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«É preciso salvaguardar o arco-íris das culturas e etnias» queridas por Deus

O presidente do Conselho Pontifício da Cultura, organismo do Vaticano, considera que o «racismo e a xenofobia estão infelizmente a emergir com o seu rosto agressivo nas redes sociais e em vários populismos atuais».

«Contra esta arrogância que despreza o outro, condenada por Deus, é necessário salvaguardar o arco-íris das culturas e das etnias queridas pelo Criador», afirmou o cardeal Gianfranco Ravasi ao abrir o “Átrio de Francisco”, quarta edição da iniciativa aberta a crentes e não crentes realizada em Assis, cidade italiana onde nasceu e morreu o santo homónimo.

O evento cultural promovido pelos Franciscanos, que decorre a 15, 21 e 22 de setembro e é dedicado ao tema “Diferenças”, envolve mais de 40 intervenientes, divididos por 32 encontros e múltiplas secções – “jornalismo”, “arquitetura e design”, “política, direito, ambiente”, “arte”, “economia”, “arte”, “cinema, teatro, música”, “literatura” –, e compreende a execução de uma obra para coro e orquestra com leituras da Bíblia, Corão e Parménides.

A intervenção:

«Um dos mais autorizados estadistas alemães do século passado, Konrad Adenauer (1876-1967), declarava: “Vivemos todos sob o mesmo céu, mas nem todos temos o mesmo horizonte”.



Não se deve acreditar «na opinião espalhada de que, para tornar uma discussão fecunda, aqueles que nela participam devem ter muito em comum. Ao contrário, quanto mais diversas são as suas raízes, mais fecunda será a discussão. Não é sequer necessária uma linguagem comum para iniciar: se a torre de Babel não tivesse sido feita, teríamos de construir uma



A sua consideração cruza duas coordenadas. Uma é vertical e é a unidade “celeste” do género humano: em todos nós corre a mesma linfa e temos o mesmo tecido “adâmico”. Somos criaturas humanas fundamentalmente iguais. O outro eixo é horizontal e desfia-se em mil perspetivas, revelando assim a pluralidade e, portanto, as diferenças.

Há uma sugestiva metáfora rabínica que afirma: Deus fez todos os homens com o mesmo cunho mas, diferentemente das moedas que são iguais, as criaturas humanas são todas diferentes (pense-se apenas nas impressões digitais). Única é a dignidade, ou seja, a pertença ao ser humano, infinita é a pluralidade dos rostos, das almas, dos pensamentos.

É por isso significativo o título do Átrio de Francisco dedicado a este tema segundo ângulos e perspetivas diversas. Afirma-se, com efeito, a “necessidade” das diferenças para a plenitude da própria humanidade. Aliás, o diálogo entre vozes diferentes é uma demonstração do tema.

Como escrevia o conhecido filósofo vienense Karl Popper (1902-94), não se deve acreditar “na opinião espalhada de que, para tornar uma discussão fecunda, aqueles que nela participam devem ter muito em comum. Ao contrário, quanto mais diversas são as suas raízes, mais fecunda será a discussão. Não é sequer necessária uma linguagem comum para iniciar: se a torre de Babel não tivesse sido feita, teríamos de construir uma”.

O sonho do imperialismo da Babilónia era o de impor um «único lábio», como se diz no original do capítulo 11 do Génesis, isto é, uma só língua, uma só cultura, uma só conceção da vida, obrigatória para todas. É isso que está na raiz inclusive do racismo e da xenofobia que infelizmente estão a emergir com o seu rosto agressivo nas redes sociais e em vários populismos atuais, até no nosso país, marcado por uma civilização dialógica outra».

Contra esta arrogância que despreza o outro, condenada por Deus, é necessário salvaguardar o arco-íris das culturas e das etnias queridas pelo Criador. Um dos antigos mestres dos judeus da Europa central, ditos hassidim, isto é, os pios, afirmava: “Em cada homem há qualquer coisa de precioso que não se encontra em nenhum outro. Deve-se, por isso, respeitar cada um segundo as virtudes que só ele possui e que nenhum outro tem”.»



 

Rui Jorge Martins
Fonte: Corriere della Sera
Imagem: nilsmen/Bigstock.com
Publicado em 18.09.2018

 

 

 
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