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E se na ONU se falasse mais de arte e beleza para promover a paz e os direitos humanos?

E se na ONU se falasse mais de arte e beleza para promover a paz e os direitos humanos?

Imagem "A disputa do Santíssimo Sacramento" (det.) | Rafael | 1509-1510 | Museus do Vaticano

Aqui, nas Nações Unidas, falamos muito sobre paz e segurança, direitos humanos e desenvolvimento. Mas dificilmente, se alguma vez, falamos sobre arte e beleza como cruciais para a realização da visão e missão das Nações Unidas. Existe uma pré-conceção subtil, se não preconceito, de que a arte e a beleza não têm nenhum papel na realização desses pilares da ONU. No entanto, acreditamos que a beleza artística não é estranha aos propósitos das Nações Unidas. Ela é, com efeito, fundamental para a formação de uma cultura sem a qual não podem ser atingidos os elevados objetivos de promover a paz, promover o desenvolvimento sustentável e proteger e promover a dignidade e os direitos humanos. Afinal, a beleza não é a superabundância da verdade e da bondade?

O papa Francisco apontou essa ligação entre beleza e o que ele descreveu como ecologia integral na sua carta encíclica de 2015 sobre o cuidado da nossa casa comum, "Laudato si'". Escreveu ele: «A relação entre uma boa educação estética e a manutenção de um ambiente saudável não pode ser esquecida. Ao aprender a ver e apreciar a beleza, aprendemos a rejeitar o pragmatismo auto-interessado. Se alguém não aprendeu a parar e admirar algo bonito, não nos devemos surpreender se ele ou ela trata tudo como um objeto a ser usado e abusado sem escrúpulos. Se quisermos fazer mudanças profundas, precisamos de entender que certas mentalidades influenciam realmente o nosso comportamento», e enfatizou o poder da beleza - tanto natural como artística - para elevar as nossas mentalidades.



Papas, poetas e comuns mortais foram verdadeiramente inspirados pelo poder curativo e transformador da beleza que ilumina até o mal mais escuro. É por isso que, para a Igreja católica, a "via pulchritudinis" [via da beleza] não é apenas uma jornada artística e estética, mas também um caminho de fé, de alimento espiritual, de investigação teológica, de chegar à própria fonte da beleza



Em dezembro passado, no Vaticano, numa mensagem aos participantes numa conferência dedicada ao papel da beleza em dar um rosto humano às nossas cidades numa era de rápida urbanização, o papa Francisco impulsionou o tema, afirmando que, em resposta à crise social e económica que estão a levar muitos à agressão e ao desespero, a beleza é necessária para elevar os olhos e corações das pessoas, restaurar a confiança e o entusiasmo, ajudá-las a começar a sonhar novamente e a redescobrir o caminho.

Citando o seu antecessor, o papa Bento XVI, o papa Francisco disse que a experiência da autêntica beleza «não é de forma alguma um factor suplementar ou secundário na nossa busca de sentido e felicidade. A experiência da beleza não nos afasta da realidade. Pelo contrário, conduz a um encontro direto com a realidade diária das nossas vidas, libertando-a das trevas, transfigurando-a, tornando-a radiante e bela».



A beleza tem a capacidade de desbloquear os mais profundos anseios do nosso coração e abrir os nossos olhos para perceber a realidade mais íntima da pessoa e do mundo que nos rodeia



Papas, poetas e comuns mortais foram verdadeiramente inspirados pelo poder curativo e transformador da beleza que ilumina até o mal mais escuro. É por isso que, para a Igreja católica, a "via pulchritudinis" [via da beleza] não é apenas uma jornada artística e estética, mas também um caminho de fé, de alimento espiritual, de investigação teológica, de chegar à própria fonte da beleza. Hans von Balthasar escreveu lindamente e copiosamente sobre isso, e Simone Weil escreveu a este respeito: «Em tudo o que desperta dentro de nós o sentimento puro e autêntico da beleza, há, verdadeiramente, a presença de Deus». Este é o espírito por trás da defesa que a Igreja católica tem feito da arte ao longo dos séculos.

Fiodor Dostoiévski, no seu romance "O idiota", afirmou: «A beleza salvará o mundo». A beleza pode não ter curado a epilepsia do príncipe Myskin, mas até mesmo a contemplação de sua própria doença o transportou para «um instante de sensação mais profunda, transbordando de alegria ilimitada e arrebatamento, devoção extática e vida mais completa».

Dostoiévski e os papas têm ideias semelhantes em relação ao poder curativo e transformador da beleza. O papa João Paulo II, na sua carta aos Artistas, falou do «poder salvador da beleza», dizendo que «as pessoas de hoje e de amanhã precisam deste entusiasmo [de admiração] se quiserem conhecer e dominar os desafios cruciais que estão diante de nós. Graças a este entusiasmo, a humanidade, cada vez que perde o seu caminho, será capaz de erguer-se e partir novamente no caminho certo. Nesse sentido, foi dito, com profunda visão, que «a beleza salvará o mundo».



A beleza também tem a capacidade de unir pessoas de gerações e continentes em admiração compartilhada, estabelecendo um bem comum transcendente que pode ser o alicerce para conversações futuras, cooperação e até mesmo contemplação. É por isso que a promoção da beleza deve sempre permanecer uma parte crucial do trabalho das nações do mundo



O papa Francisco usou a mesma ideia de Dostoiévski para afirmar na encíclica "Lumen fidei" que é precisamente ao contemplar a morte horrenda de Jesus que a fé se fortalece e recebe uma luz deslumbrante; então revela-se como fé na extraordinária beleza do amor inabalável de Deus por nós, capaz de abraçar a morte para nos salvar.

Envolvido na magnificência da capela Sistina, o papa Bento XVI, no seu encontro com os artistas em 2009, citou outra frase de Dostoiévski para sublinhar a importância essencial da beleza na vida humana, lembrando a provocadora afirmação do grande russo: «O homem pode viver sem ciência, pode viver sem pão, mas sem beleza não poderia mais viver, porque não haveria mais nada a fazer ao mundo».
 
A beleza tem a capacidade de desbloquear os mais profundos anseios do nosso coração e abrir os nossos olhos para perceber a realidade mais íntima da pessoa e do mundo que nos rodeia. A beleza também tem a capacidade de unir pessoas de gerações e continentes em admiração compartilhada, estabelecendo um bem comum transcendente que pode ser o alicerce para conversações futuras, cooperação e até mesmo contemplação. É por isso que a promoção da beleza deve sempre permanecer uma parte crucial do trabalho das nações do mundo.



 

D. Bernardito Auza, arcebispo
Observador permanente da Santa Sé na ONU
ONU, Nova Iorque, 10.5.2017
Fonte: "Missão da Santa Sé na ONU"
Trad.: SNPC
Publicado em 22.05.2017

 

 
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