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Eutanásia, filme "Silêncio", livro "Anunciações" e nova tradução dos Evangelhos na Brotéria

Eutanásia, filme "Silêncio", livro "Anunciações" e nova tradução dos Evangelhos na Brotéria

Imagem "Silêncio", de Martin Scorsese | D.R.

Os recentes debates sobre a eutanásia demonstram como o tema «continua ainda a ser fonte de inúmeros equívocos, em que uma sede cega de afirmação dos direitos individuais parece querer sobrepor-se àquilo que realmente importa, a dignidade da pessoa quando se aproxima do seu fim. Dignidade que nem a idade avançada, nem a doença grave, nem a incapacidade física ou mental deveriam retirar», escreve António Júlio Trigueiros, sj, diretor da Brotéria, na mais recente edição da revista.

O editorial recorda que em outubro «os cinco últimos bastonários portugueses da Ordem dos Médicos assinaram uma carta contra a prática da eutanásia, do suicídio assistido e da distanásia e declararam que "o médico que as pratique nega o essencial da sua profissão, tornando-se causa da maior insegurança nos doentes e gerador de mortes inaceitáveis". O atual bastonário, recentemente eleito, Miguel Guimarães, considera que esta é uma matéria que não deve ser entregue aos deputados, porque diz respeito a valores maiores e deve, por isso, ser alvo de um amplo debate na sociedade portuguesa. Destaca ainda que o Código Deontológico dos médicos proíbe a eutanásia e que, em caso de legalização, é preciso perceber qual a lei que terá mais força».

No primeiro artigo da Brotéria de fevereiro, Vasco Pinto de Magalhães, sj lembra que «o sofrimento nunca é só físico; ele é bio-psíquico e sempre, também, social e cultural: a perda de uma relação, a perda do sentido, a grande solidão de não se sentir amado. Contudo as terapias da dor e, sobretudo, os Cuidados Paliativos que incluem necessariamente as dimensões sociais e espirituais do sofrimento, aplicados a tempo e criteriosamente - e é aí que é urgente continuar a investir em meios e em pessoal preparado - ajudam com sucesso a acompanhar afetiva e efetivamente, sem dor, os tempos difíceis ou terminais de cada vida».

«Sabemos que na nossa sociedade se preconiza a harmonia e a perfeição, sendo duro viver com as nossas vulnerabilidades e as dos outros, mas ao mesmo tempo é algo desafiante. O velho, doente ou não, constitui-se numa tremenda conquista da humanidade e não num problema. Saibamos viver com esta nova e fantástica realidade», observam Rui Proença Garcia e Paula Portugal.



Os dilemas suscitados pelo filme "Silêncio" «ilustram condições paradoxais, muito dificilmente, ou nunca, totalmente resolúveis. Revelam que no ser cristão o paradoxo não é uma impressão rápida, fruto de uma primeira leitura superficial, que qualquer apologética básica, assente numa confiança ingénua na racionalidade, rapidamente conseguiria resolver»



No artigo que fecha a secção "Atualidade", Walter Osswald, distinguido com o Prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes, critica a proposta de legalização da marijuana, lembrando que se trata de uma droga que «causa toxicodependência, tem efeitos negativos sobre o comportamento, a memória, a capacidade de decisão e de concentração» e que «o seu uso prolongado ou habitual pode induzir graves efeitos secundários», além de ter «reflexos sociais gravosos». Em sentido contrário, o professor catedrático aposentado chama a atenção para a «novel e revolucionária técnica de modificação do genoma humano, designada pelo acrónimo de CRISPR, que reúne eficácia e economia. Trata-se de uma técnica que tem potencialidades muito benéficas, como por exemplo o tratamento de doenças genéticas ou até de algumas forma de cancro».

No espaço sobre "Sociedade e política", Ricardo Morgado perspetiva «o abandono escolar, a cultura da avaliação, a liberdade de escolha e a "pegada" curricular", defendendo que «a educação em Portugal necessita de um verdadeiro pacto de regime, que envolva o maior número possível de partidos e de intervenientes no sector, tendo em vista a construção de um cenário de estabilidade para as escolas, os professores e os alunos, o que pressupõe a não instrumentalização das políticas enquanto ferramentas de experimentação pedagógica e curricular e de veiculação de ideologias».

«Olhares cruzados de desejo: perspetivas sobre as conversações entre a Santa Sé e o governo comunista chinês» é o tema desenvolvido na secção "Religião", em que o autor, Xauen, menciona «três típicos problemas de encaixe na realidade» do país. O primeiro «é a existência do organismo regulador do Partido comunista (a chamada Associação Patriótica Católica Chinesa), que controla as decisões, atividades e projetos da Igreja e, evidentemente, também a nomeação dos bispos; em segundo lugar, os bispo e eleitos ao longo dos anos, cuja ordenação tem sido realizada intencionalmente sem o concurso do Papa mas sob o patrocínio da Associação Patriótica, dos quais ainda vivem sete bispos; finalmente, os mais de trinta bispos (dum total de aproximadamente 100 na China) não reconhecidos pelo governo, mas apenas pelos católicos na China, e em Roma».



«O que é o sucesso apostólico? Um colecionar orgulhoso de triunfos, pela supremacia persuasora de convições e argumentos, ou, em algumas ocasiões, ser rejeitado e desprezado por todos, num fracasso total e completo? O que importa mais? Ter resultados com que se envaidecer, estar sempre a crescer, ou nunca deixar de experimentar também nada ter que possa orgulhosamente mostrar ou registar?»



Isaías Hipólito detém-se na tradução dos Evangelhos realizada «pelo conceituado classicista Frederico Lourenço», começando por realçar «aspetos merecedores de vivo aplauso» e prosseguindo com «diversos exemplos de limitações relevantes», sobretudo em S. Marcos, «em matéria de regras da arte, lacunas, sensibilidade ao carácter específico do texto evangélico, aspetos retóricos, teológicos, metodológicos e de interpretação», numa obra «singularmente levada a cabo com a preocupação confessada de privilegiar a materialidade histórica e linguística do texto».

"Anunciações. Um romance" é lido por Mário Garcia, sj na secção "Artes e Letras": «O enigma deste livro de Maria Teresa Horta mostra-se na duplicidade/cumplicidade entre a Anunciação a Maria (Lc 1, 26-38), evidenciada na capa pela reprodução do quadro de Botticelli, e o plural do título, "Anunciações", sem artigo nem destinatária; em segundo lugar, pelo subtítulo: "Um romance". O índice, muito elaborado, coloca-nos diante da paisagem "retórica": dedicatória, epígrafe, prólogo, epílogo, "post-scriptum", selo, de um itinerário em catorze estações».

Hermínio Rico, sj centra-se no filme "Silêncio", de Martin Scorsese, que «interroga, abala seguranças, lança a dúvida, faz hesitar». Os «dilemas» levantados pela obra «relevam de contextos pessoais em que a fidelidade a valores igualmente importantes parece reclamar ações contraditórias. São momentos de concorrência de sentidos antagónicos. Mas, a um nível mais fundo, ilustram condições paradoxais, muito dificilmente, ou nunca, totalmente resolúveis. Revelam que no ser cristão o paradoxo não é uma impressão rápida, fruto de uma primeira leitura superficial, que qualquer apologética básica, assente numa confiança ingénua na racionalidade, rapidamente conseguiria resolver». O texto sugere, a terminar, «lições» e interrogações para a Igreja, hoje: «O que é o sucesso apostólico? Um colecionar orgulhoso de triunfos, pela supremacia persuasora de convições e argumentos, ou, em algumas ocasiões, ser rejeitado e desprezado por todos, num fracasso total e completo? O que importa mais? Ter resultados com que se envaidecer, estar sempre a crescer, ou nunca deixar de experimentar também nada ter que possa orgulhosamente mostrar ou registar? Foi assim com Jesus. O melhor serviço não será, também para a Igreja, aquele onde mais radicalmente se dá a entrega da vida?».

O filme é um dos destaques do "Caderno Cultural" da Brotéria, a par do livro "Pensamentos", de Pascal, Olivier Messiaen e as exposições sobre Almada Negreiros, patente na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e "Além de Grão Vasco - Do Douro ao Mondego: A pintura entre a Renascença e a Contra-Reforma, que até ao início de março ocupou o Museu Nacional Grão Vasco, em Viseu.



 

SNPC
Publicado em 29.03.2017

 

 

 
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