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«Este capitalismo tem uma dimensão tumoral, patológica, cancerosa e transforma a economia na economia do inumano»

Imagem D.R.

«Este capitalismo tem uma dimensão tumoral, patológica, cancerosa e transforma a economia na economia do inumano»

É «perigoso deixar-se a crítica do capitalismo neoliberal apenas à esquerda», porque o cristão, independentemente das suas opções políticas, «tem o dever de fazer também essa crítica», considera o diretor do Instituto de Contabilidade e Administração de Coimbra.

Na intervenção que proferiu durante a 12.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, que no último sábado debateu o tema "Cultura e economia: implicações e desafios", Manuel Castelo Branco vincou que o capitalismo atual «tem uma dimensão tumoral, patológica, cancerosa e transforma a economia na economia do inumano».

Assumindo-se como «um cristão ao modo de Ruy Belo», o docente lembrou o acompanhamento que teve, durante cerca de duas décadas, por parte dos Jesuítas, recordou a militância partidária na Juventude Centrista, qualificou o cristianismo de «humanismo radical» e sustentou as suas teses em autores como Erich Fromm, Gilles Lipovetsky e Emmanuel Mounier.

Para Manuel Castelo Branco, «a essência do capitalismo» reside no «lucro», e não na «realização da pessoa humana: «Se o fosse, esta economia não mataria», afirmou, evocando a frase do papa Francisco, várias vezes citada ao longo da Jornada da Pastoral da Cultura.

«O mercado devorou literalmente o trabalho», pelo que «a pessoa não é o referencial da atividade económica», sustentou, acrescentando que na «semântica do capitalismo» não se fala «em pessoas, mas em capital humano, em factor de produção trabalho, recursos humanos».

O mestre em Direito e especialista na área fiscal mostrou-se convicto de que «ao converter a pessoa em factor de produção, o capitalismo "coisifica"» a primeira, tornando-a «em mercadoria de rosto humano».

«O capitalismo devorou também a natureza», assim como «o amor e a bondade», como é patente na «mercantilização do altruísmo»: «Com a aparência de bem, procede-se com o mal do lucro. Não é necessária uma empresa lucrativa para fazer empreendedorismo em matéria de altruísmo, porque este é, por essência desinteressado, gratuito», assinalou.

Na atualidade «a caridade já não é anónima, mas publicita-se, exibe-se de modo quase pornográfico», acrescentou, vincando, de seguida, que também a ética «foi devorada pelo mercado».

«A moda da ética dos negócios, que substitui ou complementa outra moda, a da responsabilidade social, mais não são do que instrumentos subtis e sofisticados de maximizar o lucro», constituindo esta a prioridade do capitalismo, e não «a realização concreta da dignidade do gestor, do trabalhador, do cliente ou fornecedor».

No entender do chefe de gabinete da ex-Ministra da Justiça Celeste Cardona, «o capitalismo é uma verdadeira religião» que aponta para uma «nova transcendência da felicidade, da vida boa», e por isso, hoje, «a transcendência não está associada ao espiritual, ao elevado, ao poético, mas ao material e à possibilidade maximizada do consumo».

«A arte e a cultura foram também devoradas pelo mercado. Hoje, tudo é arte, logo tudo é mercado», frisou, realçando que «a arte é considerada «um divertimento, espetáculo, show-bussiness, na lógica do hiperindividualismo que é hedonista e para o qual só importa o efémero, o presente, o momento, o instante, o aqui e o agora».

Perante a «hiperabundância de objetos culturais», o tempo da contemplação demorada desvaneceu-se: «Somos consumidores de museus, concertos, música, como consumimos carros e anúncios televisivos. Passamos pelas coisas e não temos tempo, a pausa que nos permite fruir».

O mundo capitalista «não apenas apaga a tradição e o passado, como não tem qualquer horizonte e futuro, logo não tem qualquer horizonte de responsabilidade com o rosto dos outros. O outro é o objeto que se possui», deixando de ser «sujeito», vincou o presidente da Coimbra Business School.

Depois de dizer que «à exaustão do trabalho» se responde «com as rotinas do prazer», Manuel Castelo Branco concluiu: «No capitalismo a cultura é instrumento de alienação, e posso dizer isto continuando a não ser marxista».

A intervenção integral da conferência, integrada no painel em que participaram António Gomes de Pinho, presidente da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, e Clara Almeida Santos, vice-reitora da Universidade de Coimbra para a Cultura, está disponível no vídeo seguidamente apresentado.

 




 

Rui Jorge Martins
Publicado em 09.06.2016

 

 
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«A moda da ética dos negócios, que substitui ou complementa outra moda, a da responsabilidade social, mais não são do que instrumentos subtis e sofisticados de maximizar o lucro», constituindo esta a prioridade do capitalismo, e não «a realização concreta da dignidade do gestor, do trabalhador, do cliente ou fornecedor».
«A arte e a cultura foram também devoradas pelo mercado. Hoje, tudo é arte, logo tudo é mercado», frisou, realçando que «a arte é considerada «um divertimento, espetáculo, show-bussiness, na lógica do hiperindividualismo que é hedonista e para o qual só importa o efémero, o presente, o momento, o instante, o aqui e o agora»
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