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Esperança, apesar do absurdo, aconteça o que acontecer

Imagem © Beth Moon

Esperança, apesar do absurdo, aconteça o que acontecer

O tema da esperança está fora de estação. Desapareceu dos títulos dos volumes de teologia. É como se tivesse sido a locomotiva do pensamento teológico e depois feito um enorme silêncio. A exceção será a encíclica “Spe salvi”, de Bento XVI, mas mesmo assim não é nada comparado com a época anterior.

Uma das causas deste fenómeno reside no sentimento de que vivemos ainda hoje a ressaca de tantas esperanças projetadas em vão. E assim, a esperança perdeu presença no espaço público e no pensamento teológico contemporâneo. Kafka escrevia: «existe esperança e uma esperança infinita, mas não para nós».

Esperar contra toda a esperança (cf. carta de S. Paulo aos Romanos, 4, 18): não é de uma esperança isenta, empolgada, ligeira, fácil, imediata que se quer refletir e falar, mas de uma esperança que resiste à prova de fogo da desesperança e se confronta com ela

A esperança também integra a desesperança no próprio processo. Ela não ignora o enigma e o absurdo da existência. Por isso pretende-se humilde e depurada.

Para S. Paulo, a esperança é uma das peças-chave da existência cristã. Ela surge como elemento diferenciador e identitário do cristão. Tal como o crente pode ser descrito como aquele que possui a fé, poderíamos também dizer que ele é alguém que vive na espera, na expetativa.

A esperança paulina tem sempre uma onda longa, pois está referida ao futuro de Deus, ao mesmo tempo que se refere ao processo histórico em marcha, em processo, em aberto. Com efeito, a salvação, mesmo «no escuro do sepulcro», está em curso.

O campo semântico da esperança tem em Paulo uma presença, transversalidade, extensão e plasticidade notáveis, que se declina em 3 dimensões: a atitude de quem espera; a esperança enquanto relação com o objeto que se espera»; a causa e fundamento que serve de motivo à esperança.

Na maior parte das vezes, a esperança em Paulo é de natureza teológica, e por isso não reside essencialmente em cumprir ou fazer isto ou aquilo, mas numa expetativa que dá sentido e razão à vida.

Os cristãos vivem na esperança porque as promessas de Deus em Cristo não raro estão em contradição com a realidade que os circunda. A alimentar a esperança está o dom do Espírito Santo, artífice da esperança».

«Uma vez que fomos justificados pela fé, estamos em paz com Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo. Por Ele tivemos acesso, na fé, a esta graça na qual nos encontramos firmemente e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus. Mais ainda, gloriamo-nos também das tribulações, sabendo que a tribulação produz a paciência,a paciência a firmeza, e a firmeza a esperança. Ora a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» (Romanos 5, 1-5).

Mesmo se é difícil conservar a esperança no meio dos sofrimentos, os cristãos podem alegrar-se também nos sofrimentos» porque a vida é inspirada pela «glória».

«Estou convencido de que os sofrimentos do tempo presente não têm comparação com a glória que há-de revelar-se em nós. Pois até a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus.mDe facto, a criação foi sujeita à destruição - não voluntariamente, mas por disposição daquele que a sujeitou - na esperança de que também ela será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus. Bem sabemos como toda a criação geme e sofre as dores de parto até ao presente. Não só ela. Também nós, que possuímos as primícias do Espírito, nós próprios gememos no nosso íntimo, aguardando a adopção filial, a libertação do nosso corpo. De facto, foi na esperança que fomos salvos. Ora uma esperança naquilo que se vê não é esperança. Quem é que vai esperar aquilo que já está a ver? Mas, se é o que não vemos que esperamos, então é com paciência que o temos de aguardar. É assim que também o Espírito vem em auxílio da nossa fraqueza, pois não sabemos o que havemos de pedir, para rezarmos como deve ser; mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inefáveis. Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados, de acordo com o seu desígnio» (Romanos 8, 18-26.28).

Torna-se ainda mais claro que a esperança não pode sobreviver sem o dom do Espírito. É ele que assegura aos cristãos serem co-herdeiros com Cristo»; por isso sofrem com Ele antes de serem glorificados.

Os gemidos e a fadiga são um indício eloquente de que a condição presente se resolverá num estado glorioso. O portal do sofrimento e da morte transforma-se no portal da grande esperança, da glória e do esplendor, como apontou Bonhoeffer.

A esperança não se esgota no presente, ela é tensão, dinamismo que no presente vive o rasgão do futuro; tem o seu sentido de pregustação de algo maior. É um encorajamento dirigido aos crentes no meio dos seus sofrimentos, mas é também um desafio para não nos conformarmos com a realidade presente.

Nas promessas de Deus o futuro já se anuncia e exercita um impacto, real, histórico, sobre o presente. Como escreve Charles Péguy, a esperança ama o que será.

Sobre a esperança, Paulo evoca Abraão: e bem, porque a narrativa, a imagem, têm a força expressiva de mil palavras, não falando só à razão como também ao indizível da fé e do coração.

A esperança de Abraão tornou-se decisiva e maior porque acreditou em Deus mesmo quando toda a esperança humana se esvaía por completo.

«O Senhor disse a Abrão: “Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar. Farei de ti um grande povo, abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem, e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem. E todas as famílias da Terra serão em ti abençoadas”. Abrão partiu, como o Senhor lhe dissera, levando consigo Lot. Quando saiu de Haran, Abrão tinha setenta e cinco anos» (Génesis 12, 1-4).

Chamado para Deus para encetar uma nova história, quando pensava que a sua já tinha terminado, Abraão entende o apelo divino como um desafio.

A esperança começa por ser desafio a transcendermos a resolução individual da nossa existência ou as formas pretensamente definitivas que construímos para ela, abrindo-nos à surpresa de Deus e à sua dependência.

O modelo paulino da esperança é um ancião que se torna viajante, um aposentado que se faz à estrada, um homem que, em princípio, podia estar a viver dos seus bens, como um jovem de mãos vazias. Porque o crente é um peregrino de mãos pobres e vazias e olhos atirados para o alto.

É a esperança que nos conduz para fora dos círculos fechados das nossas interrogações, rompendo as perspetivas. Precisamos de abrir janelas que dão para o vasto céu, erguer os olhos para além do que se pode contar, contemplar a imensidão.

Todavia, tornamo-nos facilmente calculistas até à exasperação, tendo a prudência «como desculpa». Mas esperar contra toda a esperança não é uma sugestão “naïf”. É levantar os olhos deslumbrados e confiantes – esta é a decisão de quem espera».

Contemplemos Abraão e a esperança em três passos.

Comecemos com Génesis 18, 1-5: «O Senhor apareceu a Abraão junto dos carvalhos de Mambré, quando ele estava sentado à porta da sua tenda, durante as horas quentes do dia. Abraão ergueu os olhos e viu três homens de pé em frente dele. Imediatamente correu da entrada da tenda ao seu encontro, prostrou-se por terra e disse: “Meu Senhor, se mereci o teu favor, peço-te que não passes adiante, sem parar em casa do teu servo. Permite que se trga um pouco de água para vos lavar os pés; e descansai debaixo desta árvore. Vou buscar um bocado de pão e, quando as vossas forças estiverem restauradas, prosseguireis o vosso caminho, pois não deve ser em vão que passastes junto do vosso servo”. Eles responderam: “Faz como disseste”».

Abraão concebe a existência como um exercício de hospitalidade. Na hora do calor, em pleno deserto, corre da entrada da tenda ao encontro dos visitantes. Adianta-se. A escola da esperança supõe a arte da hospitalidade.

A paciência: a esperança começa pela aceitação paciente da vida, porque ela, a paciência, coloca-nos diante da vulnerabilidade própria e alheia. Há um trabalho de transformação pessoal que deve ser prosseguido e intensificado.

Somos convidados a ultrapassar os bloqueios que radicam no temor face ao silêncio e demora de Deus. A paciência, tal como a esperança, é uma respiração longa, distendida e aberta, ao contrário do respirar ofegante. A paciência é respirar melhor por dentro da promessa ininterrupta de Deus.

Abraão mostra também que a esperança é feita de prova. Ela é o lugar onde se fortalece aquela confiança chamada a ser radical na esperança. A esperança não repousa em garantias ou sinais, mas só em Deus tem o seu fundamento»

Na narrativa do sacrifício do seu filho, Isaac (Génesis 22), Abraão sobe o monte levando no seu coração a ordem absurda de Deus. Ele sabe que no meio do absurdo Deus se revelará de uma forma que não conhece. Porque a fé em Deus sobrepõe-se a todas as convenções culturais.

Matando o seu filho, Abraão sabe que estará a matar quem mais ama; mas ele crê “apesar de”, e espera que no absurdo da esperança possa recuperar tudo de Deus». A esperança, na verdade, não é um imaculado estado de isenção, mas as dores de parto da alma do mundo e da nossa própria alma.

O que Paulo diz como o modelo de Abraão (Romanos 4) é que no fundo da nossa pobre esperança somos chamados a dizer “O Senhor providenciará”». Jesus torna-se o ícone da esperança que somos chamados a transportar no tempo, aconteça o que acontecer.

 

Texto redigido a partir da intervenção de José Tolentino Mendonça nas 36.ªs Jornadas de Estudos Teológicos da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
Lisboa, 11.2.2015
Rui Jorge Martins
Publicado em 11.02.2015

 

 
Imagem © Beth Moon
A esperança começa por ser desafio a transcendermos a resolução individual da nossa existência ou as formas pretensamente definitivas que construímos para ela, abrindo-nos à surpresa de Deus e à sua dependência
A esperança não se esgota no presente, ela é tensão, dinamismo que no presente vive o rasgão do futuro; tem o seu sentido de pregustação de algo maior. É um encorajamento dirigido aos crentes no meio dos seus sofrimentos, mas é também um desafio para não nos conformarmos com a realidade presente
O modelo paulino da esperança é um ancião que se torna viajante, um aposentado que se faz à estrada, um homem que, em princípio, podia estar a viver dos seus bens, como um jovem de mãos vazias. Porque o crente é um peregrino de mãos pobres e vazias e olhos atirados para o alto
Somos convidados a ultrapassar os bloqueios que radicam no temor face ao silêncio e demora de Deus. A paciência, tal como a esperança, é uma respiração longa, distendida e aberta, ao contrário do respirar ofegante. A paciência é respirar melhor por dentro da promessa ininterrupta de Deus
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