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Economia e sociedade: Está mais que na hora de mudar

«As temáticas económicas e financeiras, nunca como hoje, atraem a nossa atenção, pelo motivo da crescente influência exercitada pelo mercado em relação ao bem-estar material de boa parte da humanidade.»

Assim começa o documento "Oeconomicae et pecuniariae quaestiones - Considerações para um discernimento ético sobre alguns aspectos do atual sistema económico-financeiro", divulgado na quinta-feira pelo Vaticano.

A economia e a finança foram sempre questões decisivas para a vida das pessoas. A riqueza e a pobreza, a poupança, a banca e o trabalho representaram em cada época as coordenadas dentro das quais aconteciam muitas das coisas mais importantes da vida.

Porque é que, então, a Igreja católica sente que «nunca como hoje» a economia e a finança são importantes e decisivas para o bem-estar humano? Porque a crescente ausência da política da vida económica e financeira está a deixar às empresas e à banca o governo das nossas sociedades globalizadas. Há muito, demasiada, economia na paisagem do nosso mundo, e a lógica dos negócios está a tornar-se a lógica de toda a vida social dos povos.

É importante que este documento sobre economia e finanças tenha sido emanado, em conjunto, pela Congregação para a Doutrina da Fé e pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Isso diz que também a economia e a finança têm a ver diretamente com a atuação e atualização da fé cristã, que empresas e os bancos também são questões teológicas.



Durante demasiado tempo dissemos e pensamos que os responsáveis pela crise financeira foram apenas as instituições e os bancos, esquecendo a outra face da verdade: se houve e há uma oferta financeira altamente especulativa e sem escrúpulos é porque do outro lado havia e há uma procura desses produtos



Diz igualmente que, hoje, uma vida individual e coletiva fiel ao Evangelho não pode deixar de ser confrontada com a fé, e que a fé não pode deixar de lidar com a economia e a finança, que são lugares espirituais e teológicos.

São muitos os pontos do texto que merecem uma análise profunda. Em primeiro lugar, é importante que o documento fale de finança e ofereça alertas e advertências sobre esse setor específico, quando hoje muitos falam da crise financeira como algo que pertence ao passado. Na realidade, dez anos após a crise, tudo parece continuar exatamente como antes de 2007.

Os produtos financeiros são cada vez mais inovadores e "criativos", os regulamentos permaneceram (quase) os mesmos e, acima de tudo, a lógica e a opção dos aforradores continuam a ser demasiado orientadas para a maximização da receita financeira. É significativa a ênfase que o documento coloca na responsabilidade civil e social dos cidadãos consumidores e aforradores.

Durante demasiado tempo dissemos e pensamos que os responsáveis pela crise financeira foram apenas as instituições e os bancos, esquecendo a outra face da verdade: se houve e há uma oferta financeira altamente especulativa e sem escrúpulos é porque do outro lado havia e há uma procura desses produtos que vem, em grande parte, das famílias, de nós.



«O lucro do capital coloca fortemente em risco, e corre o risco de suplantar, o rendimento do trabalho, comummente confinado às margens dos principais interesses do sistema económico»



Não entraremos numa nova fase económica e financeira sem uma nova cultura individual, que comece a olhar com mais atenção crítica, e talvez algo profética, as opções financeiras e económicas diárias.

Trata-se, portanto, de um convite à atenção civil sobre a finança e a economia, que são demasiado importantes para serem deixados apenas aos especialistas do setor. Distraímo-nos excessivamente e, nessa distração, ocorreram acontecimentos nocivos, por vezes muito nocivos, sobretudo para os pobres e para os descartados.

O resto chama-nos a cuidar da casa e das suas regras - "oikos nomos": economia -, a estar mais presentes dentro dos processos de mercado, a habitar mais os lugares económicos, porque nos lugares abandonados e desertos escondem-se bandidos e bestas.

A crítica à finança nasce de uma leitura profunda da sua patologia, antiga e nova: o rendimento: o que «por mais de um século foi tristemente previsto, tornou-se realidade hoje: o lucro do capital coloca fortemente em risco, e corre o risco de suplantar, o rendimento do trabalho, comummente confinado às margens dos principais interesses do sistema económico» (n. 15). 



«Toda a realidade e atividade humana (...) é positiva. Isto vale para todas as instituições a que dá vida a sociabilidade humana e também para os mercados, em cada nível, compreendidos aqueles financeiros»



O domínio do rendimento é a neurose das finanças. Como sabiam muito bem a Bíblia e a Idade Média, que condenavam o empréstimo com juros ou usura, porque era expressão do domínio do rendimento: alguém detinha um poder - o dinheiro -, e essa condição de domínio permitia-lhe receber proveitos sem trabalhar.

O principal conflito do nosso tempo já não é entre capital e trabalho, mais típico dos séculos XIX e XX, mas o conflito entre rendimento e trabalho, um rendimento financeiro que esmaga ganhos e salários.

A crítica constante no documento é, no entanto, precedida e acompanhada por um olhar positivo sobre a vida económica: «Toda a realidade e atividade humana (...) é positiva. Isto vale para todas as instituições a que dá vida a sociabilidade humana e também para os mercados, em cada nível, compreendidos aqueles financeiros» (n.º 8).

A economia e a finança permanecem coisas boas, imperfeitas e melhoráveis, mas essenciais para imaginar e realizar uma boa sociedade. E deste bom olhar devemos recomeçar a esperar, a vigiar, a fazer.


 

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