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A esperança de 2015 começa no coração de uma silenciosa oração

Imagem D.R.

A esperança de 2015 começa no coração de uma silenciosa oração

Diante de um novo ano que começa, pelo menos quando já não se é jovem, a tentação pode ser a de olhar para o mundo e para os seus males e dizer que o sofrimento, a pobreza, a violência serão exatamente as mesmas do velho: como se a vida fosse inexoravelmente induzida pela força opaca daquilo que nós, cristãos, chamamos pecado.

Mesmo o título da mensagem para o Dia Mundial da Paz pronunciada ontem pelo papa, “Não mais escravos, mas irmãos”, se o escutássemos distraidamente, poderia não nos desviar deste fundo tácito de resignação. Não mais escravos, mas irmãos? Se pensarmos nas guerras atrozes em curso, nas execuções, nas prisões, nas perseguições contra as populações cristãs e de minorias religiosas, poderíamos dizer – ainda que não em alta voz, mas para nós – que sim, seria belo sermos todos irmãos, e todavia tal propósito não é mais do que uma utopia.

Mas no Angelus do primeiro dia do ano, o papa quis desafiar esta dúvida amarga incrustada em muitos: a paz é sempre possível, e na sua raiz «está a nossa oração». A paz, portanto, como um dom, como graça a pedir, até porque nem sequer a mais perfeita observância da lei, por si própria, bastaria para construir a paz entre os homens: «A lei, com efeito, privada da graça, torna-se um jugo insuportável», recordou Francisco.

E assim o papa, neste ano que nasce, reafirma que a única raiz da paz está na oração. Contra a inclinação antiga e obscura que temos em nós, de tal maneira inscrita no nosso interior que muitas vezes nem sequer a reconhecemos, só há um antídoto, que é admitir que precisamos de Deus. Contra aquela raiz que obstinadamente regressa à história dos povos e impele a olhar o outro como um objeto, a esmagá-lo, a possuí-lo e a oprimi-lo, a única esperança concreta e, diremos, carnal, não está nos códigos mais meditados e perfeitos, mas em bater insistentemente à porta de Deus: «Livrai-nos do mal», como diz o Pai-nosso.

Mesmo muitos seres humanos, e até cristãos, que sinceramente detestam a opressão e a violência, perante a ideia de que a paz é graça, e não apenas obra e mérito nosso, recalcitram. Seria suficiente, dizem, respeitar a lei, seriam suficientes sistemas sociais justos, seria suficiente sermos bons. Mas também esta presunção das pessoas honestas afasta a paz.

Porque no fundo, e isto aprende-se frequentemente apenas quando se é mais velho, em cada lugar em que vivem os seres humanos, a começar pela família, a paz começa verdadeiramente apenas quando é pedida, como mendigos, de mãos vazias. Imagine-se uma casa cheia de incompreensões e reivindicações, em que o pai se atém puramente à lei, isto é, ao rigoroso respeito dos deveres de cada um; e todavia todos obedecem e a vida desenrola-se ordenadamente, como o trânsito num cruzamento bem regulado por um guarda meticuloso. Mas, e se todos se amassem realmente mais, se se perdoassem realmente mais?

Na raiz da paz «está sempre a oração». Que esta consciência nos acompanhe como se estivesse escrita dentro de nós no novo ano, que, se analisado com os olhos do mundo, poderá parecer fatalmente igual ao velho. A esperança começa do profundo interior de pessoas simples, de pessoas que sabem que precisam de Deus; a esperança deste novo ano começa serenamente, no coração de uma silenciosa oração.

 

Marina Corradi
In "Avvenire"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 2.1.2015

 

 

 
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Contra aquela raiz que obstinadamente regressa à história dos povos e impele a olhar o outro como um objeto, a esmagá-lo, a possuí-lo e a oprimi-lo, a única esperança concreta não está nos códigos mais meditados e perfeitos, mas em bater insistentemente à porta de Deus
A esperança começa do profundo interior de pessoas simples, de pessoas que sabem que precisam de Deus
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