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Leitura: "Fátima - Das visões dos pastorinhos à visão cristã"

Leitura: "Fátima - Das visões dos pastorinhos à visão cristã"

Imagem Capa | D.R.

«Tema "delicado e melindroso" lhe chamou diversas vezes o primeiro estudioso dos factos ocorridos em Fátima, o Cónego Formigão. As visões da Cova da Iria são assunto secundário e periférico na dimensão da fé cristã e simultaneamente importante na intensificação e dinamismo da vida espiritual de tantos católicos. Escrever sobre tal matéria corre riscos de gerar irritação em olhares fundamentalistas ou insatisfação em críticos radicais. Isso não me amedronta.»

São estas palavras que abrem a introdução do livro "Fátima - Das visões dos pastorinhos à visão cristã", de Carlos A. Moreira Azevedo, recentemente publicado pela editora A Esfera dos Livros, obra que apresenta «uma releitura crítica sobre o fenómeno das visões ocorridas na Cova da Iria há 100 anos, partindo da situação sociocultural de Portugal e da Europa e da realidade familiar e psicológica das personalidades envolvidas», assinala a sinopse.

«Gostaria de contribuir para percebermos como as visões dos pastorinhos num lugar irrelevante se transformaram numa proposta de alcance internacional e multitudinário. Que visão de Deus e do mundo propõem? Que capacidade de futuro encerram? Reforça -se ou debilita-se a forma especificamente cristã de viver ao estilo de Jesus? Fátima permite regredir ou amadurecer uma vivência cristã?», questiona o bispo português, delegado do Conselho Pontifício da Cultura.

O historiador opta por se afastar de uma «leitura literalista dos escritos da Irmã Lúcia, principal e quase única testemunha do fenómeno originário, pois ela mesma reconhece que nas suas respostas iniciais há algumas confusões de pequena importância e que vai relendo o evento originário, enriquecida por novos conhecimentos e conselhos».



«Se Fátima permanece com notável impacto não se deve apenas à autenticidade simples e infantil dos seus inícios, mas à capacidade que tiveram os mediadores dos factos e da mensagem, a começar pela própria Lúcia dotada de longa vida, para retirar da imagética rudimentar uma resposta às situações históricas vividas pelas pessoas, individualmente mendigas de sinais de Deus»



«A grande questão subjacente a toda a polémica sobre Fátima situa -se, a meu ver, na capacidade de percecionar o lugar das mediações entre a religiosidade popular e a visão cristã de Deus. Daí o título dado a este livro. Se a Deus nunca ninguém o viu, o crente aceita a debilidade das mediações para alimentar a sua fé com sinais, que nunca atingem Deus mas aproximam e ajudam a entrar em relação: gestos, ritos, memórias», sublinha o autor, que recorreu a material do Arquivo Secreto do Vaticano para revelar o processo da escolha do primeiro bispo da diocese de Leiria, bem como novos dados sobre a política portuguesa entre 1917 e 1930.

Para o prelado, «não é manipulação ou falsificação da História traduzir a gramática religiosa da época, dos ambientes de um cristianismo rural e fechado a uma hermenêutica cristocêntrica da Igreja, que após o II Concílio do Vaticano adquire espaço» em Portugal. «A condescendência divina valoriza as faculdades dos videntes e profetas e respeita os limites do seu acolhimento, socorre -se do seu imaginário infantil, sujeita -se a alguns equívocos», acrescenta.

Carlos A. Moreira Azevedo recorda que «se as palavras sobre Deus são sempre humanas, quanto mais as visões dos pastorinhos devem ser sujeitas a uma releitura», dado que «a sua experiência espiritual e mística foi historicamente situada, acolhida por personagens extremamente frágeis na idade, analfabetos e com limitada instrução religiosa, própria da débil evangelização».

«Alguns classificam a necessária mediação de manipulação, mas faz parte da demanda religiosa que respeita a pobreza dos sinais. Acolhendo a força simbólica contida nas narrações originárias, a Igreja Católica obriga -se a atualizá-las e reinterpretá-las para ser fiel ao mistério de Deus revelado em Cristo, a quem, sim, importa ser fiel na linguagem de cada tempo», frisa.



«Se as visões não pretendem oferecer novidades teológicas nem alimentar curiosidades e continuam a gerar tanta procura e, no caso de Fátima, a nível internacional e a setores sociais diversificados, demonstram ser uma interpelação e uma consolação para a realidade presente, despertam cada consciência para transformar a vida a partir do interior»



Neste sentido, continua o autor na introdução, «a religiosidade natural, se paciente e sabiamente evangelizada, transforma-se em piedade tipicamente cristã, sem ficar reduzida a magia ou superstição ou significar regressão, que interprete Maria como deusa cósmica. O Santuário é uma porta aberta para a educação da fé, centrada num acontecimento pessoal que responsabiliza e compromete».

«Se Fátima permanece com notável impacto não se deve apenas à autenticidade simples e infantil dos seus inícios, mas à capacidade que tiveram os mediadores dos factos e da mensagem, a começar pela própria Lúcia dotada de longa vida, para retirar da imagética rudimentar uma resposta às situações históricas vividas pelas pessoas, individualmente mendigas de sinais de Deus, que no seu itinerário por Fátima recarreguem a sua vida de sentido e iluminem os passos obscuros nas sucessivas crises e dificuldades», destaca o historiador.

Depois de assinalar que «a ausência de dimensão simbólica para ler a vida, interpretar a realidade» é uma evidência da contemporaneidade, Carlos A. Moreira Azevedo sustenta que «se a prodigiosa evolução científica e tecnológica contribui e contribuirá decididamente para um maior bem-estar humano, apenas a visão simbólica da vida, respeitadora da dimensão poética e espiritual, emotiva e sentimental, corresponde plenamente ao ânimo profundo do ser humano».

«Viso nesta obra abordar uma experiência, com cem anos de resistência ao tempo, sob o ângulo da História e da teologia espiritual. Se as visões não pretendem oferecer novidades teológicas nem alimentar curiosidades e continuam a gerar tanta procura e, no caso de Fátima, a nível internacional e a setores sociais diversificados, demonstram ser uma interpelação e uma consolação para a realidade presente, despertam cada consciência para transformar a vida a partir do interior», aponta o texto.



«Procuro passar pelo crivo da objetividade racional uma experiência espiritual profundamente subjetiva, de modo a ausentar de ridículo a hermenêutica operada, mas, como é óbvio, deixando a cada uma e cada um, sobretudo a quem não é crente, o seu juízo livre e o seu criterioso discernimento»



Quase a terminar a introdução, o autor interroga: «Quando cresce a incerteza sobre o futuro do ser humano, diante do avanço da biogenética, das neurociências e da inteligência artificial com aplicação robótica; quando fervilha uma desconfiança motivada pelos desastres éticos sucessivos nos campos económicos e financeiros, políticos e desportivos; quando os populismos chegam ao cume nos atuais impérios; quando a ausência de forte liderança humanista em tantos países os deixa à mercê de jogos de interesses e de violentos grupos fundamentalistas; quando imprevisíveis movimentos migratórios abrem um multiculturalismo em tensão com identidades perdidas; quando se notam as dificuldades de diálogo e certo encerramento cultural ao mundo contemporâneo da Igreja Ortodoxa Russa e suas dependentes; quando o factor religioso, debilitado no Ocidente cristão e vigoroso num Islão intolerante, se traduz em aspiração espiritual, Fátima emerge atual?».

«Procuro passar pelo crivo da objetividade racional uma experiência espiritual profundamente subjetiva, de modo a ausentar de ridículo a hermenêutica operada, mas, como é óbvio, deixando a cada uma e cada um, sobretudo a quem não é crente, o seu juízo livre e o seu criterioso discernimento», conclui o historiador.

"Cenário", "Acontecimento", "Personagens" e "Mensagem" constituem os capítulos do volume, que abre com um fragmento do livro "Em teu ventre", de José Luís Peixoto: «A visão não é exclusiva dos virtuosos ou dos que guardam as leis, todos podem usá-la consoante a sua necessidade, mas só os mais sensatos serão capazes de apreciá-la completamente».



 

SNPC
Publicado em 17.04.2017

 

Título: Fátima - Das visões dos pastorinhos à visão cristã
Autor: Carlos A. Moreira Azevedo
Editora: A Esfera dos Liivros
Páginas: 216
Preço: 16,50 €
ISBN: 978-989-626-809-1

 

 
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