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«A emoção que experimentamos através da beleza toca em nós fibras extremamente delicadas»

Ator, pintor, encenador, escritor, Michael Lonsdale (n. 1931) apareceu em mais de 180 programas de televisão e filmes, entre os quais “Dos homens e dos deuses” e “O nome da rosa”.

Em entrevista ao jornal do Vaticano, L’Osservatore Romano, recorda como as artes foram determinantes para a sua conversão ao catolicismo e consolidação da fé, conta como se manteve firme às suas convicções num mundo difícil para a espiritualidade como é a Sétima Arte e explica por que motivos é tão importante para ele relacionar fé e beleza.

 

Como nasceu a sua fé católica?

Cresci em Londres até ao verão de 1939, quando o meu pai encontrou trabalho em Casablanca: deviam ser seis meses mas desencadeou-se a guerra e tornaram-se 10 anos. A minha fé nasceu antes de tudo do encontro com uma pintora que um dia me levou à missa na igreja do Sagrado Coração. Nesse tempo não sabia nada de quem era Jesus. Foi ela que me fez descobrir a arte através da atmosfera do seu estudo, e depois com Chagall e Rembrandt: tudo partiu daí.

Mais tarde essa mulher, parisiense de origem, levou-me à capital francesa, encorajando-me a inscrever-me no Ateliê de Artes Sacras, fundado pelo pintor Maurice Denis. Aí, um dia, ouvi uma conferência de um padre dominicano sobre arte e fé: para mim foi uma reviravolta. Entrei em contacto com ele, sem saber sequer como o chamar: «Queria “ativar” a minha capacidade na beleza, o amor, a pureza… e a arte», disse-lhe. Ele respondeu-me: «Talvez seja Deus que estás à procura!». Tornei-me assim seu catecúmeno e fui batizado: tinha 20 anos. O meu padrinho foi um médico judeu convertido ao catolicismo que escapou à deportação. Estava em boas mãos.

 

Como é que se tornou ator?

Na verdade comecei o teatro ao mesmo tempo. Foi sempre graças à ajuda dos dominicanos que consegui fazer alguma coisa: a incerteza travava-me, não sabia que curso escolher e o meu diretor espiritual enviou-me ao P. Carré, o esmolar dos artistas de então. E Carré, também dominicano, enviou-me para o curso da grande atriz Tania Balachova. Foi ela que me formou, permitindo-me também alargar o meu repertório, tentando recitar também personagens maus, que eu não queria interpretar. Serviu-me muito para o meu personagem de Hugo Drax, no James Bond, por exemplo; devo-lhe muito.

Para dizer a verdade, foi sobretudo a música que me levou para a minha vocação profunda: suscitava em mim um êxtase tão forte que me despertava uma sede de Deus. E a pintura… Rembrandt levou-me à loucura: pintou e gravou tudo o que está na Bíblia. “O regresso do filho pródigo”, em particular, uma das suas últimas pinturas, é absolutamente extraordinária. Em França frequentei a casa de uma tia que era a mulher do escritor Michel Arland. Com ele tive a ocasião de ler muito porque era bastante inculto e, sobretudo, iniciou-me à pintura moderna.

 

O que é que gosta de pintar?

Não tenho um género predileto. Nunca sei o que vai sair. Um dia comecei a pintar escutando a “Sinfonia pastoral”, de Beethoven: estava de tal maneira arrebatado que a minha mão trabalhou sem que eu me desse conta. No final da música havia vários rostos que não conhecia desenhados na tela. Era como que uma presença, seguramente angélica, que me inspirava.

 

Como viveu a sua fé no mundo do cinema, que não é particularmente próximo da religião?

Convivi com muitas pessoas, muitas delas estavam atormentadas, inclusive eram violentas. Houve momentos muito difíceis. Mas para mim a missa foi sempre inegociável. Os encontros com o meu pai espiritual e a Confissão apoiaram-me. Com o filme “Dos homens e dos deuses” alcancei um ápice: o personagem do Ir. Luc permanecerá, juntamente com “O nome da rosa”, um dos papéis mais importantes da minha vida. É um modelo absoluto de humanidade, capaz de levar até ao fundo a sua missão seguindo os mandamentos de Jesus. Porque não há maior prova de amor do que dar a vida por aqueles que se amam. E quem se ama é o mundo inteiro.

 

Empenhou-se muito na vida associativa, através da Diaconia da Beleza ou o Festival Sacro de Cannes, por exemplo; porque é que é tão importante para si relacionar fé e beleza?

Com estas iniciativas tive a liberdade de encenar espetáculos únicos, entre eles a “Vida de S. Bernardino”, que apresentamos cinco anos consecutivos, ao ar livre. Unir-se aos outros artistas para formar uma família espiritual radica-nos ainda mais no coração de Deus. A emoção que experimentamos através da beleza toca em nós fibras extremamente delicadas, em particular com a música. Sou fascinado pela ideia de que ela entra em nós pelos poros da nossa pele primeiro do que pelos ouvidos. Porque é que de repente decidimos que a gama de notas seria o dó re mi fa sol lá si dó? Há uma alquimia misteriosa que é sumamente preciosa… Uma voz desafinada, ao contrário, pode picar-nos como espinhos! No nosso mundo tão tumultuoso temos de preservar este milagre.

 

Ainda há projetos que gostaria de realizar?

Tantos! Com o meu amigo Robert Hossein queremos encenar uma obra teatral sobre Jesus narrada por Pedro ou Paulo. Está também em gestação um projeto experimental sobre Leonardo da Vinci: deverei ser eu o narrador. Ainda está tudo em fase de projeto mas gostava muito de os realizar…



 

Solène Tadié
In L'Osservatore Romano
Trad. / edição: SNPC
Imagem: Michael Lonsdle | D.R.
Publicado em 24.02.2018

 

 
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