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Fé, entre fragilidade humana e força de Deus

Imagem Van Gogh

Fé, entre fragilidade humana e força de Deus

Os apóstolos disseram ao Senhor: «Aumenta a nossa fé». O Senhor respondeu: «Se tivésseis fé como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira: “Arranca-te daí e vai plantar-te no mar”, e ela obedecer-vos-ia.
Quem de vós, tendo um servo a lavrar ou a guardar gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: “Vem depressa sentar-te à mesa”? Não lhe dirá antes: “Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires, até que eu tenha comido e bebido. Depois comerás e beberás tu”?. Terá de agradecer ao servo por lhe ter feito o que mandou? Assim também vós, quando tiverdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: “Somos inúteis servos: fizemos o que devíamos fazer”. (Lucas 17, 5-10, Evangelho do 27.º Domingo)

Aqueles que escutaram as exigências “duras” proclamadas por Jesus como decisivas para o seguir, conhecendo a própria fraqueza pedem-lhe: «Aumenta a nossa fé”. Este pedido arrisca-se, todavia, a não ser compreendido no seu real alcance, pelo que é oportuno refletir sobre a confiança-adesão absolutamente necessária para se ser discípulo de Jesus.

A fé, que deve ser entendida em primeiro lugar como adesão, só pode estar presente onde existe uma relação pessoal e concreta com Jesus. A fé não é um conceito de ordem intelectual, não é colocada antes de tudo numa doutrina ou numa verdade, muito menos em fórmulas, nos dogmas. A fé não é, antes de tudo, um “crer que” (por exemplo, que Deus exista), mas é um ato de confiança no Senhor. Trata-se de aderir a Ele, de a Ele se ligar, de colocar nele a confiança até ao abandono a Ele numa relação vital, pessoalíssima. A fé é reconhecer que da parte do ser humano há fragilidade, portanto não é possível ter fé-confiança em si próprio. Precisamente por isso, sobretudo na boca de Jesus, é frequente o uso do verbo “crer” e do substantivo “fé” em modo absoluto, sem complementos ou especificações.

«Não tenhas receio, crê somente» (Lucas 8, 50); «A tua fé te salvou» (Lucas 7, 50); «Vai, que tudo se faça conforme a tua fé» (Mateus 8, 13); «Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se como desejas» (Mateus 15, 28). Crer sem complementos, ter fé sem especificações é para Jesus determinante na relação com Deus e consigo próprio.

É verdade que a fé é um ato que se situa na fronteira entre fragilidade humana e força que vem de Deus, força que torna possível precisamente o ato de fé. Trata-se de passar da incredulidade à fé, mas esta passagem, esta “conversão”, requer a invocação de Deus e, em resposta, o seu dom, a sua graça, que na realidade são sempre prevenientes.

Com efeito, é difícil e trabalhoso para cada um de nós renunciar a contar em si para se descentrar e colocar no centro a Palavra de Deus a nós dirigida. Não nos esqueçamos que a incredulidade ou a pouca fé denunciadas por Jesus caracterizam a situação do discípulo, não de quem não encontra ou não escuta Jesus. E como não nos impressionarmos perante o grito de Jesus, «a tua fé te salvou», proclamado diante de doentes, pecadores, estrangeiros e pagãos que, encontrando-o, lhe pedem com fé para serem por Ele ajudados e salvos?

Há um episódio descrito com particular cuidado por Marcos (9, 14-29), mas presente também em Lucas e Mateus, que pode ajudar-nos a compreender melhor a passagem que estamos a comentar. Um pai tem um filho endemoninhado e os discípulos de Jesus não conseguem curá-lo. Desencorajado, quando encontra Jesus diz-lhe: «Se podes alguma coisa, socorre-nos, tem compaixão de nós». E Jesus, depois de ter repreendido os discípulos - «geração incrédula» -, responde-lhe: «“Se podes…! Tudo é possível a quem crê». Ou: «Se tens fé, tudo te é possível através da fé que te salva». É como se Jesus lhe dissesse: «Basta-te crer, ter confiança», isto é, confiar que tudo é tornado possível por Deus porque «tudo é possível a quem crê». Então o pai responde: «Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!». Basta oferecer a Jesus a própria incredulidade, deixar que seja Ele a vencer as nossas dúvidas. E assim Jesus cura não só o filho, mas também o pai, presa da desconfiança em relação à vida.

Ao pedido dos apóstolos, «aumenta a nossa fé», Jesus responde que lhes basta ter «fé como um grão de mostarda», e então poderiam dizer a uma amoreira para se arrancar do solo e plantar-se no mal, que ela haveria de lhes obedecer.

Os apóstolos estão conscientes de ter uma fé pequena: gostariam de ser gigantes da fé, mas Jesus faz-lhes compreender que a fé, ainda que pequena, se é adesão real a Ele, é suficiente para alimentar a relação com Ele e acolher a salvação. É verdade, a nossa fé é sempre de curto prazo, mas basta ter em nós a semente desta adesão ao poder do amor de Deus operante em Jesus Cristo.

Crer significa, em última análise, seguir Jesus: e quando se o segue, caminha-se atrás dele, muitas vezes vacilando, mas acolhendo a ação com que Ele nos reergue e nos apoia, para que possamos estar sempre onde Ele está.

Nós, cristãos, devemos olhar com frequência para o pequeno grão de mostarda, tê-lo na palma da mão, ter consciência de quanto é minúsculo; mas deveremos também vê-lo com semente semeada, morta debaixo da terra, germinada e crescida, até se tornar grande como uma planta que dá abrigo às aves do céu – imagem usada por Jesus para descrever o Reino de Deus – e, por isso, surpreender-nos. Assim é a nossa fé, pequeníssima, talvez; mas não temamos, porque se a fé existe, é suficiente, porque é mais forte de toda a nossa outra atitude. A fé é a fé: sempre, mesmo se pequena, é adesão a uma relação, é obediência.

A resposta de Jesus aos apóstolos prossegue com uma parábola que lhes diz particularmente respeito, enquanto enviados a trabalhar no campo, na vinha cujo proprietário é Deus. Jesus adverte-os para o risco de confiarem em si próprios, porque esse é o pecado que se opõe radicalmente à fé. É a atitude que Jesus condenará na parábola do fariseu e do publicano no templo (cf. Lucas 18, 10-14), dirigida a alguns que, como o fariseu, «confiavam em si mesmos porque eram justos».

Isto poderá acontecer também aos enviados que, conscientes de terem feito pontualmente a vontade de Deus, desejariam ser reconhecidos, premiados. Mas Jesus, com realismo, pergunta-lhes: poderá acontecer isso no mundo, na relação entre dono e escravo? Quando o escravo regressa do trabalho, porventura o dono lhe dirá: «Vem e senta-te à mesa»? Não lhe dirá antes: «Prepara a refeição, serve-me, e depois comerás e beberás tu»? Deverá acaso agradecer-lhe por ter feito a sua tarefa? Não, isto não pode acontecer, e assim os apóstolos, enviados a trabalhar na vinha do Senhor, quando terminarem o trabalho deverão dizer: «Somos servos inúteis, fizemos o que devíamos ter feito».

No seguimento de Jesus não se reivindica nada, não se pretendem reconhecimentos, não se esperam prémios, porque nem sequer a tarefa realizada se torna garantia ou mérito. O que se faz pelo Senhor, faz-se gratuitamente e bem, por amor e na liberdade, não para ter um prémio… Infelizmente na vida da Igreja os prémios, os méritos são dados por si para si mesma, e nem sequer há algo a esperar de Deus!

 

Enzo Bianchi
In "Monastero di Bose"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 30.09.2016

 

 
Imagem Van Gogh
É difícil e trabalhoso para cada um de nós renunciar a contar em si para se descentrar e colocar no centro a Palavra de Deus a nós dirigida. Não nos esqueçamos que a incredulidade ou a pouca fé denunciadas por Jesus caracterizam a situação do discípulo, não de quem não encontra ou não escuta Jesus
Os apóstolos estão conscientes de ter uma fé pequena: gostariam de ser gigantes da fé, mas Jesus faz-lhes compreender que a fé, ainda que pequena, se é adesão real a Ele, é suficiente para alimentar a relação com Ele e acolher a salvação
Nós, cristãos, devemos olhar com frequência para o pequeno grão de mostarda, tê-lo na palma da mão, ter consciência de quanto é minúsculo; mas deveremos também vê-lo com semente semeada, morta debaixo da terra, germinada e crescida, até se tornar grande como uma planta que dá abrigo às aves do céu
No seguimento de Jesus não se reivindica nada, não se pretendem reconhecimentos, não se esperam prémios, porque nem sequer a tarefa realizada se torna garantia ou mérito. O que se faz pelo Senhor, faz-se gratuitamente e bem, por amor e na liberdade, não para ter um prémio…
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