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Leitura: "Experiência de Deus na contemporaneidade"

«Se na modernidade, parecia que tudo apontava para um mundo sem Deus e sem perspetiva de religiosidade, na pós-modernidade ocorre um regresso ao transcendente. Há uma ânsia cada vez maior de experiências e de práticas religiosas. Uma busca incessante pelo sagrado, sem por isso ter de escutar autoridades ou teólogos. Trata-se da busca por algo que atinja o coração humano e que o faça sentir-se querido e amado.»

Nasce desta perspetiva a reflexão que a teóloga brasileira Maria Clara Bingemer, que recentemente esteve em Portugal, propõe no livro "Experiência de Deus na contemporaneidade - Entre o viver e o contar", publicado pela Paulinas Editora.

A investigadora dedica grande parte da obra a caracterizar os contornos que apresenta hoje a mística cristã, defendendo que místico é quem «realiza uma experiência profunda de união amorosa com Cristo e a vive na sua realidade, e que, a partir desta, é impulsionado a transformar a realidade de injustiça na qual esteja inserido».

No termo do livro são apresentadas as histórias de vida de três contemporâneos: a ativista norte-americana Dorothy Day, a jovem judia Etty Hillesum e o jesuíta belga Egide van Broeckhoven, biografias que têm «a finalidade de ilustrar, concreta e palpavelmente» o que foi apontado ao longo do texto.

 

Mística de olhos abertos e ouvidos atentos ao ruído mundano
Maria Clara Bingemer
In "Experiência de Deus na contemporaneidade"

Todos os místicos, de qualquer género, tempo ou espaço, podem ser definidos como pessoas apaixonadas por Deus. O divino entrou nas suas vidas com a força e a violência de uma tremenda paixão e tomou-os por inteiro, subjugando-os ao imperativo do seu amor. Na relação com Deus experimentaram gozo e dor, ausência e presença, cada um ao seu estilo próprio e original. Mas todos e todas, sem exceção, tiveram a certeza de que estavam lidando com o Mistério mais profundo e santo, com aquilo – ou melhor, Aquele – que as religiões procuraram nomear, mas que escapa sempre a toda a tentativa humana de circunscrevê-lo e captá-lo.

A experiência mística, sem dúvida, é uma experiência de Deus, por definição mesma e em fidelidade àquilo que a etimologia da palavra, na sua derivação de Mistério, quer significar. Na fonte das narrativas das experiências dos místicos de todo tempo e lugar pode beber a teologia, para conhecer melhor o Deus da sua fé. Pois, embora esses «amantes de Deus» não sejam nem se proponham ser teólogos académicos, é inegável que nos seus escritos há muito de teologia, no sentido mais estrito e pleno da palavra.



A experiência mística, assim, não consiste tanto em ter visões extraordinárias, como em ter «uma visão nova de toda a realidade», descobrindo a Deus como a sua última verdade, como o seu fundamento vivo, atuante e sempre novo



Isso diz Karl Rahner a propósito de Santo Inácio e dos seus "Exercícios espirituais". Isso dizemos nós a propósito daquilo que Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz deram como contribuição para a cristologia, do que os Padres da Igreja, místicos muitos, senão todos eles, elaboraram a partir das suas experiências sobre a Trindade Santa. E tantos, tantos outros.

Com os místicos contemporâneos não é diferente. Lendo os seus escritos, sobretudo aqueles mais autobiográficos, que contêm o relato das suas experiências, podemos perceber um rosto divino que ali se delineia e que ajuda a teologia a elaborar, hoje, o seu discurso com mais pertinência.

Os místicos contemporâneos, que viveram a experiência teopática, da passividade configurada pelo amor divino e pela união com o Mistério, são mediadores adequados para dizer quem é Deus e anunciá-lo no meio de um mundo secular que parece ter perdido o rumo da linguagem sobre Ele. Sendo, enquanto místicos, testemunhas do Absoluto que experimentaram nas suas próprias vidas, o seu testemunho é uma forma de mediação pela qual o divino tenta, hoje, dizer-se e expressar-se. O teólogo Johann Baptist Metz usa a expressão «mística de olhos abertos» para falar do clamor da terra, da união entre a experiência de Deus inspirada biblicamente e a perceção intensa do sofrimento alheio. Nas suas palavras: «a experiência de Deus inspirada biblicamente não é uma mística de olhos fechados, mas, sim, uma mística de olhos abertos; não é uma perceção relacionada apenas connosco mes - mos, sem uma perceção intensificada do sofrimento alheio».



O místico de olhos abertos abre bem o seu olhar para perceber toda a realidade, porque sabe que a última dimensão de todo o real está habitada por alguém, por Deus. Relaciona-se com o mundo, dando-se conta dos sinais de Deus que enchem toda a Criação



Seguramente Metz refere-se, aí, à etimologia da palavra «mística », que vem do verbo grego "múó", «fechar, calar-se, fechar a boca ou os olhos». Vai mais longe, afirmando que a mística na tradição judaico-cristã é uma mística de olhos abertos. A experiência mística, assim, não consiste tanto em ter visões extraordinárias, como em ter «uma visão nova de toda a realidade», descobrindo a Deus como a sua última verdade, como o seu fundamento vivo, atuante e sempre novo.

O místico de olhos fechados vive, com profundidade e consciência inusitadas, a viagem sem fim do encontro com Deus que cada um inicia desde o primeiro dia da existência. Sair das suas mãos e entrar no espaço e no tempo da vida e do mundo não foi uma despedida, mas, pelo contrário, o começo de um encontro que já não tem fronteiras. Fecham-se os olhos para viver a intimidade povoada pelo Mistério inesgotável de um Deus voltado para nós. Esta mística foi muito bem refletida e desenvolvida em todas as suas etapas por grandes mestres da vida espiritual, como Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz.

Por outro lado, o místico de olhos abertos abre bem o seu olhar para perceber toda a realidade, porque sabe que a última dimensão de todo o real está habitada por alguém, por Deus. Relaciona-se com o mundo, dando-se conta dos sinais de Deus que enchem toda a Criação com a sua ação incessante, com a sua fascinante criatividade sem fim. A paixão da sua vida é olhar contemplativamente, e o místico não se cansa de contemplar a vida por que busca nela o rosto de Deus. Mergulha nas situações humanas, dilaceradas ou felizes, procurando essa presença de Deus que atua dando vida e liberdade. Já a escolástica e a teologia clássica afirmam que a mística é "fides occulata", «uma fé dotada de olhos», uma fé iluminada porque pode ver a realidade à luz de Deus.



A mística cristã, portanto, se contempla Deus, só pode e só tem possibilidade de contemplá-lo pelo caminho da Alteridade do Outro. O rosto do Outro, do próximo, é o único caminho que faz com que o Deus contemplado não seja uma projeção enganosa



Encontram-se os dois tipos de místicos na história da Igreja: os de olhos abertos e os de olhos fechados. De ambos há abundantes exemplos na Bíblia e na tradição. No Antigo Testamento, os profetas têm as suas visões e êxtases com os olhos bem abertos, tal como o diz o profeta Balaão. Os seus olhos veem a partir da perspetiva de Deus e, apesar de contratado pelo rei para maldizer o povo judeu, ao contemplá-lo na sua verdade, vê-o cumulado de bênçãos do Altíssimo e anuncia-lhe um futuro de paz e de abundância. Trata-se de alguém que contempla a Deus de olhos abertos, perscrutando finamente a história, inspirado pelo que sente no seu coração e que lhe transborda pelos olhos. Assim o olhar com que vê o povo é parte intrínseca da sua experiência de Deus.

Nesse ver, nesse abrir dos olhos, o que se divisa é a espessura do humano e do criado como lugar de revelação do Deus invisível. A mística cristã, portanto, se contempla Deus, só pode e só tem possibilidade de contemplá-lo pelo caminho da Alteridade do Outro. O rosto do Outro, do próximo, é o único caminho que faz com que o Deus contemplado não seja uma projeção enganosa, uma fantasia alienante que afasta da realidade que clama por justiça.

É assim que o Deus da Bíblia, desde os primórdios da trajetória do povo de Israel, se vai revelar como o "go’el", o defensor, o porta-voz do órfão, da viúva, do estrangeiro, do pobre, enfim, de todo aquele que não tem quem fale por ele, por ela. Mística e ética estarão, desde aí, para sempre unidas e reunidas na fé bíblica. E não haverá possibilidade de se viver uma sem a outra. Pois Deus fala pela boca dos profetas, dizendo que vomita os sacrifícios de novilhos gordos oferecidos às expensas da exploração do pobre e da injustiça cometida à socapa nos palácios sumptuosos. Ou acusa os que jejuam e louvam a Deus ao mesmo tempo que vendem o pobre por um par de sandálias.



Quem não fruiu da intimidade e do conhecimento do Senhor com os olhos fechados poderá encontrá-lo com os olhos abertos sobre uma realidade que parece desmentir a sua existência a cada passo?



No Novo Testamento, Jesus de Nazaré, em quem a primeira comunidade reconheceu o Cristo de Deus, levará esta regra de ouro até às últimas consequências. No meio da sua relação amorosa e filial confiança com o Pai, Jesus abre os olhos e vê à sua volta as pessoas excluídas, pobres, pecadoras, doentes. Em suma, os últimos de todas as categorias não escapam ao seu olhar compassivo, que sabe ver e sentir de maneira nova. Recria o olhar, recriando ao mesmo tempo a vida das pessoas em quem pousa os seus olhos, as quais, vendo-se refletidas no espelho vital desses olhos, redescobrem-se filhas, irmãs, seres humanos com nova dignidade. O verdadeiro olhar sobre a realidade, portanto, tem de ser capaz de medir-se com as vítimas do mal, da injustiça e da violência neste mundo: o pobre, o doente, o infeliz, o marginalizado. Aí reside a prova da conversão, do amor a Deus e do respeito ao outro, do desejo de servir a ambos, coração da verdadeira mística.

E o Evangelho de Mateus, no capítulo 25, dirá que o valor da vida humana não é medido pelo encontro com os primeiros, os mais ricos, os mais famosos como habitualmente se pensa. Mas a medida é o valor e a atenção prestada aos últimos, aos menores. E aí é que se agudiza o olhar místico, que percebe já agora o Mistério que no juízo escatológico verá com absoluta nitidez: «Quando te vimos, Senhor?» – «No menor dos meus irmãos, era Eu que habitava, foi a mim que o fizestes».

A espiritualidade, a mística, portanto, será uma atitude alerta, vigilante, de olhos abertos para ver, ler, entender a realidade, e transformá-la segundo o Espírito de Deus. Trata-se de uma forma concreta, movida pelo Espírito, de viver o Evangelho. Maneira precisa de viver «diante do Senhor» em solidariedade com todos os homens, sobretudo os mais pobres e oprimidos.

Assim era o olhar dos profetas e de Jesus de Nazaré. Assim nos parece ser o olhar dos místicos que hoje, em pleno deserto da secularidade, buscam as pegadas de Deus nos subterrâneos da história. Avançam eles e elas no Mistério de um encontro com Deus onde se purgam as suas impurezas e insuficiências, sendo, então, mais e mais introduzidos na intimidade sem fim da união amorosa. Aquilo que contemplam fechando os olhos e mergulhando, no seu interior, na oração lhes permitirá ver com olhar transfigurado a realidade, purificada de preconceitos e discriminações. Pois quem não fruiu da intimidade e do conhecimento do Senhor com os olhos fechados poderá encontrá-lo com os olhos abertos sobre uma realidade que parece desmentir a sua existência a cada passo?



O místico de olhos abertos não é cego sobre a realidade. Respeita-a como é na sua ternura ou na sua dolorosa dureza. Mas sabe que é amada por Deus e, por isso, se situa ante qualquer espaço, situação ou pessoa, buscando a transparência e a diafania, a luminosidade que crê existir a partir da sua experiência



Enquanto o mal se impõe com a brutalidade da violência, da traição e do sangue derramado, ganhando as primeiras páginas dos jornais e das telas da TV e da internet, a ação de Deus no mundo é humilde e discreta e só pode ser captada pelos sentidos abertos, atentos e purificados daqueles e daquelas que veem beleza onde a olho nu só aparece destruição e maldade, e sabem descodificar os signos invertidos do Mistério do amor que se diz no avesso de si mesmo.

Para o olhar contemplativo do místico, nenhuma realidade é profana, pois Deus está presente em toda ela, amando-a e libertando-a a partir de dentro de si mesma com discrição infinita. Percebendo essa presença, dela tomando consciência e experimentando-a como amor, o místico revela-a aos outros e une-se à sua ação libertadora.

O místico de olhos abertos não é cego sobre a realidade. Respeita-a como é na sua ternura ou na sua dolorosa dureza. Mas sabe que é amada por Deus e, por isso, se situa ante qualquer espaço, situação ou pessoa, buscando a transparência e a diafania, a luminosidade que crê existir a partir da sua experiência. Contempla o mundo com os olhos do amor, pois apenas o amor faz ver o que não é evidente, tal como o Servo de Javé, que «não tinha graça nem beleza para atrair os nossos olhares», mas era o lugar dolente onde se gerava a Salvação naquele que tomava sobre si as nossas dores e enfermidades.

Diante da dor e da dureza da realidade, o místico de olhos abertos vê então aquilo que não é evidente, comprometendo-se com aquela semente de vida que parece sufocada pela morte e a destruição. E isso enche-o de uma esperança que aparece diante do mundo como insensata e perigosa. Pois a partir da iluminação interior, que lhe foi dada quando, com olhos fechados, buscava diligente e amorosamente o contacto com o mistério de amor do seu Deus no recolhimento e na oração silenciosa, agora, com os olhos abertos, vê tudo de outra maneira, com uma lucidez nova em relação à diafanidade do real, grávido de vida e esperança.



Na atualidade, há igualmente uma crescente ênfase na importância de se fazer teologia não somente a partir de textos, mas também de testemunhas. A conexão da fé com a práxis do seguimento de Jesus implica que isso não possa ser substituído por puras reflexões teoréticas ou investigações de quaisquer tipos



A fonte primordial para o conteúdo da experiência mística é o testemunho dos próprios místicos. Eles são os primeiros e mais importantes teóricos da sua experiência. A biografia do crente é a condição de possibilidade de uma leitura teológica da experiência mística e a sua mensagem no mundo de hoje. E isto é verdade a ponto de a biografia do crente e a concreta configuração que a sua existência toma a partir do evento de Deus na sua vida e da narrativa que disso faz se manifestarem como uma história de salvação, uma concreta exegese da fé.

Muitos teólogos contemporâneos afirmam, cada vez mais, a importância de passar de uma teologia de corte rigidamente especulativo a uma teologia narrativa, onde os Mistérios revelados possam ser ditos, narrados e, só então, refletidos. Na atualidade, há igualmente uma crescente ênfase na importância de se fazer teologia não somente a partir de textos, mas também de testemunhas. A conexão da fé com a práxis do seguimento de Jesus implica que isso não possa ser substituído por puras reflexões teoréticas ou investigações de quaisquer tipos. A teologia é, até certo ponto, obrigada a pensar a partir do seguimento de Jesus, podendo ser chamada teologia apenas quando este seguimento define o lugar adequado de reflexão, e também quando a reflexão é a prática do compromisso existencial de tal seguimento.

Quando isto acontece, então, a leitura das vidas dos místicos será algo equivalente a ler a revelação de Deus mesmo, o qual escreve, pelo seu Espírito, no corpo e na vida do místico. O pensamento teológico, então, não se ocupa de Deus como objeto externo, mas é Deus em pessoa que se impõe e comunica ao pensamento humano nos êxtases de uma existência informada e inspirada pela fé.



 

Edição: SNPC
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 27.04.2018

 

Título: Experiência de Deus na contemporaneidade - Entre o viver e o contar
Autora: Maria Clara Bingemer
Editora: Paulinas
Páginas: 304
Preço: 16,90 €
ISBN: 978-989-673-630-9

 

 
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