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Ensinar a todos o alfabeto da convivência

O Dia Internacional da Alfabetização, instituído em 1965 pela UNESCO, teve este ano como tema “Alfabetização e paz”. Trata-se de uma indicação importante: vencer o desafio da instrução, desde os seus primeiros passos, é vantajoso não só para quem está excluído dessa grande liberdade que é poder ler e escrever, mas para todos, inclusive em sociedades mais desenvolvidas como a nossa. O caminho para vencer as tensões, sanar as contraposições, prevenir a violência, pôr fim aos conflitos, passa igualmente pelo esforço de garantir a todos a instrução. O analfabetismo é uma condição não residual.

Calcula-se em 700 a 800 milhões, em especial mulheres e crianças, o número de quem não sabe ler e escrever: um décimo da população mundial, a quem é negado um direito fundamental, lesando profundamente a dignidade dos atingidos. Uma ferida aberta que significa mais atraso, marginalização, pobreza, caos; menor possibilidade de desencadear o círculo virtuoso feito de desenvolvimento, participação, convivência civil. Um caso particular desta fatia da humanidade, quase um continente, que vive o drama do analfabetismo diz respeito às dezenas de milhões de refugiados acolhidos em países em vias de desenvolvimento (que já lutam para garantir a instrução aos próprios cidadãos).

Um recente relatório da agência da ONU para os refugiados, intitulado “Inverter a tota”, calcula que existam quatro milhões de crianças erradicados pela guerra ou por condições ambientais adversas que não frequentam a escola, número que cresceu 500 mil só em 2017. «Uma criança, um professor, uma caneta e um livro podem fazer a diferença e mudar o mundo», afirmou a jovem paquistanesa Malala, prémio Nobel da Paz.



Todos precisamos de aprender o alfabeto da convivência. Não só a criança ou o refugiado. No que respeita à «mudança de época» de que fala o papa, a pergunta é: como a geriremos sem os instrumentos para nos compreendermos? Sem um mínimo de bases comuns?



Ao refletir sobre o tema do Dia Internacional, pensamos em todos aqueles que criam no mundo escolas para crianças nos campos de refugiados. Elas representam a aposta de repartir da normalidade da escola, da simplicidade do alfabeto, do estar juntos, do ter bons professores para assentar os primeiros tijolos da cada do futuro, para refundar vidas que ficariam dispersas no caos. A esses menores, que só têm presente o modelo do militar armado com a Kalashnikov ou do casamento precoce, oferece-se uma nova figura de referência, o professor que abre a porta do conhecimento e das regras do viver em conjunto.

Na vídeomensagem para as intenções de oração deste mês, o papa Francisco diz: «A África é um continente rico, e a maior riqueza, mais preciosa, são os jovens. Rezemos para que os jovens do continente tenham acesso à educação e ao trabalho nos seus países». Toda uma geração deve acreditar que ninguém fica excluído do amanhã, e que esse amanhã pode ser na terra em que se nasceu. Para um mundo de crianças, adolescentes, mulheres, refugiados ou não, a alfabetização, a escola são a restituição do presente e a aquisição de uma chave para o futuro.

Para cada um de nós, todavia, há um alfabeto a recuperar, o abc de um tempo de respeito, colaboração, unidade num mundo cada vez mais desorientado, estilhaçado, dividido. Todos precisamos de aprender o alfabeto da convivência. Não só a criança ou o refugiado. No que respeita à «mudança de época» de que fala o papa, a pergunta é: como a geriremos sem os instrumentos para nos compreendermos? Sem um mínimo de bases comuns? É interesse de cada sociedade e cultura que nas periferias do planeta – e às margens do nosso centro, relativamente rico – faça estrada um alfabeto da cultura, dos valores, uma fraternidade mais ampla.


 

Marco Impagliazzo
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Nadezhda1906/Bigstock.com
Publicado em 09.09.2018

 

 
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