Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Leitura: "Fátima - Uma aproximação"

Leitura: "Fátima - Uma aproximação"

Imagem Capa | D.R.

Teologia, espiritualidade e arte constituem alguns dos eixos do novo livro "Fátima - Uma aproximação", de João Manuel Duque, diretor do Centro Regional de Braga da Universidade Católica e diretor-adjunto da Faculdade de Teologia.

Nesta «peregrinação teológica» proposta pela Paulinas Editora, o professor catedrático começa pela espiritualidade do santuário, «profundamente centrada no tema da conversão, e que se exprime na adoração, na oração e na devoção».

Passa-se depois à apresentação de Cristo «como o "santuário fundamental", e Maria como o "santuário humano por excelência", e aprofundam-se os temas da mediação mariana, dos mistérios eucarístico e trinitário, ou da centralidade da Misericórdia».

Por fim, «de regresso ao quotidiano da Cidade, fica o convite a uma nova compreensão da compaixão, do compromisso sociopolítico da fé e em abertura à dimensão estética da vida».

É precisamente da última parte da obra assinada pelo presidente da Comissão Organizadora e da Comissão Científica do Congresso Internacional do Centenário de Fátima, a realizar em junho, que apresentamos um excerto.



No caso da relação difícil entre Igreja e artistas, ao longo dos últimos dois séculos, por um lado, as razões dos conflitos são numerosíssimas e complexíssimas; por outro lado, uma completa reconciliação não é ainda realidade – nem será talvez completamente possível, até porque é difícil imaginar o que isso possa significar



Estética dos espaços e dos tempos
João Manuel Duque
In "Fátima - Uma aproximação"

Uma das características do Santuário de Fátima, que não deixa de ter notável impacto sobre a sua espiritualidade e sobre a relação com o mundo envolvente, sobretudo com a sua dimensão cultural, é o modo como tem acompanhado e incentivado a produção artística contemporânea relacionada com a experiência religiosa. Pode mesmo dizer-se que a sua atividade inaugurou uma nova forma de relacionamento com o mundo artístico contemporâneo, depois de uma relação difícil entre este e a Igreja católica, ou mesmo a religião em geral. Devido a esse impulso, muitos artistas atuais, mesmo se não explicitamente crentes, têm contribuído para uma abordagem artística da experiência religiosa, que começa a ter significativo impacto teológico e cultural. Ao mesmo tempo, este movimento vai-se transformando também em núcleo de aproximação da comunidade eclesial em relação à produção artística contemporânea, superando certa estagnação na banalidade, que se satisfaz com obras menores ou mesmo com uma forma de «arte» religiosa que nada tem de verdadeiramente artístico, mesmo que possa satisfazer finalidades devocionais diversas. De um modo geral, pode considerar-se Fátima como um lugar – também um santuário, neste sentido – de aproximação mútua entre Igreja e mundo artístico contemporâneo, numa espécie de reconciliação.

Falar em reconciliação com os artistas implica, evidentemente, assumir a existência de uma rutura ou de um conflito anterior –, neste caso, um conflito entre a Igreja ou o cristianismo e o mundo da arte. Ora, uma reconciliação implica, por outro lado, uma correta compreensão e avaliação dos conflitos que provocaram a rutura, assim como o reconhecimento dos problemas que lhes estiveram inerentes; e implica a superação, de ambos os lados, das razões que originaram os conflitos, para abrir um futuro novo, para lá do que separa, na descoberta de razões, eventualmente desconhecidas, de confluência possível.



Podemos dizer que a entrada na modernidade (já na Renascença, mas sobretudo no Romantismo e no que se lhe seguiu) implicou a progressiva afirmação da autonomia da arte e do artista, por reação contra esse «serviço», que passou a ser visto de modo negativo, como servilismo anulador de liberdades. De uma arte assumidamente ao serviço da religião passou-se a uma arte independente



É claro que, no caso da relação difícil entre Igreja e artistas, ao longo dos últimos dois séculos, por um lado, as razões dos conflitos são numerosíssimas e complexíssimas; por outro lado, uma completa reconciliação não é ainda realidade – nem será talvez completamente possível, até porque é difícil imaginar o que isso possa significar.

Num primeiro passo, convém refletir, sem preocupações de pormenor histórico, sobre o percurso da cultura moderna e contemporânea, que terá levado ao afastamento entre Igreja e arte, espelhado em todas as artes, particularmente na própria arquitetura, como imagem primeira do dinamismo de qualquer sociedade. Esse percurso de colisão estende as suas raízes a uma aliança que se tornou problemática e que, a partir dessa problematicidade, originou pretensões concorrentes e, por isso, conflituosas. Mas o caminho da pós-modernidade encarregou-se de manifestar os equívocos desse confronto, abrindo assim as portas a uma possível (re)aproximação.

É claro que o pressuposto, cultural e historicamente mais remoto, daquilo que aconteceu na modernidade se situa já na Idade Media e pode ser interpretado como leitura da arte enquanto «serva» do Cristianismo. Evidentemente que a questão não pode ser abordada partindo simplesmente das nossas atuais coordenadas de leitura. Em primeiro lugar, porque nem existia, na época, uma noção de arte tão precisa e restritiva como na atualidade; muito menos existia qualquer ideia de «autonomia» da arte ou do artista, o que também tornava estranha a ideia de um génio criador independente de toda a funcionalidade e de todo o serviço a uma causa maior que ele. Por isso, o pretenso «servilismo» da arte, em relação ao Cristianismo, não possuía significado ne gativo, antes pelo contrário. A grandeza da atividade artística era potenciada, quando esta era colocada ao serviço dessa convicção religiosa, sobretudo no seu culto – como provam as catedrais e toda a produção artística que englobam. Mesmo relativamente ao artista, em sentido pessoal, não podemos partir da mentalidade individualista que os últimos séculos instauraram no Ocidente. A pertença do artista à comunidade – assumida como cristã – faz com que as suas obras – tantas vezes anónimas – pudessem ser vistas como expressão do «homem cristão», enquanto modo supremo de se ser humano.



Entre as características «religiosas» da arte romântica e moderna, está aquela ideia fundamental de que a arte poderia ser o único caminho de salvação que ainda restaria a uma humanidade desiludida com todas as antigas propostas. Ora, como essa proposta salvífica era claramente diferente da cristã, não poderia ser senão anticristã



De qualquer modo, foi esta situação que originou problemas, quando o mundo em que ela era assumida evidentemente como positiva deixou de ser o mundo das evidências, sendo colocado em causa por cada vez mais europeus, sobretudo pelos próprios intelectuais e artistas. Podemos então dizer – de modo demasiado genérico, sem dúvida – que a entrada na modernidade (já na Renascença, mas sobretudo no Romantismo e no que se lhe seguiu) implicou a progressiva afirmação da autonomia da arte e do artista, por reação contra esse «serviço», que passou a ser visto de modo negativo, como servilismo anulador de liberdades. De uma arte assumidamente ao serviço da religião passou-se a uma arte independente, que pretendeu até afirmar-se, cada vez mais, como uma forma alternativa de «religião».

Como seria de esperar, estas transformações originaram conflitos. Por um lado, do ponto de vista social, porque o processo de independência da arte em relação ao Cristianismo implicou a recusa explícita da intromissão deste naquela – o que se manifestou, entre outros aspetos, na recusa do recurso a temáticas explicitamente afins ao Cristianismo. Por outro lado, dadas as pretensões «religiosas» da arte, que faziam dos artistas uma espécie de sacerdotes de um novo culto, é natural que surgissem conflitos com o Cristianismo, que não poderia aceitar essas pretensões e que, em certa medida, era visto pela arte como «concorrente» – e vice-versa. Assim, a arte surgiu como concorrência «secular», relativamente às pretensões englobantes e mesmo espirituais do Cristianismo.

Entre as características «religiosas» da arte romântica e moderna, está aquela ideia fundamental de que a arte poderia ser o único caminho de salvação que ainda restaria a uma humanidade desiludida com todas as antigas propostas. Ora, como essa proposta salvífica era claramente diferente da cristã, não poderia ser senão anticristã – pelo menos, assim foi vista muitas vezes pela Igreja e assim foi, de facto, frequentemente.



A perceção deste desfecho niilista da modernidade constitui, na atualidade, oportunidade nova para uma ressurreição da arte, que me parece poder aliar-se, nessa via, com o Cristianismo – já não como serva, mas como companheira de viagem, a caminho de uma mesma terra prometida



Ora, o percurso da modernidade, na sua fase mais tardia e que penetra na cultura contemporânea, encarregou-se de instaurar um clara desilusão relativamente ao valor salvífico da arte. Dessa desilusão poderia surgir a aceitação de novos serviços – o que aconteceu, relativamente a não poucas ideologias – ou a recuperação do antigo serviço ao Cristianismo – o que raramente se deu – ou o abandono ao niilismo desiludido, que abandona qualquer ideia de salvação esperada. Este último foi o caminho mais procurado pelos artistas do último século, que acabaram por conduzir a arte ao encerramento sobre si mesma, como produto que apenas a si mesmo se procura.

Só que essa arte que abandona a relação ao mundo – sobretudo ao mundo humano – e se concentra sobre si mesma e sobre as suas estruturas internas, herdou ainda da modernidade o seu gesto irrecusavelmente crítico. Se, até então, aplicava a sua crítica mordaz a realidades que lhe eram exteriores – ao próprio Cristianismo, à vida social injus ta, ao mundo real, em nome do mundo desejado e esperado –, agora só pode virar a crítica contra si mesma. Mas, concentrada e atarefada nesse trabalho, acaba por se moer a si mesma, na mó da crítica infinda. A arte, autónoma e finalmente só, mata-se a si mesma, perdendo o seu próprio sentido. O niilismo extremo estaria assim conseguido – como comprova a vaga da denominada «morte da arte».

Mas, onde se manifesta o perigo, aí surge a salvação. A perceção deste desfecho niilista da modernidade constitui, na atualidade, oportunidade nova para uma ressurreição da arte, que me parece poder aliar-se, nessa via, com o Cristianismo – já não como serva, mas como companheira de viagem, a caminho de uma mesma terra prometida. Do ponto de vista geral e com possibilidade de aplicação a todas as artes – ao fenómeno artístico, na sua totalidade, como produção, obra e receção –, poderíamos estabelecer uma aliança com o Cristianismo a partir de três elementos fundamentais. Em primeiro lugar, relativamente à hermenêutica ou interpretação da realidade, presente no Cristianismo e na arte. Independentemente da variedade de modos possíveis, poderíamos dizer que ambos leem o real como um «milagre do ser», isto é, como existência independente de toda a justificação racional ou mesmo científica. Tudo o que é, é simplesmente «porque sim», isto é, de modo gratuito e sem merecimento ou exigência lógica prévia.



Rumo a uma utopia nunca completamente realizada na história humana, a arte – e o Cristianismo – são inseparáveis da sua tarefa de transfiguração do real, a partir de uma figuração completamente real, exprimindo assim a dimensão política da fé



A leitura deste «milagre» primordial provoca no ser humano uma atitude de «espanto» pelo facto de tudo ser, em vez de nada ser. Correspondentemente a esse espanto – como atitude primeira do crente e do artista, em relação a uma realidade que o precede – instaura-se uma devoção específica ou uma pietas, que exige um acolhimento humilde e agradecido da realidade, mais do que o trabalho transformador e dominador dessa mesma realidade.

Partindo desta interpretação fundamental da realidade, a arte e a fé assumem necessariamente um papel figurador. Ou seja, a sua realidade exige que se dê corpo a essa interpretação do real, trabalhando com e a partir do próprio real. É isso que faz a arte, na obra e na sua forma concreta; e é isso que faz a fé, na vida de cada crente e da comunidade de crentes.

Mas essa configuração da interpretação do real como dom gratuito tem a finalidade de transfigurar a própria realidade naquilo que deve ser: precisamente dom gratuito. Nesse sentido e rumo a uma utopia nunca completamente realizada na história humana, a arte – e o Cristianismo – são inseparáveis da sua tarefa de transfiguração do real, a partir de uma figuração completamente real, exprimindo assim a dimensão política da fé, como vimos acima.

Na aplicação concreta destes elementos básicos ao caso da arquitetura – como símbolo de uma possível aproximação entre arte e Igreja, que em Fátima ganha especial destaque – poderíamos dizer que a obra arquitetónica é um determinado modo de configuração do espaço em ordem à «habitação» de um lugar – o que vai muito além da simples funcionalidade quotidiana. Quando esse «lugar» é um santuário, essa tarefa ganha especiais contornos. O que está em jogo é a ordenação do espaço, em si potencialmente caótico, por que indiferenciado. Nessa ordenação manifesta-se, também, a exterioridade do espaço em relação ao sujeito. E manifesta-se, por outro lado, o papel do sujeito humano na sua ordenação. O espaço arquitetónico – sobretudo se for um espaço comunitário – transforma-se numa permuta simbólica entre exterioridade e subjetividade, entre mundo e ser humano. A exterioridade conduz-nos à primordial revelação do ser, como precedente ao sujeito e como precedente a qual quer lógica funcional ou causal: o ser como milagre, manifesto no espaço ordenado. Mas, na ordenação humana do espaço, joga-se também a relação humana à revelação do milagre do ser. O espaço arquitetónico transforma-se, assim, em acolhimento do ser do mundo e em sentimento pessoal de se ser acolhido nesse mundo exterior.



De uma clara e otimista afirmação do humano (evidentemente que fundamentado em Deus) passou-se à não menos clara humildade do humano (que muitas vezes se confunde com certo desespero), tendo sido atravessado o pântano do orgulho do Homem sem Deus (no qual a não referência à «Igreja» e ao conteúdo do Cristianismo como lugar de sentido se tornou uma pretensa forma de sentido)



O lugar – o edifício – é assim sempre um espaço simbólico da habitação com sentido, que lhe é dado e é percebido na interpretação do real como dom gratuito. A obra arquitetónica pode assim ser interpretada como mediação do sentido e mesmo do sagrado, se entendermos este como manifestação do sentido primeiro e último. Esse sentido é partilhado, seja pela família que habita a mesma casa, seja pela comunidade que partilha um mesmo sentido, celebrando-o num mesmo edifício.

Compreender o sentido significa estar orientado. O contrário, significa estar perdido. Assim, pela doação de sentido somos salvos da perdição ou desorientação (no espaço e no tempo). Essa salvação pelo sentido implica, contudo, mediações figurativas – umbrais – porque se trata de uma relação ao sagrado fundamental. Os espaços «diferentes» – cuja diferenciação é originada pela obra arquitetónica – tornam--se, então, lugares de sentido fundamental, cujos umbrais são espaços de passagem para o sentido, no dinamismo de conversão enunciado no início do nosso percurso.

As mediações desse sentido vão variando, consoante as épocas culturais, a que correspondem estilos artísticos. Relativamente às manifestações arquitetónicas atuais, poderíamos considerar o significado da transição realizada de uma sensibilidade barroca acentuada para uma sensibilidade contemporânea. De uma clara e otimista afirmação do humano (evidentemente que fundamentado em Deus) passou-se à não menos clara humildade do humano (que muitas vezes se confunde com certo desespero), tendo sido atravessado o pântano do orgulho do Homem sem Deus (no qual a não referência à «Igreja» e ao conteúdo do Cristianismo como lugar de sentido se tornou uma pretensa forma de sentido).



O exemplo mais claro desta configuração artística do espaço, através da arquitetura, é sem dúvida a Basílica da Santíssima Trindade e os espaços que lhe estão ligados. Construída pelo arquiteto grego Alexandros Tombazis, vencedor do concurso internacional lançado pelo Santuário, é sem dúvida um dos espaços recentes mais desafiantes de Fátima



Essa transição pode também ser lida como passagem da perceção da finitude humana como caminho infinito (infindo, como as espirais das colunas barrocas) – segundo o qual a história humana é lida como história das maravilhas de Deus – à experiência sublime de um infinito que nos assalta, permanecendo escondido, sem face, apenas como interpelação silenciosa. Nessa nova sensibilidade, ganham predominância as formas de presença do Deus ausente – ou as formas de ausência de «deuses» demasiado presentes. As segundas podem idolatrar o finito – as primeiras podem sucumbir no nada e no sem-sentido (refugiando-se no finito sem Deus). O desafio encontra-se na possibilidade de mediar a presença de Deus – como sentido do humano – sem anular a sua ausência.

O espaço litúrgico está ligado, também, ao sentido do habitar – situa-se, por isso, como «lugar» (ou «não-lugar») entre os humanos e Deus. Por isso, o espaço litúrgico implica uma sábia conjugação da função com a ontologia simbólica do lugar. Nele, a doação de sentido depende do modo como se articula a «presença» de Deus. A «alteridade» de Deus é que fundamenta o sentido do lugar – e não apenas o ato humano da configuração. Mas essa alteridade é precisamente figurada pela configuração humana, originando transfiguração – num processo histórico ou de tradição que elabora figurações específicas. É necessária uma conjugação entre corpo (Corpo de Cristo, Igreja) e espírito (Espírito de Deus, espírito dos humanos), num lugar claramente material – e, precisamente por isso, mais do que material.

É na mediação desse espaço próprio – entre outras mediações possíveis – que se dá o acolhimento do Deus inefável, como oferta de possível sentido para o drama da história humana. Por isso, estão implicados o despojamento e a receção. A «igreja», o «santuário» – enquanto edifício e não só – serão lidos como lugar de sentido possível para o crente e de possível busca de sentido, para o não-crente. Por isso, transfigura-se em alerta profético, a denunciar toda a pretensa autofundamentação e autossalvação (do crente ou do não-crente). Porque ambos são peregrinos orientados para um «Oriente» (mais claro ou mais confuso), como nómadas sem terra fixa, sem propriedade – porque o lugar da arte e do Cristianismo, feito edifício num templo concreto, é sempre um lugar u-tópico, sem topos, sem localização.



Nas artes plásticas tem desenvolvido, sobretudo nos últimos anos, uma atividade permanente de exposições. Ao mesmo tempo, tem promovido vários concursos, nomeadamente no campo da fotografia. Nesse sentido, tem constituído incentivo à produção de arte de inspiração religiosa, acolhendo obras sobretudo de jovens artistas e promovendo, desse modo, a aproximação da Igreja ao complexo mundo das artes plásticas



Em Fátima, o exemplo mais claro desta configuração artística do espaço, através da arquitetura, é sem dúvida a Basílica da Santíssima Trindade e os espaços que lhe estão ligados. Construída pelo arquiteto grego Alexandros Tombazis, vencedor do concurso internacional lançado pelo Santuário, é sem dúvida um dos espaços recentes mais desafiantes de Fátima – mesmo na polémica que as obras de arte costumam gerar. O grande espaço circular possui 125 metros de diâmetro, sem apoio intermédio, e é atravessado por duas vigas longitudinais. É todo branco, com o teto aberto à luz exterior. É, de facto, um espaço místico, pelo sublime evocado no tamanho e pela luminosidade intensa do seu interior. A iconografia do interior foi selecionada com critério e encomendada a renomados artistas internacionais. (...)

Mas o espaço da basílica prolonga-se noutros espaços circundantes. No subsolo, há um grande painel da autoria de Álvaro Siza Vieira. A porta de bronze foi criada pelo pintor Pedro Calapez. O painel de vidro da entrada é da autoria da canadiana Joe Kelly. No exterior, a zona envolvente é constituída por duas praças. Na praça de João Paulo II, encontra-se a estátua de João Paulo II, da autoria de Czeslaw Dzwigaj, e, a noroeste, a estátua de Paulo VI, obra de Joaquim Correia. Também aqui se situa, na proximidade da estátua do Papa, a Cruz Alta – 34 metros de altura e 17 de largura, feita em aço corten –, concebida por Robert Schad, num estilo minimalista e fortemente evocativo dos desafios da nossa época. O espaço interior é completado com quatro capelas: Santíssimo Sacramento, Reconciliação, Morte de Jesus e Ressurreição de Jesus. A decoração destas capelas é cuidadosa. Nelas existem numerosos confessionários, pois a celebração do sacramento da Reconcilia ção é uma das práticas mais intensas no santuário.

Mas Fátima não se limita à arquitetura. Nas artes plásticas tem desenvolvido, sobretudo nos últimos anos, uma atividade permanente de exposições, seja nos espaços do santuário, seja em galerias exteriores. Ao mesmo tempo, tem promovido vários concursos, nomeadamente no campo da fotografia. Nesse sentido, tem constituído incentivo à produção de arte de inspiração religiosa, acolhendo obras sobretudo de jovens artistas e promovendo, desse modo, a aproximação da Igreja ao complexo mundo das artes plásticas.

Mais recentemente, nos sete anos que antecederam a celebração do centenário, o Santuário concedeu especial atenção à música. Para além da atividade habitual, no campo da música litúrgica, o Santuário desenvolveu, sob a coordenação do compositor, teólogo e antropólogo Alfredo Teixeira, uma programação intensa de concertos, executando, entre outras, obras inéditas encomendadas explicitamente a renomados compositores, como Arvo Pärt e James MacMillan, assim como a muitos compositores portugueses da atualidade. Uma passagem pelas agendas culturais mais recentes é muito elucidativa do movimento artístico que atualmente se concentra em Fátima.

Este é, na minha perspetiva, um dos modos mais intensos de conjugar a contemplação com a profecia como marcas do acontecimento de Fátima. Se a arte nos eleva à contemplação de uma beleza desejada, ela é ao mesmo tempo um contexto privilegiado para a intervenção profética nos complexos meandros da sociedade contemporânea. Por esse caminho, Fátima faz-se ouvir no mundo e para o mundo, correspondendo aos desafios originários do Anjo e de Maria, sempre em configurações novas e criativas.



 

Edição: SNPC
Publicado em 01.06.2017

 

Título: Fátima - Uma aproximação
Autor: João Manuel Duque
Editora: Paulinas
Páginas: 160
Preço: 11,50 €
ISBN: 978-989-673-581-4

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos