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Em cada ato há uma Páscoa possível

Imagem Ressurection (det.) | Alma Woodsey Thomas | 1966 | D.R.

Em cada ato há uma Páscoa possível

A paixão pascal de Cristo tem muitas leituras possíveis. Uma delas permite-nos perceber que a paixão pascal é, passionalmente, o culminar de uma paixão total que coincide com a própria incarnação, por sua vez culminar da paixão de Deus para com o mundo, que se consubstancia não numa forma de sofrimento, mas na sublime forma de ato, do ato por excelência, que é o ato de criação, isso que faz sair do nada das coisas todo o universo das coisas.

Isso que tal faz não é nada: é o amor de Deus em ato. Assim, e de forma paradigmática para todo o sempre, a suprema paixão coincide com o supremo ato. Mas primeiríssimo é o ato, um ato que as Escrituras nos revelam como imediatamente apaixonante a outro nível, pois Deus, assim que acaba de criar, exclama, como só pode exclamar o mais apaixonado amante, que isso que criou é bom, é belo. Bom e belo como Esse que criou.

É, assim, muito antiga esta dupla paixão de Deus pela criatura, que Cristo tão bem incarna.

Precisamente: que Cristo tão bem incarna.

Nada se pode perceber da mensagem de Deus como criador e de Cristo como salvador, se não se entender que a incarnação é a carne da paixão amorosa de Deus pela criatura.

Sendo assim, a paixão de Cristo não é um mal, nunca é um mal, é um bem, é sempre um bem. Um bem absoluto.

Aliás, perguntamo-nos se, perante a nossa estupidez, que persiste em adorar não o bem, mas o mal, não terá sido a forma excruciante exatamente a escolhida para nos comunicar isso que, sem este modo atroz, nós dificilmente perceberíamos, dificilmente perceberemos.

Mesmo assim, todo o processo, em toda a sua atrocidade, com seu sofrimento extremo, não é um mal, mas um bem. Como liturgia salvífica da criação, como abertura da suprema possibilidade escatológica positiva que é a vida eterna em Deus, o sofrimento de Cristo, subjetivamente inegável como algo de liminarmente penoso, não pode, objetivamente, ser visto como um mal. No ato que é, pese embora a penosidade que carrega, pelo que proporciona, precisamente pelo que é, é um bem.

O sofrimento como um bem não é fácil de intuir, especialmente num mundo habituado a formas de vida artificialmente prazenteiras e em que as pessoas são também artificialmente afastadas do gosto genuíno da existência, com momentos doces, mas com momentos acres, todos eles constituintes da mesma vida.

Sofrer é um bem quando é por uma boa causa. A dor que corresponde ao desagradável em qualquer forma de sofrimento – sem a qual o sofrimento não seria precisamente sofrimento – relativiza-se sempre em função do fim para que o ato em que ocorre aponta: em função de quê sofro?

Em função de nada? – há desespero total e sofrimento reduplicado, para o qual apenas o absoluto vazio do nada ontológico parece ser resposta subjetivamente válida.

Em função do bem de um tirano? Apenas uma qualquer forma de violência contra mim ou contra alguém parece ser forma mitigante.

Em função de um qualquer bem real? De salvar alguém, por exemplo? Mesmo no extremo da dilaceração, se pode compreender que, ainda assim, vale a pena. Assim sendo, mesmo no seio da mais terrível dor, o sentido não desaparece, o bem permanece e metamorfoseia a dor.

É este o caso de Cristo. Analogamente, a sua dor é tão excessiva e liminar quanto a de qualquer outro ser humano que por tal agonia passe. Sem sentido, e é o mal absoluto, não apenas o da ontológica ausência de ser, mas o de um ser que é tão mau que nunca deveria ter existido – suprema blasfémia ontológica.

Com sentido – e Cristo é Esse que vive e morre pelo sentido –, tudo é bom.

Para se perceber isto, é preciso um ato de profunda conversão: é preciso deixar de olhar o mundo como coisa negativa e passar a olhá-lo como um bem, mesmo quando parece ser um mal, pois, e é aqui que radica a metamorfose do olhar, todo ele é apenas porque irradia da bondade de Deus, à qual nada faz obstáculo, à qual nada macula, nem a minha maldade nem a minha falta de confiança, mesmo de fé, em sentido teologal.

Mas desiluda-se quem pensa que a paixão de Cristo é apenas um ato situado na história: ela é a cruz de cada possibilidade de ato, de cada gesto humano, de cada escolha minha. Em cada cruzamento da minha vida – e a minha vida é apenas um imenso conjunto integrado de cruzamentos possíveis e atuais –, não sou apenas eu quem está em ato de cruz, é Cristo comigo.

Em cada ato há uma Páscoa possível.

Em cada ato meu, sou com Cristo crucificado e crucifico Cristo quando escolho o mal. Mas, quando escolho o bem, então, em cada ato, é o Domingo da Ressurreição.

Por que razão se pensa que pedimos a Deus o «pão-nosso-de-cada-dia»?

Pedimos-lhe, talvez sem o saber, que nos dê as forças para carregar a cruz da ressurreição, mas pedimos-lhe também a cruz, sem a qual não faz sentido o pão e não é possível a ressurreição.

Mas a cruz é o ato de possibilidade com o qual Deus nos criou capazes de sermos livres, de beber o cálice da amargura, que, morto o mal, se transforma no cálice da eterna alegria.

Erga-se o cálice.

À tua saúde, Senhor Jesus!

 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Publicado em 20.04.2016

 

 
Imagem Ressurection | Alma Woodsey Thomas | 1966 | D.R.
Primeiríssimo é o ato, um ato que as Escrituras nos revelam como imediatamente apaixonante a outro nível, pois Deus, assim que acaba de criar, exclama, como só pode exclamar o mais apaixonado amante, que isso que criou é bom, é belo. Bom e belo como Esse que criou
Sofrer é um bem quando é por uma boa causa. A dor que corresponde ao desagradável em qualquer forma de sofrimento – sem a qual o sofrimento não seria precisamente sofrimento – relativiza-se sempre em função do fim para que o ato em que ocorre aponta: em função de quê sofro?
É preciso deixar de olhar o mundo como coisa negativa e passar a olhá-lo como um bem, mesmo quando parece ser um mal, pois, e é aqui que radica a metamorfose do olhar, todo ele é apenas porque irradia da bondade de Deus, à qual nada faz obstáculo, à qual nada macula, nem a minha maldade nem a minha falta de confiança, mesmo de fé
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