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Elogio das lágrimas

Elogio das lágrimas

Imagem Uma mulher a chorar (det.) | Rembrandt

Ao recordar alguns acontecimentos ou ensinamentos recebidos na minha juventude, sou assolado pelo sentimento de ter vivido uma vida num mundo que não só deixou de existir, como me surge hoje como estranho, se não inverosímil. Assim nestes dias quaresmais, regressa à minha mente como então era frequenta a oração para obter o dom das lágrimas: sim, sim, orava-se para chorar! Hoje, pelo contrário, não vemos facilmente as pessoas chorar, porque as lágrimas são consideradas como um sinal de fragilidade, algo de que se envergonhar, que em todo o caso não é mostrado por ser julgado coisa de crianças ou de mulheres: os adultos sabem dominar as lágrimas e têm o dever de viver e comportar-se "siccis oculis", com os olhos secos.

Na realidade, homens e mulheres continuam a chorar e não acredito em quantos afirmam que as lágrimas são frequentes apenas em algumas épocas, como o Romantismo: talvez seja verdade que as artes, a pintura, a música não o testemunham em todos os tempos, mas o coração humano sabe chorar sempre. É certo que, na medida em que reduz o bem ao bem-estar e o mal ao mal-estar, muitos se esforçam por evitar cuidadosamente a possibilidade do sofrimento, até o eliminar e negar: consequentemente não se "deixam andar" a chorar, sobretudo em frente aos outros, todavia por vezes também conhecem o pranto e como ele se impõe.

As lágrimas são uma expressão do nosso corpo, ou melhor, dos nossos sentidos, sobretudo desse sexto sentido de que os seres humanos são providos: esse sentido que é arte do estar presente ao outro e do sentir a presença de outros. As lágrimas são eloquentes, são uma linguagem silenciosa: não são palavra mas também não são gestos, afloram dos olhos e, significativamente, escorrem também dos olhos dos que não veem, quase a dizer que o olho, antes de ter como função a vista, tem em si a possibilidade das lágrimas.

As lágrimas não são sempre linguagem de dor ou de cólera: podem ser lágrimas de alegria, de sóbria embriaguez, de paz... Podem ser um grito, uma invocação de ajuda ou um protesto, mas também a expressão de uma alegria íntima, da ferida causada por uma presença amorosa, de uma paz - consigo próprio, com os outros, com as criaturas em redor - que nos surpreende e inebria.



Como esquecer que também Jesus chorou, revelando-nos que nele Deus conheceu os sentimentos humanos até ao pranto: chorou sobre a humanidade chorando sobre Jerusalém, chorou por amor do seu amigo Lázaro, chorou pelo próprio sofrimento e morte. A Carta aos Hebreus (5, 7-8) diz-nos também que Jesus, chorando, aprendeu a obediência



Ainda hoje, quando sinto que os meus dias se arriscam a passar "siccis oculis", então recito a oração para pedir o dom das lágrimas. E quando eclodem como pura gratuidade, deixo-as escorrer e procuro não temer se outros veem. De resto, o que veem na realidade? O que estou a viver de dor ou de alegria... Sim, quando se têm lágrimas nos olhos, o olhar é como velado mas discerne mais em profundidade: a visão é "ante et retro oculata", vê-se de frente e de trás, vê-se "diferentemente".

Um cristão, na oração dos Salmos, encontra muitas vezes as lágrimas: lágrimas que são pão que alguém come, lágrimas que Deus recolhe num odre porque não as esquece mas considera-as preciosas, lágrimas de arrependimento pelo mal feito, lágrimas de exultação que brotam como dança de alegria... E como esquecer que também Jesus chorou, revelando-nos que nele Deus conheceu os sentimentos humanos até ao pranto: chorou sobre a humanidade chorando sobre Jerusalém, chorou por amor do seu amigo Lázaro, chorou pelo próprio sofrimento e morte. A Carta aos Hebreus (5, 7-8) diz-nos também que Jesus, chorando, aprendeu a obediência...

Na viagem que fez às Filipinas, o papa Francisco encontrou uma mulher que chorava e exclamou simplesmente: «Aprendamos a chorar... se não aprenderdes a chorar, não podeis ser bons cristãos!». Cioran afirmava que «no último juízo serão pesadas apenas as lágrimas» e Camus reiterava que «nenhuma lágrima deve ser perdida, nenhuma morte deve acontecer sem uma ressurreição».



 

Enzo Bianchi
In "Monastero di Bose"
Trad.: SNPC
Publicado em 06.03.2017

 

 
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