas, diz o salmo. Deus está do lado de quem chora, mas não do lado da dor. Um anjo misterioso anuncia a cada um que chora: o Senhor está contigo
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