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Estes poderosos que não conhecem o sentido da culpa

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Imagem D.R.

No vasto romance "Uma história russa", Ludmila Ulitskaya escreveu há alguns anos uma consideração que me tocou, ao ponto de a transcrever: «Estranha e incompreensível lei, ao sentido da culpa estão sempre inclinados os mais inocentes».

Leio esta frase em sentido moral e até religioso, pensando em quantos percecionaram a certo ponto da sua existência um sentimento de culpa pela forma como vai o mundo, diante da fome de uns e a saciedade de outros, da bondade de uns e da belicosidade de outros.

Dever-se-ia, creio, considerar o sentido da culpa de como vão as coisas do mundo uma mola poderosa que impele a procurar remediá-las com as pobres forças individuais ou de grupo. A célebre frase de Camus, «revolto-me, logo existimos», lança do individual ao coletivo, mas parte sempre do individual.

Entre o sentido de culpa e a não aceitação do mundo tal como está há uma relação muito estreita. Uma pessoa revolta-se pela injustiça que sofre na própria pele, mas também por aquela que vê feita aos outros, sofrida por outros. O sentido de culpa é neste caso um disparo para a ação, e atenção se ela não ocorre!

Numa velha e fundamental antologia de Freud, há um capítulo que me tocou muito, "Os delinquentes por sentido de culpa". Estudando os seus pacientes, Freud descobriu que alguns delinquentes encontravam «alívio psíquico» ao realizar más ações, com o desejo latente de serem punidos.

Valeria a pena, dizia ainda o autor, ter este fenómeno em conta no momento de julgar os "delinquentes", distinguindo-os daqueles que não têm sentido de culpa, «iluminando vários pontos obscuros na psicologia do delinquente e fornecendo um novo fundamento psicológico à pena».

Na literatura pensa-se irresistivelmente em muitos personagens de "delinquentes" de Dostoiévski, em particular no "Crime e castigo", mas também se pensa no inocente Aljoscha, dos "Irmãos Karamázov". Mas quantos dos nossos juízes e procuradores leram Freud e Dostoiévski?

Hoje o sentido de culpa parece totalmente ausente da pequena parte da humanidade que oprime, manipula, explora a grande parte da humanidade, nos Putin como nos Trump e nos altos funcionários das multinacionais e do Banco Mundial, mas mais em geral devemos hoje falar da ausência de um super-eu não frigidamente egoísta naqueles que presidem ao movimento da história.



 

Goffredo Fofi
In "Avvenire"
Trad. / edição: SNPC
Publicado em 31.03.2017

 

 
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