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Elie Wiesel: O anunciador do “Shalom” que nunca manteve acesa a memória

Imagem Elie Wiesel | D.R.

Elie Wiesel: O anunciador do “Shalom” que manteve acesa a memória

«Nunca me esquecerei daqueles momentos que assassinaram meu Deus e a minha alma e os meus sonhos, que tomaram o rosto do deserto. Nunca esquecerei tudo isso, mesmo que eu fosse condenado a viver tanto tempo quanto o próprio Deus. Nunca.»

É a recordação da Shoah de um sobrevivente, o historiador e escritor Eliezer Wiesel, que morreu este sábado na sua casa de Manhattan, em Nova Iorque. Nasceu em 1928 na atual Roménia, em Sighetu Marma, e foi até ao fim um ponto de referência moral e cultural para o povo judaico.

Tinha 15 anos quando foi deportado, juntamente com sua família, para o campo de concentração de Auschwitz, na Polónia, onde morreram a mãe e a irmã mais nova. Posteriormente, esteve no campo de Buchenwald, no leste da Alemanha, onde morreu o pai. Para a loucura nazi, Wiesel não era mais do que uma “stück”, uma peça.

Escreveu perto de seis dezenas de livros, entre os quais se destaca a obra-prima “Noite”, em que narra a sua experiência pessoal de prisioneiro nos campos de concentração. «Quem nunca viveu a morte lá em baixo, nunca compreenderá o que nós, os sobreviventes, sofremos de manhã à noite sob um céu mudo.»

Mas antes de ser obra-prima, muitas editoras lhe fecharam a porta. Até 1958, quando as Éditions de Minuit, em França, arriscaram a publicação; as vendas pouco passaram do zero, embora aos poucos o seu testemunho se tenha tornado cada vez mais conhecido, até ultrapassar a barreira dos 10 milhões de exemplares.

«Quando o mundo renunciar à memória do Holocausto, será como se escolhesse matar a vítima uma segunda vez, depois de na primeira vez ter sido incapaz de a salvar», denunciou este homem que foi um dos máximos intelectuais do diálogo.

Wiesel recusava a etiqueta de político, estando sobretudo atento à «dimensão moral da humanidade», atitude que viria a ser reconhecida pelo prémio Nobel da Paz, que ganhou em 1986. Em Oslo, a justificação do galardão referia-se a Wiesel como «mensageiro para a humanidade».

O seu pensamento distinguiu-se por uma filosofia prática que visava a conquista da paz, sem nunca se ter tomado refém da “filosofia política”. Essa mesma filosofia que o desejou presidente dos israelitas, oferta que declinou desde logo. No seu lugar foi eleito Shimon Peres.

Não caiu na armadilha das polémicas estéreis mas advertiu os governantes mundiais: «Às vezes os políticos deveriam pensar demoradamente e engolir as palavras em vez de as pronunciar».

Benyamin Nethanyau, atual primeiro-ministro de Israel, com quem teve públicas discordâncias, elogiou-o: «Wiesel deu expressão à vitória do espírito humano sobre a crueldade e o diabo através da sua extraordinária personalidade e dos seus fascinantes livros».

Os mesmos livros que nunca deixaram indiferentes aqueles que negam o Holocausto e fizeram de Wiesel um alvo móvel. Ficou célebre a agressão que sofreu, por parte de um jovem negacionista, num hotel de São Francisco.

A visão mágica da cultura do seu povo ajudou sempre o escritor a superar momentos de crise e enriquecer uma bagagem poética fundada na figura ancestral do Golem. A sombra misteriosa que aparece e desaparece a cada 33 anos, à vista dos habitantes do gueto de Praga, inquietando as suas vidas, e não o homem de argila criado pelo rabi Judah Loew, o Maharal, que aflora nas suas páginas.

Das muitas versões que se transmitiram do Golem desde a segunda metade do séc. XVI até ao fim do séc. XVIII, Wiesel escolheu a primeira, a mais antiga, aquela em que o rabi Loew criou um ser supremo para proteger os judeus das perseguições. «Hoje como ontem alguém deve colocar-se entre o ódio e nós», escreveu Wiesel, que publicou “O Golem” precisamente no ano em que lhe foi atribuído o Nobel.

A sua obsessão era o do esquecimento da memória, e por isso apelava a não se voltar a cair no erro do silêncio das vítimas da Shoah que tinha conhecido no fim da guerra. «Não podemos poupar memórias de dor aos nossos filhos». O trabalho cultural mais importante que realizou foi evitar que as pessoas não compreendessem e não soubessem.

A força da memória contra a regurgitação dos totalitarismos e de um antissemitismo de que tomou o pulso em todo o mundo de que, até ao fim, tomou o pulso em todo o mundo, viajando para conferências e apresentações de livros.

Em cada encontro com os poderosos, exortava a combater com a força da diplomacia. «O antissemitismo poderia ter existido sem a Shoah, mas não teria havido a Shoah sem o antissemitismo».

O perigo, para Wiesel, aninha-se nos intelectuais que falam sempre das vítimas, mas não fazem ouvir a sua voz. Um silêncio que é mais perigoso do que o de quem nega e atua para o esquecimento. «O género humano deve recordar que a paz não é o dom de Deus às suas criaturas: a paz é o dom que nos fazemos uns com os outros», afirmou.

Deus, precisamente: «Para o judeu que sou, Auschwitz representa uma tragédia humana mas também – e sobretudo – um escândalo teológico. Para mim é um facto inegável: é impossível aceitar Auschwitz com Deus ou sem Deus. Mas então, como compreender o seu silêncio?».

«Admito que me coloquei contra o Senhor, mas nunca o reneguei. Reivindico o grito de Jeremias nas “Lamentações”, quando evoca a destruição do primeiro tempo de Jerusalém: “Tu mataste os teus filhos sem piedade! Tu assassinaste o teu povo sem compaixão”.»

Mas evocação não é sinónimo de acusação: «Entre nós, sobreviventes, alguns protestaram contra o silêncio divino. Mas nenhum teve a audácia de chamar Deus de “assassino”».

E assim Deus se tornou interlocutor de Wiesel, sempre ao seu lado, fazendo parte do seu eu, do seu pensamento e de toda a sua vida, numa companhia feita de embate e combate: «A Torá ensina a escolher a vida. Creio na humanidade contra a humanidade. Creio em Deus contra Deus».

Todavia, nem só de desassossego se teceu a história de Deus com Wiesel. Nos seus escritos recorda um diálogo com um neto, quando este lhe diz: «Avô, sabes que te amo; e eu sei o quanto estás a sofrer. Diz-me: se eu te amar mais, tu sofrerás menos?». A reação do escritor revela a sua mente e o seu espírito: «Naquele comento, estou convencido, Deus contempla a sua criação sorrindo».

«Tantas coisas ainda a levar até ao fim… tantos desafios a enfrentar. Tantas orações a compor. Tantas palavras a encontrar, tantos silêncios a fazer cantar», escreveu Elie Wiesel. Haverá quem agarre este testemunho e o transmita às próximas gerações?

 

A partir de textos de Massimiliano Castellani/Avvenire, Cristiana Dobner/SIR
Redação: Rui Jorge Martins
Publicado em 04.07.2016

 

 
Imagem Elie Wiesel | D.R.
«Quando o mundo renunciar à memória do Holocausto, será como se escolhesse matar a vítima uma segunda vez, depois de na primeira vez ter sido incapaz de a salvar»
«Para o judeu que sou, Auschwitz representa uma tragédia humana mas também – e sobretudo – um escândalo teológico. Para mim é um facto inegável: é impossível aceitar Auschwitz com Deus ou sem Deus. Mas então, como compreender o seu silêncio?»
Nem só de desassossego se teceu a história de Deus com Wiesel. Nos seus escritos recorda um diálogo com um neto, quando este lhe diz: «Avô, sabes que te amo; e eu sei o quanto estás a sofrer. Diz-me: se eu te amar mais, tu sofrerás menos?». A reação do escritor revela a sua mente e o seu espírito: «Naquele comento, estou convencido, Deus contempla a sua criação sorrindo»
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