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Enxugar lágrimas

Imagem Madre Teresa de Calcutá | 1979 | © AP

Enxugar lágrimas

Ninguém se espantou com a notícia da canonização de Madre Teresa de Calcutá. Surgiu quase como tardia pois no coração do mundo essa mulher já tinha o seu nome impresso, apesar de ninguém a chamar santa. O Papa Francisco disse, durante a canonização, que possivelmente todos continuariam a chamá-la simplesmente Madre Teresa porque a sentimos próxima de nós na sua humanidade.

Tive o privilégio de estar com Madre Teresa em Portugal e em Roma e de gravar algumas das suas palavras e imagens. Visitei e filmei a sua comunidade em Calcutá e fui percebendo aos poucos que ela não fez nada de revolucionário, nem a história da sua vida se conta com estatísticas ou números de empresas de caridade que terá fundado e dirigido, nem se apresentou como vedeta fosse do que fosse. O seu lugar de combate era a periferia, com os mais pobres dos pobres, com os que já não tinham lágrimas para enxugar, com os abandonados da família, da sociedade, com os expulsos do conforto, da alegria e da esperança. Ela via o que nós vemos em tantas cidades, esgotos duma sociedade que produz excesso de lixo e polui a sua própria dignidade. Nós vemos o que ela via. Mas ela parava como o samaritano, não passava adiante. Observava, escutava, confortava, propunha esperança e ia, não se sabe a que parte do mundo, mendigar um pouco de pão, ou uma enxerga digna, ou um lenço que enxugasse lágrimas. E neste todo quase sem o dizer, revelava a figura de Jesus, sem perguntar a ninguém pela sua crença mas envolvendo-a no manto da dignidade do ser humano.

Esteve atenta aos crimes da pobreza que nunca encontraram tribunal que os julgasse. Nem ela julgou os criminosos que provocam a fome e a miséria. Ia apenas ao encontro das pessoas uma a uma, partilhar um pouco da misericórdia de Deus. Por isso foi uma figura entregue ao mundo, que não pertencia a si própria e como que representava o melhor que há no coração humano para partilhar. Nem sei se por isso nos tranquilizávamos em excesso delegando nela a prática do amor. Mas o seu olhar e a sua voz quase inaudível pregou-nos o sermão mais forte sobre a misericórdia que passa do coração à ação e tem como alvo os que estão caídos na berma da estrada.

Olho a Praça de S. Pedro repleta nesta canonização duma pessoa familiar a todo o mundo. Porque sabemos que também dentro de nós há uma periferia de solidão, pobreza, e desesperança que precisa de alguém que, sem nos julgar, nos enxugue as lágrimas que nalguns momentos descem do nosso rosto.

 

Cón. António Rego
Publicado em 04.09.2016

 

 
Imagem Madre Teresa de Calcutá | 1979 | © AP
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