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Leitura: "Fátima-Sou peregrino - Um percurso espiritual"

Leitura: "Fátima-Sou peregrino - Um percurso espiritual"

Imagem Capa | D.R.

«É a ti, peregrino, que este livro é dedicado. Foi escrito por quem te acompanhou durante cerca de cinquenta anos em Fátima. Sendo peregrino e contando, pela rádio e pela televisão, o que como peregrino viveu e vive. Há muitos olhares sobre Fátima. Este é como um vitral que só faz sentido visto de dentro para fora. Por isso é mais que uma crónica. É um olhar sobre cada pessoa que constitui uma multidão. E mais que multidão, comunidade. Tem um pouco de história do essencial de Fátima. Tem muito da voz que se prende à Imagem da Virgem e lhe narra em prece toda a sua vida feita de dores e esperanças. É também uma via-sacra que pode ser celebrada perante os muitos quadros existentes no Santuário. O melhor itinerário será o percurso dos Valinhos, onde cada estação é um ato contemplativo nos sereníssimos painéis de pedra branca que nos revelam os passos percorridos por Jesus da condenação à Ressurreição. Contém um conjunto de orações que podem ser rezadas a qualquer hora do dia ou da noite. É um rosário sem contas. Toma, lê e reza.»

É com estas palavras que começa o novo livro "Fátima-Sou peregrino - Um percurso espiritual", do padre António Rego, jornalista e colaborador da página do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, que partilha com os leitores um testemunho em primeira pessoa das suas múltiplas vivências no santuário da Cova da Iria, no ano em que se assinala o centenário das aparições marianas.

Dividida em 10 capítulos, "Escutar", "Despojar-se", "A voz", "A grande porta", "Torre de marfim", "Contemplar", "A mensagem de Fátima", "O imaginário e o real", "No Santuário" e "Prece final", nesta obra da Paulinas Editora encontram-se mais de cinco dezenas de textos, com títulos como "Um pedido", "Era 13, mas...", "A força do milagre", "A grandeza de estar de joelhos", "Oração da fadiga", "Pátio de crentes e gentios", "Paz e desassossego", "Atravessar a fronteira" e "Fátima e Belém".

O volume é apresentado pelos jornalistas Maria João Avillez e Paulo Rocha a 8 de março, em Lisboa, às 18h30, na Fnac do Chiado.



Sou peregrino. Somos. E não estamos sós. Estou aqui para espalhar um pouco pelo mundo a tua vivência neste lugar. Porque estás de saída, e isso é Evangelho. Só a poderei narrar se viver. No Santuário de Fátima temos muitos peregrinos. Mas presos à rádio, à televisão e à net temos muitos mais. Por isso nos juntamos nesta aventura espiritual e cada um de nós pode dizer: sou peregrino



Introdução
In "Fátima - Sou peregrino"
António Rego

Recordo a viagem que fazia de Lisboa para a Cova da Iria, com imensas curvas, filas e engarrafamentos. Mas aprendi a parar, ver e ouvir pessoas. Peregrinos. Tenho bem presente a primeira transmissão que fiz de Fátima num 13 de Maio. Éramos, há perto de cinquenta anos, duas estações de rádio e uma de televisão. Comecei a gravar histórias de vidas que eram verdadeiros tratados de teologia e ascese. E de devoção a Nossa Senhora. Sempre reparei que as palavras das pessoas eram distantes dos discursos oficiais. As razões dos peregrinos eram bem mais simples, claras, lineares, sem arrumação nem estilo de oratória. Um filho, um irmão, uma cura, uma graça, uma devoção, rezar o terço, olhar para aquela Imagem alva, acender uma vela, cantar Ave até a voz doer, estar por um ou dois dias fora do mundo, apenas com o essencial para comer e dormir, e às vezes nem isso.

Tudo me aconselhava a falar menos e a dar mais voz àquele arrepio e respiração duma multidão imensa. Inovámos os meios que iam longe captar vozes, respostas, angústias e alegrias. Parece que se ouvia o sopro dos lenços brancos como se fossem asas de pombas, aos milhares, em volta da Imagem, caminhando com o balancear dos passos de quem a transportava.

A comunicação social foi e é, inquestionavelmente, nesta matéria, um verdadeiro prolongamento, um instrumento evangelizador. E foi aí que apostei e aposto sem renunciar ao lugar de peregrino.



Vejo homens, de mãos grossas e enrugadas de tantos lemes que conduzem na vida e de tanta terra que abrem para a sementeira. Ou a mão que se gasta na escrita das palavras e na construção das artes e esboça o sobrenatural e a Virgem com a subtileza dos grandes pintores, ou do escultor que trabalha a pedra para fazer nascer um rosto, com o mesmo vigor do que segura as escavadoras que abrem rochas, constroem navios, rompem caminhos, erguem pontes. Ou dos que trabalham filigranas ou colocam temperos mínimos para um alimento



Fui seguindo Fátima como um elemento catalisador de encontros, reflexão e oração para grupos grandes, médios e pequenos. Vocacionada inicialmente para a massa, converteu-se ao grupo, com cuidado no acolhimento, sensibilidade nas diferenças e dinamismos pastorais e nas variadas formas de interioridade e encontro com Cristo e Maria e consigo próprio.

Gosto de ir a Fátima dirigir ou comentar uma transmissão onde se deve estar calado, sempre que a multidão caminha, reza, canta, vibra, se ilumina em torno da Imagem de Nossa Senhora. E transmitir o rosto do peregrino no seu mais indizível e lentamente cruzado com a Imagem peregrina, para que essa fração de olhar entre pelo coração de quem está longe, em casa ou no café, quase indiferente. Ou cruzar o dizer entre indivíduo e multidão, sentindo-me eu próprio aí, com os olhos tocados pela luz quente duma pequena vela.

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Sou peregrino. Somos. E não estamos sós. Estou aqui para espalhar um pouco pelo mundo a tua vivência neste lugar. Porque estás de saída, e isso é Evangelho. Só a poderei narrar se viver. No Santuário de Fátima temos muitos peregrinos. Mas presos à rádio, à televisão e à net temos muitos mais. Por isso nos juntamos nesta aventura espiritual e cada um de nós pode dizer: sou peregrino. Andamos à procura do mesmo: do melhor que há dentro de nós, para depormos aos pés da Virgem Maria, nossa Mãe. Ela está connosco, envolve-nos numa multidão que a procura no seu olhar, nos cortejos que percorre, nas palavras que segreda a cada um. A todos.



Não me sai dos olhos uma jovem que percorria de joelhos o extenso corredor do recinto de oração com um artista rock – sem o mais pequeno aspeto de santo – impresso na camisola. Ao lado, a filha, pequenita, apressava o passo para a acompanhar – amparando a mãe e amparando-se. Era pedir, agradecer? Que esperanças havia naquele olhar que sabia donde vinha e a quem se dirigia?



Quem és tu, peregrino? As mãos postas de criança, o jovem, rapaz ou rapariga, com a sua geração impressa no rosto, nos trajes, nos penteados, no olhar que aos adultos parece alheio. Mas todos procuram o carinho da Mãe. Nenhum de nós vive sem afeto. Vejo homens, de mãos grossas e enrugadas de tantos lemes que conduzem na vida e de tanta terra que abrem para a sementeira. Ou a mão que se gasta na escrita das palavras e na construção das artes e esboça o sobrenatural e a Virgem com a subtileza dos grandes pintores, ou do escultor que trabalha a pedra para fazer nascer um rosto, com o mesmo vigor do que segura as escavadoras que abrem rochas, constroem navios, rompem caminhos, erguem pontes. Ou dos que trabalham filigranas ou colocam temperos mínimos para um alimento. As mãos. Em Fátima as mãos falam, segurando os lenços e a emoção, suplicando, agradecendo. Estão elas próprias esculpidas pelo trabalho, tantos quantos os ofícios no mundo existentes, e apenas continuam o primeiro dia da criação. Eis que, aqui, estão estendidas, a suster apenas um rosário singelo onde as contas escorrem como gotas do suor e lágrimas que ganha o pão com a dignidade do trabalho. E poderíamos ir muito mais longe: as mãos do médico que fazem milagres quase iguais aos de Jesus, que erguem os coxos e oferecem ânimo aos desalentados. Ou professores que apontam faróis onde nada se via, ou dedilham técnicas leves nos ecrãs que parecem pessoas a pensar. Todos os ofícios do mundo têm mãos e erguem monumentos. Como as da mulher que dão personalidade feminina em cada objeto que tocam. Nas artes, nas letras, nos filhos. Essas mãos estão aqui em Fátima e ajudam a levantar o mundo para o colocar aos pés da Virgem. Aqui têm apenas forma de oferenda e prece.



Chegam aos nossos ouvidos os gritos de tantos desamparados e o choro da criança que acaba de nascer e promete um mundo novo. Em Fátima atualiza-se a mensagem da Mãe do Céu: rezai para alcançar a paz para o mundo. E com os lenços brancos, erguidos, ganhamos força para fazer baixar as armas.



Não me sai dos olhos uma jovem que percorria de joelhos o extenso corredor do recinto de oração com um artista rock – sem o mais pequeno aspeto de santo – impresso na camisola. Ao lado, a filha, pequenita, apressava o passo para a acompanhar – amparando a mãe e amparando-se. Era pedir, agradecer? Que esperanças havia naquele olhar que sabia donde vinha e a quem se dirigia? Abrindo mais o horizonte, senti-me eu próprio identificado em cada rosto que parecia nada mais ver além do sobrenatural com que naturalmente se cruzava. Sem tempo para se perder no que quer que fosse a não ser naquele todo celebrativo que nem enchia o recinto, mas dava a resposta certa à grande pergunta feita por cada caminhante. Quem são estes que saíram, deixaram tudo para se entregarem ao gesto simples de rezar e cantar o mais belo, sublime, complexo, tosco e dramático da vida? E como descrever a alegria de quem depôs as armas para sentir terno e profundo o abraço da paz, mesmo dum desconhecido ali ao lado? Todos chegámos cansados das notícias sobre violência, tiros, facadas, agressões, nos lugares mais inóspitos do Planeta, inclusive no nosso país. Não se fazem contas às baixas que o inimigo provocou ou aos que caíram em combate. A vida já nos ensinou que estamos vivos e inteiros por simples misericórdia de Deus. Todos os que aqui estamos sentimos que agora se trava no mundo outra luta, outra guerra mundial, no dizer do papa Francisco, onde os exércitos se perfilam de outro modo e onde está envolvida a alma de cada cidadão do mundo. Chegam aos nossos ouvidos os gritos de tantos desamparados e o choro da criança que acaba de nascer e promete um mundo novo. Em Fátima atualiza-se a mensagem da Mãe do Céu: rezai para alcançar a paz para o mundo. E com os lenços brancos, erguidos, ganhamos força para fazer baixar as armas. Não baixaremos os braços, tal como Moisés no alto da colina. Por isso nos amparamos uns aos outros.



Não sei quantos milhões de peregrinos já terei visto, estáticos ou em movimento, calados ou em prece. Ou dos dois modos. Sempre os senti como companheiros desta aventura espiritual de deixar a nossa casa, no norte, no sul, nas ilhas, em qualquer recanto do mundo, e vir a Fátima



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Há algum tempo recebi um telefonema de um amigo a pedir-me para escrever «um livro que ajude o peregrino a viver a sua peregrinação a Fátima».

Primeiro, pensei que sobre Fátima está tudo dito e não faltam bons guias para peregrinos. Depois, imaginei-me a entrar no livro também como peregrino. Não ser um simples narrador, mas alguém que está dentro da experiência espiritual de Fátima e não se separa daquilo que vê, conta e reza. Um ato único. E vestir o coração de peregrino. E olhar Fátima apenas como peregrino. E testemunhar. Não será mais fácil que ser um guia – por quem tenho muito apreço – que mostre uma sequência documentada com o maior número possível de pormenores e números.

Há cerca de cinquenta anos que faço reportagem do Santuário de Fátima sobre grandes e pequenos momentos. Sobretudo de peregrinação. Não sei quantos milhões de peregrinos já terei visto, estáticos ou em movimento, calados ou em prece. Ou dos dois modos. Sempre os senti como companheiros desta aventura espiritual de deixar a nossa casa, no norte, no sul, nas ilhas, em qualquer recanto do mundo, e vir a Fátima. E a quantos milhões me terei dirigido pela rádio e televisão, para além de notícias, reflexões e textos escritos. O que sei é que nunca me senti a mais e, com microfones, ecrãs ou câmaras, sempre tentei viver e transmitir esta experiência profunda de fé e envolvimento numa multidão incontável, muito mais que cento e quarenta e quatro mil assinalados, de que fala o Apocalipse, aludindo ao universo dos remidos pelo sangue do Cordeiro. Lá iremos.



Fátima é um lugar de sinais e de espiritualidade em cada recanto, com pessoas dentro. E isso podemos percorrer pela ordem que o nosso coração ditar. Não há uma sequência oficial, nem a pretensão científica nas descrições. Fátima é um espaço livre onde cada peregrino se movimenta ao sabor do Espírito



De facto teria muito que contar sobre o que os meus olhos viram e os meus ouvidos ouviram ao longo de todos estes anos. E do que eu próprio contei com palavras, sons e imagens, fixas ou em movimento.

Pensei num pequeno livro onde eu também estivesse dentro e fosse companheiro de cada um desses milhões que rezaram e rezam a meu lado. Não me apresento como especialista ou investigador. Nem como quem conta pequenas histórias de encantar ou desencantar, ou oferece dimensões de qualquer igreja, capela ou imagem, mas como quem celebra e reza diante de cada sinal que descobre em Fátima. Já tudo está dito e revelado. Não há imagens novas para mostrar. Mas Fátima é um lugar de sinais e de espiritualidade em cada recanto, com pessoas dentro. E isso podemos percorrer pela ordem que o nosso coração ditar. Não há uma sequência oficial, nem a pretensão científica nas descrições. Fátima é um espaço livre onde cada peregrino se movimenta ao sabor do Espírito. E neste livro qualquer página pode ser a primeira ou a última. Quase não existe diferença entre oração e informação. Mas, na realidade, em clima de oração nunca se dá uma informação puramente técnica sem que se enquadre o espírito no todo sagrado que nos envolve. Não sei definir o peregrino ideal. Nem possivelmente saberei quem sou neste cortejo. Mas vou, como todos os peregrinos, visitar estas moradas onde talvez encontre a luz que anda pelo cimo da montanha. Vamos bem. Estamos sob o olhar de Maria, a Mãe de Jesus.



 

Edição: SNPC
Publicado em 01.03.2017 | Atualizado em 03.03.2017

 

Título: Fátima-Sou peregrino - Um percurso espiritual
Autor: António Rego
Editora: Paulinas
Páginas: 192
Preço: 11,25 €
ISBN: 978-989-673-558-6

 

 
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