Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Recordando Gene Wilder

Imagem Gene Wilder | D.R.

Recordando Gene Wilder

Gene Wilder morreu no princípio desta semana. As declarações de luto foram rápidas e fortes. «Gene Wilder foi uma das mais divertidas e doces energias que alguma vez tomaram forma humana», escreveu Jim Carrey. «Se houver um paraíso, ele tem um visa “gold”.»

Durante a sua vida Wilder descreveu-se como «judeu-budista-ateísta». A sua “religião”, afirmou numa entrevista em 2005 para o livro “Stars of David” (“Estrelas de David”), era «faz aos outros o mesmo que queres que te façam».

E todavia, para aqueles que nunca o viram entrevistado, havia alguma coisa nele, a sua gentileza, a sua maneira suave de falar, que de alguma forma parecia de outro mundo. Como se ele não fosse totalmente daqui ou estivesse ligado a algo maior. De alguma forma, ainda que não acreditasse num deus, a sua conduta parecia oferecer a promessa de um, mesmo ao virar da esquina.

Muitos de nós recordam de forma semelhante a sua famosa atuação como “Willy Wonka” [em Portugal, “A maravilhosa história de Charlie”, 1971], um estranho e sossegado messias vindo para trazer às pessoas um lugar melhor. «Vem comigo e estarás num mundo de pura imaginação», convidava ele Charlie Bucket, Veruka Salt e os restantes. Ao ver esta cena, pensa-se em primeiro lugar que ele está a falar de uma fantástica terra dos doces, uma espécie de utopia consumista.

Mas à medida que o filme avança essas ideias são desmentidas; o rei não é a criança que consegue comer mais, nem a mais rica, mas aquela que encontra encantamento à sua volta. «Se queres ver o paraíso, olha simplesmente à tua volta e vê-o», canta Wilder. Pode ouvir-se o profundo reino maravilhoso a que ele chama o espetador no sereno desejo da sua voz, nos seus olhos amplamente abertos.

Apesar de saber que era ateu, a entrevistadora Abigail Pogebrin não conseguiu evitar perguntar-lhe, em 2005, de que forma é que a sua vivência do cancro o questionou sobre a razão de Deus ter deixado que a doença ocorresse.

«Essa pergunta ignorante», respondeu ele, «e eu digo “ignorante”, não “estúpida”, nunca me passou pela cabeça. Eu nunca sonharia que Deus a favoreceria se fizesse isso e fizesse chichi em cima de si se fizesse aquilo… Não poderia haver qualquer Deus tão cruel ou estúpido ou sem compaixão…

O mundo não se baseia em justiça. Os seres humanos podem elevar-se à justiça, podem administrar algo que o torne justo. Mas não é Deus. Quando eu estava a apanhar radiação duas vezes por dia em Sloan-Kettering, levavam-me até lá numa carreira de rodas, e eu podia ver aquelas crianças, de cinco, seis anos, carecas da quimioterapia. Seria suposto eu pensar que se as suas mães tivessem rezado a Deus, pedindo, “por favor, ajuda o meu filho”, elas não estariam lá? Disparate.»

Wilder morreu a 29 de agosto, segurando as mãos da sua família reunida, enquanto ouvia “Somewhere over the rainbow” (“Algures sobre o arco íris”). Efetivamente as nuvens estão agora bem para trás dele. E apesar de não ter acreditado na possibilidade do paraíso, ainda assim a sua vida faz-nos pensar com esperança no que, algum dia, poderá estar à nossa espera.

 

Jim McDermott, SJ
In "America"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 01.09.2016

 

 
Imagem Gene Wilder | D.R.
Quando eu estava a apanhar radiação, levavam-me até lá numa carreira de rodas, e eu podia ver aquelas crianças, de cinco, seis anos, carecas da quimioterapia. Seria suposto eu pensar que se as suas mães tivessem rezado a Deus, pedindo, “por favor, ajuda o meu filho”, elas não estariam lá? Disparate
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Evangelho
Vídeos