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Eleições: Escutar o silêncio

Imagem © niyazz/Fotolia

Eleições: Escutar o silêncio

Época de eleições é tempo de imenso barulho. Falam os candidatos, falam os que apoiam ou os que criticam os candidatos, falam os meios de comunicação, falam os jingles, a internet.  Fala Deus e todo o mundo, pois os meios de comunicação social estão na rua acompanhando o dia a dia dos candidatos, que entre empurrões e abraços são instados a falar tudo o que pensam fazer nos próximos anos (...).

E há os debates, onde todos falam para além do tempo que lhes foi pedido e combinado. E falam ao mesmo tempo. E a fala de um atropela a do outro. As falas são agressivas, pois têm que convencer pelo seu muito falar e vencer. E ainda virão os comícios, as arruadas, com (...) microfones e megafones enchendo o espaço público de um grande e ensurdecedor barulho. (...)

Não sou misantropa ou eremita, e longe de mim querer condenar a palavra, indispensável para o fazer político. Tampouco pretendo desqualificar o necessário debate e interlocução que povoam o período pré-eleitoral. Há que falar mesmo, há que discutir, debater, expor pontos de vista. Porém, se a questão é escolher em quem votar responsavelmente, o discernimento é o caminho necessário. E para tanto não é a melhor conduta deixar-se assoberbar e afogar em infinidade de discursos exaltados. Há que escolher a melhor opção entre as que se apresentam, sopesando prós e contras, olhando mais longe que os próprios interesses e pensando no bem comum e no futuro do país. E isto é por demais sério para ser feito se não for alternando silêncio e ruído, silêncio e fala, silêncio e discurso.

Não é por nada que ao povo de Israel é recomendado retirar-se para o deserto para aí escutar o silêncio sem outra recreação para os sentidos senão a espera da revelação que virá. Nem é despida de importância a atitude vital de Jesus de Nazaré quando, em plena febril atividade que constituía sua vida no meio de multidões e andanças pela Palestina, se retirava no silêncio para ouvir a voz do Pai e conhecer sua vontade. 

Para algo sério como escolher os nossos representantes na política (...) faz-se necessário alternar. Mover-se entre a escuta das vozes diversas que lançam informações de todo tipo na rede e nas ruas, e ouvir em silêncio o que nos é inspirado na direção do voto. O que significa para mim o ato de votar? O que estou a buscar construir com meu voto? Como é que este ato tão sério, de depositar na urna a minha escolha para o futuro do país e das novas gerações, pode ser exercido da maneira mais responsável possível? 

No silêncio talvez sejamos visitados por inspirações inesperadas e surpreendentes.  Buscando ouvir sem interromper, sem gritar nem discutir, talvez brote de nosso interior um caminho ou uma opção que não havíamos antes cogitado. Trata-se de expor-se ao inesperado que será gerado e conduzido ao nível de nossa consciência e influenciará a nossa decisão, apontando o caminho.

Talvez nos custe e num primeiro momento o silêncio se deixe sentir como pura privação, carência, tédio.  Mas se persistirmos far-se-á palavra e emergirão as coisas escondidas no fundo de nós mesmos, que os muitos ruídos e o falar incessante encobriam. O silêncio é tenso, implacável, decisivo e ilumina os nossos medos, as nossas motivações não tão retas, a nossa liberdade interior não tão despojada. Na luta que provocará em nosso interior, trará à luz as muitas ambiguidades que nos fazem batizar de belos nomes as nossas mais obscuras e desordenadas paixões.

Fazer silêncio, escutar a ausência de ruídos e esperar pela inspiração que nos moverá na direção da liberdade responsável de escolher um candidato é, no fundo, um ato de coragem. Equivale a afirmar que não somos massa, mas povo com um projeto e uma utopia.  Significa pagar o preço de ser livres e não aceitar que escolham por nós, mas escolhermos quem nos fará mais humanos e ao nosso povo.

Uma vez acontecida a fecundação interior, o silêncio deixa de ser incómoda ausência para revelar-se presença, serena e respeitosa, que discretamente dilata os nossos espaços interiores, a fim de que a liberdade se concretize em opção que se inscreve na história como escrita da vida.

Enquanto acompanhamos a campanha neste tempo pré-eleitoral, ouçamos os candidatos e as suas plataformas. Escutemos atentamente o que têm a propor.  Mas saibamos igualmente retirar-nos e fazer silêncio dentro de nós mesmos, para que o que escutamos seja ruminado, digerido, processado e transformado em voto responsável e livre, que elege o que sentimos ser melhor para nossos filhos e netos, a quem devemos um país mais justo e uma nação mais consciente.

Esperamos que o que emergirá de nosso silêncio será então a festa do povo celebrando uma vitória serena, madura e alegre, feita de palavra e silêncio, de olhar nos olhos e sorrir alegre e cantar esperançoso na festa cívica do compromisso com a vida para todos.

 

Maria Clara Bingemer
Teóloga, professora do Departamento de Teologia e Ciências Humanas da Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro, Brasil
In "Jornal do Brasil", 4.9.2014
Publicado em 30.09.2015

 

 
Imagem © niyazz/Fotolia
Há que escolher a melhor opção entre as que se apresentam, sopesando prós e contras, olhando mais longe que os próprios interesses e pensando no bem comum e no futuro do país. E isto é por demais sério para ser feito se não for alternando silêncio e ruído, silêncio e fala, silêncio e discurso
O que significa para mim o ato de votar? O que estou a buscar construir com meu voto? Como é que este ato tão sério, de depositar na urna a minha escolha para o futuro do país e das novas gerações, pode ser exercido da maneira mais responsável possível?
No silêncio talvez sejamos visitados por inspirações inesperadas e surpreendentes. Buscando ouvir sem interromper, sem gritar nem discutir, talvez brote de nosso interior um caminho ou uma opção que não havíamos antes cogitado
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