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Família, tecnologia e Baleia Azul

Família, tecnologia e Baleia Azul

Imagem Rawpixel.com/Bigstock.com

A Baleia Azul é o assunto do momento. Os pais estão, e com razão, apavorados com esta novidade que parecia impossível. Um jogo que chega pelas redes sociais, comandado sabe-se lá por quem e que tem como objetivo realizar uma tragédia familiar.

Após as tragédias como as que já aconteceram com a morte de adolescentes no jogo, muito se fala na questão de relacionamento entre pais e filhos, na ausência dos pais, no pouco e supérfluo diálogo, na falta de referência para os filhos e em tantas outras deficiências no convívio familiar.

Entre tantos pontos agora destacados, gostaria de lembrar duas coisas. A primeira é que o maldito jogo chega aos adolescentes através de um dispositivo com Facebook e WhatsApp. E a segunda é que o adolescente precisa de ter acesso à rede social de madrugada para conhecer as instruções do jogo. Essas duas coisas mostram que os pais têm a sua parcela de culpa, mesmo que seja por omissão ou por não saberem dizer não.

Vou utilizar a polémica do jogo enquanto "cavalo de Tróia" para trazer outros questionamentos aos senhores pais. Sabemos que a tecnologia tem benefícios e, entre eles, ajuda no desenvolvimento dos adolescentes. Mas isto não quer dizer que eles precisem e possam viver imersos na tecnologia como se fossem adultos de consciência formada. Aliás, há muitos adultos que voltaram a ser crianças diante de um mágico telemóvel com WhatsApp e Facebook.



Não, a culpa não é unicamente da Baleia. Há muita coisa fora de controle na vida familiar. Questiono-me sobre que sentido faz um adolescente (e pior, às vezes crianças) receber dos seus pais um telemóvel com internet. Comunicar com os pais? Com os colegas? Não, isso não é indispensável



Há uns 10 anos aprendi algo com um cidadão norte-americano, diretor de uma empresa que vende tecnologia para a Educação. Estando nos EUA, a meca da tecnologia e ainda mais, vendendo equipamentos de tecnologia, chamou-me a atenção saber que na sua casa havia somente um computador para o filho de 14 anos utilizar, com horários controlados e na sala de jantar, pois todos podiam monitorar o que o adolescente fazia.

Gostei da ideia. A nossa casa precisa de ter condições para que os adolescentes acompanhem a evolução do mundo, mas tudo isso pode ser de maneira doseada e monitorada. Isto não é novidade e não se refere somente ao computador. Com a popularização da TV a partir da década de 80, muitas famílias passaram a colocar televisores nos quartos, abrindo uma infinidade de coisas boas e más (estou convicto de que mais más que boas) para que os adolescentes, e também os pais, façam do quarto a sua morada e um território sem lei. Quantas pessoas de todas as idades já entravam pela madrugada dependentes da TV, que depois foi incrementada pelos leitores de vídeo (lembra-se?), pelos jogos de vídeo, depois pelos leitores de DVD e agora dependentes do computador, tablet e telemóvel?

Há alguns anos que se fala do perigo da pedofilia que, em geral, chegava até os adolescentes pelas salas "chat", agora substituídas pelas comunidades virtuais onde as mais notáveis são o Facebook e o WhatsApp. Além do "chat", chegam os desafios como esta Baleia Azul, que bem podia ser chamada de Orca, a Baleia Assassina.



Tecnologia sim, é claro. É fruto da inteligência, dom de Deus. Mas escravidão não! Se acha que o seu filho será infeliz por não ter acesso ao computador, tablet e telemóvel da mesma forma que os seus colegas têm, está na hora de rever o seu itinerário educacional



Este não é o único problema. Há outros menos graves, mas também muito nocivos à formação dos adolescentes. Pense na quantidade de imagens de nudez e vídeos de sexo explicito que circulam nestes grupos de WhatsApp. Há pouco tempo soube que num desses grupos de adolescentes do Ensino Secundário de uma escola circulava um ficheiro áudio de conversas e gemidos, gravados de forma escondida no encontro de um casal de alunos que se escondeu na casa de banho da escola durante uma festa. Conseguimos imaginar o estrago que coisas assim, que não são esporádicas mas sim frequentes, vão fazendo numa consciência em formação?

Não, a culpa não é unicamente da Baleia. Há muita coisa fora de controle na vida familiar. Questiono-me sobre que sentido faz um adolescente (e pior, às vezes crianças) receber dos seus pais um telemóvel com internet. Comunicar com os pais? Com os colegas? Não, isso não é indispensável. Se o motivo for realmente comunicar, um telemóvel simples, sem acesso à internet, funciona muito bem. E que sentido faz colocar um computador no quarto do filho? Ou deixar um tablet de livre uso?

Se um adolescente acorda às 4h20 para receber instruções é porque tudo isto está à sua disposição. Se essa Baleia quiser conversar com os meus filhos adolescentes, terá que ligar para nosso telefone fixo de madrugada, pois em casa eles não têm telemóvel com internet (embora usem o nosso de vez em quando), o tablet fica guardado connosco e o computador fica na cozinha. Além disso, há um programa que monitora toda a rede da casa com relatórios de todas as páginas visitadas e bloqueia o acesso em certos horários. E garanto que eles não são infelizes por isso, mas estão sendo preservados.

Tecnologia sim, é claro. É fruto da inteligência, dom de Deus. Mas escravidão não! Se acha que o seu filho será infeliz por não ter acesso ao computador, tablet e telemóvel da mesma forma que os seus colegas têm, está na hora de rever o seu itinerário educacional. Talvez a sua presença ao lado dele possa suprimir a ausência da tecnologia.



 

André Parreira
Consultor em Tecnologia Educacional.
Fonte: "Conferência Nacional dos Bispos do Brasil"
Adapt.: SNPC
Publicado em 07.05.2017

 

 
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