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«Empresas não devem existir para ganhar dinheiro», mas «para servir», afirma papa

«Empresas não devem existir para ganhar dinheiro», mas «para servir», afirma papa

Imagem Jakub Jirsak/Bigstock.com

O papa recebeu hoje, no Vaticano, os participantes na conferência internacional das Associações de Empresários Católicos, a quem afirmou que as empresas não devem existir para ganhar dinheiro», mas «para servir».

A desigualdade na atribuição de crédito, o papel do Estado na proteção de bens coletivos, a corrupção enquanto atitude demoníaca, a gratuidade e o acolhimento aos migrantes foram alguns dos temas do discurso aos participantes, a quem sugeriu que invocassem, na oração e no pedido de auxílio, o empresário argentino Enrique Shaw (1921-1962), de quem decorre a causa de beatificação.

Excertos da intervenção:

«A atividade empresarial comporta constantemente uma infinidade de riscos. Jesus, na parábola do tesouro escondido no campo (cf. Mateus 13, 44) e das pérolas preciosas (cf. Mateus 13, 45), compara a obtenção do Reino dos Céus ao risco empresarial. Desejo refletir hoje convosco sobre três riscos: o risco de usar bem o dinheiro, o risco da honestidade e o risco da fraternidade.



Como qualquer técnica, o dinheiro não tem um valor neutro, mas adquire valor em função da finalidade e das circunstâncias em que se usa. Quando se afirma a neutralidade do dinheiro, está a cair-se no seu poder



Em primeiro lugar o risco do uso do dinheiro. Falar de empresas relaciona-nos imediatamente com um dos temas mais difíceis da perceção moral: o dinheiro. Afirmei várias vezes que “o dinheiro é o esterco do diabo”, retomando quanto afirmavam os santos padres. Já Leão XIII, que deu início à doutrina social da Igreja, observava que a história do século XIX tinha dividido as nações «em duas castas, entre as quais escavou um abismo» (‘Rerum novarum’). Quarenta anos depois, Pio XI previa o crescimento de um “imperialismo internacional do dinheiro” (‘Quadragesimo anno’). Outros quarenta anos depois, Paulo VI, fazendo referência à ‘Rerum novarum’, denunciava que a concentração excessiva dos meios e dos poderes pode “conduzir a uma nova forma abusiva de domínio económico, no plano social, cultural e mesmo político” (‘Octagesima adveniens’).

Jesus, na parábola do administrador desonesto, exorta a tomar a cargo os amigos com a riqueza desonesta, para poder ser acolhido nas moradas eternas. Todos os Padres da Igreja [sacerdotes dos primeiros séculos da Igreja que se distinguiram na espiritualidade e doutrina] interpretaram estas palavras no sentido de que as riquezas são boas quando se colocam ao serviço do próximo, de outra forma são iníquas). O dinheiro deve, portanto, servir, em vez de governar. O dinheiro é só um instrumento técnico de intermediação, de comparação de valores e direitos, de cumprimento das obrigações e de poupança. Como qualquer técnica, o dinheiro não tem um valor neutro, mas adquire valor em função da finalidade e das circunstâncias em que se usa. Quando se afirma a neutralidade do dinheiro, está a cair-se no seu poder. As empresas não devem existir para ganhar dinheiro, mesmo se o dinheiro serve para medir o seu funcionamento. As empresas existem para servir.



Uma lógica financeira do mercado faz com que o crédito seja mais acessível e mais económico para quem possui mais recursos; e mais caro e mais difícil para quem tem menos, ao ponto de se deixar as faixas mais pobres da população nas mãos de usurários sem escrúpulos



Por isso é urgente recuperar o significado social da atividade financeira e bancária, com a melhor inteligência e inventividade dos empresários. Isto significa assumir o risco de complicar a vida, devendo renunciar a certos lucros económicos. O crédito deve estar acessível para as casas das famílias, para as pequenas e médias empresas, para os agricultores, para a atividade educativa, especialmente a nível primário, para a saúde geral, para o melhoramento e integração dos núcleos urbanos mais pobres. Uma lógica financeira do mercado faz com que o crédito seja mais acessível e mais económico para quem possui mais recursos; e mais caro e mais difícil para quem tem menos, ao ponto de se deixar as faixas mais pobres da população nas mãos de usurários sem escrúpulos. Do mesmo modo, a nível internacional, o financiamento dos países mais pobres transforma-se facilmente numa atividade usurária. É este um dos grandes desafios para o setor empresarial, e para os economistas em geral, que é chamado a conseguir um fluxo estável e suficiente de crédito que não exclua ninguém e que possa ser amortizável em condições justas e acessíveis.

Ainda que admitindo a possibilidade de criar mecanismos empresariais que sejam acessíveis a todos e funcionem em benefício de todos, é preciso reconhecer que será sempre necessária uma generosa e abundante gratuidade. Será também necessária a intervenção do Estado para proteger certos bens coletivos e assegurar a satisfação das necessidades humanas fundamentais. O meu predecessor, S. João Paulo II, afirmava que ignorar isto conduz “a uma ‘idolatria’ do mercado” (“Centesimus annus”).



Pode acontecer que os empresários caiam na tentação de pensar que se trata de algo que todos fazem, e que pequenos atos de corrupção destinados a obter pequenas vantagens não têm grande importância. Qualquer tentativa de corrupção, ativa ou passiva, é já começar a adorar o deus dinheiro



Há um segundo risco que deve ser assumido pelos empresários. O risco da honestidade. A corrupção é a pior praga social. É a mentira de procurar o lucro pessoal ou do próprio grupo debaixo da capa de um serviço à sociedade. É a destruição do tecido social sob a capa do cumprimento da lei. É a lei da selva mascarada de aparente racionalidade social. É o engano e a exploração dos mais fracos ou menos informados. É o egoísmo mais grosseiro, escondido atrás de uma aparente generosidade. A corrupção é gerada pela adoração do dinheiro e regressa ao corrompido, prisioneiro daquela mesma adoração. A corrupção é uma fraude à democracia e abre as portas a outros males terríveis como a droga, a prostituição e o tráfico de pessoas, a escravidão, o comércio de órgãos, o tráfico de armas, e assim por diante. A corrupção é tornar-se seguidor do diabo, pai da mentira.
Todavia, “a corrupção não é um vício exclusivo da política. Há corrupção na política, há corrupção nas empresas, há corrupção nos meios de comunicação, há corrupção nas Igrejas e há corrupção também nas organizações sociais e nos movimentos populares” (“Discurso aos participantes no 3.º encontro mundial dos movimentos populares”).

Uma das condições necessárias para o progresso social é a ausência de corrupção. Pode acontecer que os empresários se vejam tentados a ceder às tentativas de chantagem ou de extorsão, justificando-se com o pensamento de salvar a empresa, e que um dia poderão libertar-se dessa praga. Além disso, pode acontecer que caiam na tentação de pensar que se trata de algo que todos fazem, e que pequenos atos de corrupção destinados a obter pequenas vantagens não têm grande importância. Qualquer tentativa de corrupção, ativa ou passiva, é já começar a adorar o deus dinheiro.



Não faltam exemplos de ações solidárias em favor dos mais necessitados, realizadas por pessoal de empresas, clínicas, universidades ou outras comunidades de trabalho e de estudo. Este deveria ser um modo habitual de agir



O terceiro risco é o da fraternidade. Recordámos como S. João Paulo II nos ensinou que “ainda antes da lógica da troca […] existe ‘algo que é devido ao homem porque é homem’, por força da sua eminente dignidade” (“Centesimus annus”). Também Bento XVI, insistindo na importância da gratuidade como elemento imprescindível da vida social e económica, dizia: “A caridade na verdade põe o homem diante da admirável experiência do dom […] que exprime e realiza a sua dimensão de transcendência […]. O desenvolvimento económico, social e político precisa […] de dar espaço ao princípio da gratuidade como expressão de fraternidade” (“Caritas in veritate”).

A atividade empresarial deve incluir sempre o elemento da gratuidade. As relações de justiça entre dirigentes e trabalhadores devem ser respeitadas e exigidas de todas as partes; mas, ao mesmo tempo, a empresa é uma comunidade de trabalho em que todos merecem respeito e apreço fraterno da parte dos superiores, colegas e subalternos. O respeito pelo outro como irmão deve estender-se também à comunidade local em que se situa fisicamente a empresa e, de certo modo, todas as relações jurídicas e económicas da empresa devem ser moderadas, envolvidas num clima de respeito e fraternidade. Não faltam exemplos de ações solidárias em favor dos mais necessitados, realizadas por pessoal de empresas, clínicas, universidades ou outras comunidades de trabalho e de estudo. Este deveria ser um modo habitual de agir, fruto de profundas convicções da parte de todos, evitando que se torne uma atividade ocasional para aplacar a consciência ou, pior ainda, um meio para obter uma utilidade publicitária.



Os nossos avós ou pais chegaram de Itália, Espanha, Portugal, Líbano ou de outros países, na América do Sul e do Norte, quase sempre em condições de extrema pobreza. Poderão fazer seguir uma família, progredir até se se tornarem inclusivamente empresários porque encontraram sociedades acolhedoras, por vezes tão pobres como eles, mas dispostas a partilhar o pouco que têm



No que diz respeito à fraternidade, não posso não partilhar convosco o tema das emigrações e dos refugiados, que oprime o nosso coração. Hoje as emigrações e os deslocamentos de uma multidão de pessoas à procura de proteção tornaram-se um dramático problema humano. A Santa Sé e as Igrejas locais estão a realizar esforços extraordinários para enfrentar eficazmente as causas desta situação, procurando a pacificação das regiões e dos países em guerra e promovendo o espírito de acolhimento; mas nem sempre se obtém tudo o que se deseja. Peço ajuda também a vós. Por um lado, procurai convencer os governos a renunciar a qualquer tipo de atividade bélica. Como se diz nos ambientes empresariais: um “mau” acordo é sempre melhor do que uma “boa” luta. Por outro, colaborai para criar fontes de trabalho digno, estável e abundante, seja nos lugares de origem seja nos de chegada e, nestes últimos, seja para a população local seja para os imigrantes. Temos de assegurar que a imigração continue a ser um importante fator de desenvolvimento.
A maior parte de nós aqui presente pertence a famílias de emigrantes. Os nossos avós ou pais chegaram de Itália, Espanha, Portugal, Líbano ou de outros países, na América do Sul e do Norte, quase sempre em condições de extrema pobreza. Poderão fazer seguir uma família, progredir até se se tornarem inclusivamente empresários porque encontraram sociedades acolhedoras, por vezes tão pobres como eles, mas dispostas a partilhar o pouco que têm. Conservai e transmiti este espírito que tem raízes cristãs, manifestando também aqui o génio empresarial.»



 

Papa Francisco
Vaticano, 17.11.2016
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 17.11.2016

 

 
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