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Leitura: "Fátima - 1979-2016"

Leitura: "Fátima - 1979-2016"

Imagem Capa | D.R.

Publicado pouco antes da visita do papa Francisco a Portugal, o livro "Fátima - 1979-2016" (Impresa) é uma narrativa visual do santuário da Cova da Iria registada pelo fotógrafo António Pedro Ferreira ao longo de quase quatro décadas.

São sobretudo rostos e detalhes de peregrinos que se veem nas mais de oito dezenas de imagens, a preto e branco as primeiras, a cores as mais recentes. Contemplar e meditar os olhares, expressões e gestos deste revelados neste volume pode ser já oração.

O prefácio de D. Manuel Clemente, cardeal-patriarca de Lisboa (cf. Artigos relacionados), o texto de Clara Ferreira Alves, e a apresentação de Rosa Pedroso Lima, ambas jornalistas do "Expresso", enquadram imagens de profunda humanidade e fé.

«A fé tem poderes ilimitados e não é uma conspiração de beatos e clérigos. Quem assiste a uma procissão das velas na véspera do dia 13 de maio, o dia do milagre de Fátima, sabe que aquela corrente humana está envolvida por uma intensidade luminosa que comove os corações empedernidos e que faz os não crentes, por vezes, desejarem ser crentes», escreve Clara Ferreira Alves.



«Não precisamos de saber tudo nem de acreditar que podemos saber tudo. Precisamos de um vestígio do sobrenatural, do misticismo, do segredo, do sagrado. Precisamos de um milagre mesmo que não acreditemos em milagres. Precisamos da transcendência. E da clarividência»



No texto que tem por título um pedido, uma prece poder-se-ia dizer, «Deus, fala comigo!», a cronista recorda as peregrinações a Fátima feitas na infância, um retrato talvez configurador do presente, mas que ficou para trás: «Com o passar dos anos, a fé daqueles verdes anos abalou para outras paragens».

«Ter fé significa ter dúvida, uma coisa vai com a outra, e a dúvida é uma amável companheira de caprichos e tentações. À dúvida mistura-se o cinismo da idade adulta, e há sempre um momento em que nos zangamos violentamente com Deus. A conversão é outro milagre, e para quem nunca precisou de se converter, quem nasceu e cresceu dentro da fé, os convertidos são uma espécie bafejada. Fizeram a viagem em sentido contrário, tiveram mais sorte. Mais inclemente do que a conversão é a reconversão, o regresso à fé. É uma peregrinação interior que não tem fim, uma jornada inacabada», assinala.

Clara Ferreira Alves lembra que «uma promessa tem sofrimento lá dentro». «As pessoas pedem muito saúde, pedem bens não transacionáveis, como se diz agora. Pedem um rasgão de paz ou de felicidade no pano opaco da existência sem escolhas. Nada disto pode ser reduzido a um objeto material, uma Nossa Senhora luminosa, uma camiseta com neón, um rosário de turmalinas, um santinho desdobrável, uma cruz de sândalo».



«Não falo só da beleza, da qualidade ou da força de cada imagem. O meu espanto foi mais longe. A minha dúvida foi completa. Como é que um ateu convicto sente necessidade se seguir a fé dos outros? E, mais ainda, como é que consegue captar tão bem os olhos de quem encontrou Deus?»



«Cem anos passados sobre a aparição, as aparições, num tempo em que a inteligência artificial governa os homens que querem ser capazes de criar a vida e atravessar as galáxias, e em que a ciência e o cientismo se tornaram omnipotentes, omniscientes e omnipresentes, o milagre é o derradeiro consentimento oferecido à inocência antes de morrermos de excesso de informação e de exploração que decretam a morte do mistério. Não precisamos de saber tudo nem de acreditar que podemos saber tudo. Precisamos de um vestígio do sobrenatural, do misticismo, do segredo, do sagrado. Precisamos de um milagre mesmo que não acreditemos em milagres. Precisamos da transcendência. E da clarividência», sublinha.

Rosa Pedroso Lima refere-se às fotografias de António Pedro Ferreira como aparições de «uma força incomum, difícil de explicar, mas que passa para além da objetiva» para «desinquietar» quem as observa. «Essa gente chama-se Fátima. Ou chama-se fé, como quiserem.»

«Não falo só da beleza, da qualidade ou da força de cada imagem. O meu espanto foi mais longe. A minha dúvida foi completa. Como é que um ateu convicto sente necessidade se seguir a fé dos outros? E, mais ainda, como é que consegue captar tão bem os olhos de quem encontrou Deus?», interroga.

À semelhança de Clara Ferreira Alves, Rosa Pedroso Lima está convicta de que «o mundo mudou e Fátima mudou com ele». Mas o essencial está lá sempre: «Há uma luz que permanece intacta, sempre, ao longo dos dias, dos meses e das décadas. Mesmo quando o tempo é inclemente (e o tempo de Fátima é muitas vezes inclemente) e o recinto do Santuário se transforma num espelho de calor, quando é verão, ou num gelo polar quando surge o inverno. Há uma luz que fica, para além das bátegas de chuva ou do vento impiedoso. Talvez venha só dos olhos de quem lá está, de quem lá vai sempre a acreditar com toda a força que ali é o ponto em que se pode mudar o mundo. Deixar as dores e trazer a paz, voltando a casa com um brilho no olhar.»







 

SNPC
Publicado em 13.06.2017

 

Título: Fátima - 1979-2016
Autor: António Pedro Ferreira
Editora: Impresa
Páginas: 160
Preço: 14,90 €

 

 
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