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Europa lutou para se libertar do muro e hoje volta a erguê-lo, diz papa a líderes do continente

Europa lutou para se libertar do muro e hoje volta a erguê-lo, diz papa a líderes do continente

Imagem Papa Francisco com lideres da Europa | Vaticano, 24.3.2017 | D.R.

Grande parte dos europeus insurgiu-se durante décadas para fazer cair o muro de Berlim, que não só separava a cidade como também o continente, mas ainda não passados 30 anos voltam a erguer-se barreiras, assinalou hoje o papa, no Vaticano, ao receber chefes de Estado e de governo presentes em Roma para a celebração dos 60 anos dos tratados que constituíram a Comunidade Económica Europeia e a Comunidade Europeia da Energia Atómica.

«Num mundo que conhecia bem o drama dos muros e das divisões, tinha-se muito clara a importância de trabalhar por uma Europa unida e aberta, e de todos se esforçarem por eliminar essa barreira artificial que, desde o mar Báltico até ao Adriático, dividia o continente. Quanto se lutou para derrubar esse muro. No entanto, hoje perdeu-se a memória desse esforço», declarou Francisco.

O esquecimento, todavia, foi mais longe: «Perdeu-se também a consciência do drama das famílias separadas, da pobreza e da miséria que provocou aquela divisão. Onde durante gerações se aspirava a ver cair os sinais de uma inimizade forçada, discute-se agora como deixar de fora os "perigos" do nosso tempo: começando pela larga coluna de mulheres, homens e crianças que fogem da guerra e da pobreza, que só pedem para ter a possibilidade de um futuro para eles e para os seus entes queridos».



«Que cultura propõe a Europa de hoje? O medo que se nota encontra muitas vezes a sua causa mais profunda na perda de ideais. Sem uma verdadeira perspetiva de ideais, acaba-se por se ser dominado pelo temor de que o outro nos mude os nossos costumes arraigados, nos prive das comunidades adquiridas, ponha de alguma maneira em discussão um estilo de vida baseado só, com frequência, no bem-estar material»



O papa lembrou os pilares sobre os quais os inspiradores da União a quiseram construir e que mantêm hoje a mesma atualidade - «a centralidade do homem, uma solidariedade eficaz, a abertura ao mundo, a busca da paz e desenvolvimento, a abertura ao futuro» -, que abrem «a possibilidade de edificar sociedades autenticamente laicas, sem contraposições ideológicas, nas quais encontra igualmente o seu lugar o procedente, o autóctone, o crente e o não crente».

«Os pais fundadores recordam-nos que a Europa não é um conjunto de normas a cumprir ou um manual de protocolos e procedimentos a seguir. É uma vida, uma maneira de conceber o homem a partir da sua dignidade transcendente e inalienável, e não só como um conjunto de direitos que há que defender ou pretensões a reclamar», apontou.

As afirmações anteriores revelam a matriz que orientou o discurso de Francisco, que procurou estabelecer, em múltiplas instâncias, ligações e coerência entre passado, presente e futuro, tal como atesta a Bíblia, que «oferece um método pedagógico fundamental: a época em que vivemos não se pode entender sem o passado, que não deve ser considerado como um conjunto de sucessos longínquos, mas como a seiva vital que irriga o presente».

A «questão migratória», um dos focos principais para onde apontou o papa, «coloca uma pergunta mais profunda, que é sobretudo cultural. Que cultura propõe a Europa de hoje? O medo que se nota encontra muitas vezes a sua causa mais profunda na perda de ideais. Sem uma verdadeira perspetiva de ideais, acaba-se por se ser dominado pelo temor de que o outro nos mude os nossos costumes arraigados, nos prive das comunidades adquiridas, ponha de alguma maneira em discussão um estilo de vida baseado só, com frequência, no bem-estar material».



A União Europeia nasceu «como unidade das diferenças e unidade nas diferenças. Por isso as peculiaridades não devem assustar, nem se pode pensar que a unidade se preserva com a uniformidade», como demonstra a história do continente, «fortemente marcada pelo encontro com outros povos e culturas»



«Pelo contrário, a riqueza da Europa foi sempre a sua abertura espiritual e a capaciade de colocar-se questões fundamentais sobre o sentido da existência. A abertura para o sentido do eterno une-se também a uma abertura positiva, ainda que não isenta de tensões e de erros, para o mundo», vincou.

São também os medos de perder privilégios e negá-los a outros que alimentam «os populismos», que «florescem precisamente devido ao egoísmo», o qual «encerra num círculo estreito e asfixiante» e não permite «superar a estreiteza» dos pensamentos nem «olhar mais além».

Ao contrário desta visão, a União Europeia nasceu «como unidade das diferenças e unidade nas diferenças. Por isso as peculiaridades não devem assustar, nem se pode pensar que a unidade se preserva com a uniformidade», como demonstra a história do continente, «fortemente marcada pelo encontro com outros povos e culturas», e por isso «a sua identidade é, e sempre foi, uma identidade dinâmica e multicultural».

A Europa voltará a «encontrar esperança» quando se abrir «aos jovens, oferecendo-lhes perspetivas sérias de educação, possibilidades reais de inserção no mundo do trabalho», quando «investe na família, que é a primeira e fundamental célula da sociedade», quando «respeita a consciência e os ideais dos seus cidadãos», quando «garante a possibilidade de ter filhos, com a segurança de os poder manter» e quando «defende a vida com toda a sua sacralidade».

A terminar, o papa renovou a «proximidade da Santa Sé e da Igreja a toda a Europa, a cuja edificação contribuiu desde sempre e contribuirá sempre, invocando sobre ela a bênção do Senhor, para que a proteja e lhe dê paz e progresso».









 

SNPC
Publicado em 24.03.2017

 

 

 
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