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Escrever música sacra hoje: O exemplo de Haydn

«O Senhor falou-vos do meio do fogo; ouvistes o som das palavras, mas não vistes figura alguma. Era uma voz apenas» (Deuteronómio 4, 12). No original hebraico são apenas 14 palavras centradas numa antítese: de um lado há um qôl, termo que indica “voz, som, grito, trovão”; do outro sublinha-se a ausência de uma temûnah, “imagem, figura, estátua”. O primado exclusivo é marcado, portanto, pela palavra, «ser vivo», como a definia Victor Hugo.

O versículo citado exprime com grande poder uma dimensão essencial: a Palavra de Deus está na raiz não só da criação («no princípio… Deus disse: seja a luz! E a luz fez-se» (Génesis 1, 1.3), mas também da história da salvação. Com efeito, toda a experiência vivida por Israel no monte Sinai é recapitulada por Moisés – é ele que está a flar ao povo no passo citado – na «escuta» de uma voz, um termo que será fundamental na fé bíblica («Escuta, Israel!»). Além disso, Moisés desce do Sinai com as Dez Palavras, ou seja, o Decálogo, «lâmpada para os passos no caminho» da história (Salmo 119, 105). A Palavra divina, por isso, sustém e julga toda a trama histórica do povo da aliança.

O Deus bíblico é, então, o Deus da Revelação, da Palavra, da Voz. Não é uma estátua inerte e muda como o touro sagrado, o vitelo de ouro, sinal de fecundidade, que o sacerdote Aarão erige no vale do Sinai. Através do poder da Palavra eficaz celebra-se a transcendência do Senhor, o seu ser Outro em relação a nós, criaturas humanas, e às coisas que também dependem dele e da sua voz imperativa, que cria, salva e julga.



É surpreendente a capacidade de Haydn para conservar em toda a composição o hieratismo postulado pelo texto evangélico, sem todavia nunca cair na uniformidade, com uma dosagem de temas, ritmos, alternâncias entre “maior” e “menor”



Podemos, assim, passar ao Evangelho de João e ao seu extraordinário início, que é a síntese da mensagem da Incarnação: «No princípio era a Palavra… E a Palavra carne se torna (1, 1.14). A Palavra transcendente exprime-se e torna-se audível na «carne» das palavras humanas. Entre as múltiplas palavras de Cristo, ocupam um espaço privilegiado as últimas sete pronunciadas quando estava crucificado: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem… Mulher, eis o teu filho, eis tua mãe… Hoje estarás comigo no paraíso… Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste?... Tenho sede!... Tudo está cumprido!... Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito».

Estas derradeiras palavras foram musicalmente retomadas várias vezes, mas gostaríamos de reservar uma atenção especial à obra-prima de Franz Joseph Haydn. Trata-se de uma obra repetidamente proposta, até porque foi reelaborada para várias aproximações instrumentais. Ela, paradoxalmente, exalta das palavras de Cristo sem as próprias palavras, mas apenas com a sonoridade musical. Música instrumental sobre as sete últimas palavras do nosso Redentor na cruz. Sete sonatas com uma introdução e no fim um terramoto, tal é o título originário, traduzido, da composição que Haydn escreve entre 1786 e 1787.

Considerado o pai da sinfonia, da sonata e do quarteto, Haydn abre o caminho à moderna música instrumental. No que respeita à génese destas Sete Palavras, damos a palavra ao próprio autor, segundo o testemunho recolhido pelo seu primeiro biógrafo, Georg August Griesinger: «Um cónego de Cádis pediu-me para compor uma música instrumental sobre as sete últimas palavras de Cristo na cruz. Tinha-se então o hábito, na catedral de Cádis, de executar todos os anos, durante a Quaresma, um oratório cujo efeito era exaltado por algumas circunstâncias exteriores. Com efeito, as paredes, as janelas, as colunas da igreja eram revestidas de negro; só uma grande lâmpada suspensa no centro rompia aquela santa obscuridade. Ao meio-dia fechavam-se todas as portas e nesse momento começava a música. Depois de um prelúdio apropriado, o bispo subia ao ambão e pronunciava uma das sete palavras, comentando-a. Depois descia do ambão e prostrava-se diante do altar. Subia de novo ao púlpito e dele descia uma, duas, três vezes e assim por diante. De cada vez a orquestra intervinha no fim de cada sermão correspondente à palavra de Cristo proclamada. Na minha obra tinha de ter em conta esta situação. A tarefa de fazer suceder em sequência sete “adagio”, que tinham de durar uma dezena de minutos, não era das mais fáceis. E eu percebi desde logo que me era impossível respeitar os tempos pré-fixados».



É surpreendente a capacidade de Haydn para conservar em toda a composição o hieratismo postulado pelo texto evangélico, sem todavia nunca cair na uniformidade, com uma dosagem de temas, ritmos, alternâncias entre “maior” e “menor”. Uma musicalidade austera, e no entanto extremamente evocativa



Na verdade, esta atestação merece algumas precisões. Não se tratava da catedral de Cádis, delicioso extremos espanhol sobre o Atlântico, futura pátria do músico Manuel de Falla que ali nasce em 1876, mas da igreja da Santa Cueva (ou do Rosário), formada por duas capelas elípticas, uma subterrânea numa gruta natural e outra à superfície com uma cúpula ornada por três frescos de Goya. A obra orquestral tinha sido encomendada a Haydn pelo marquês de Valdês-Inigo, cónego dessa igreja, e que queria também uma introdução aos sete “adágio” e um final, o chamado “terramoto”.

As Sete palavras foram executadas, com o ritual acima descrito, pelo próprio músico na Sexta-feira Santa, 6 de abril de 1787. Como dizia, a obra recebeu várias transformações. O mesmo autor extraiu uma versão para quarteto de cordas, publicada em Viena em 1787 e frequentemente interpretada inclusive nos nossos dias. Depois aprovou uma redução para clavicórdio ou fortepiano, agora muitas vezes executada ao piano. Haydn não cessou de trabalhar nesta partitura a ele tão querida e, assim, em 1795-96 criou um oratório em duas partes intitulado “Die sieben letzten Worte unseres Erlösers am Kreuze” (As últimas sete palavras do nosso Salvador na cruz), que foi tocado pela primeira vez em Viena a 26 de março de 1796. De todo este fervor em torno do texto evangélico compreende-se o quanto foi querido ao compositor o sujeito por ele desenvolvido com extraordinário poder e beleza. (…)

É surpreendente a capacidade de Haydn para conservar em toda a composição o hieratismo postulado pelo texto evangélico, sem todavia nunca cair na uniformidade, com uma dosagem de temas, ritmos, alternâncias entre “maior” e “menor”. Uma musicalidade austera, e no entanto extremamente evocativa: pense-se apenas no “pizicato” da palavra de Jesus «tenho sede», que parecem criar a aridez de uma garganta seca e ardente; ou na surdina imposta aos violinos e o eco das trompas que se alongam numa espécie de meditação final na última palavra, «Pai, nas tuas mãos…». Impressionante é, a terminar, o famoso “terramoto” final que parece quase fazer explodir a tensão acumulada num “fortíssimo” em uníssono, com toda a orquestra envolvida e quase devastada. Cerca de uma hora e um quarto de música suprema que justamente é muitas vezes reproposta como meditação artística e espiritual para a Semana Santa.








 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In Avvenire
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Haydn
Publicado em 13.09.2018

 

 
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