Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

E eu não o sabia: Arte, liturgia, arquitetura

E eu não o sabia: Arte, liturgia, arquitetura

Imagem © Filipe Alves

O discurso abre-se no silêncio diante da dimensão da altura: não pode ser completo, vive no outro modo de ser, adia a traição, morre pelo invisível (1), e por isso, dá lugar à verdade que se desvela, à procura por nomear Deus, que não é nada mais que a vontade de o tornar presente, mesmo que de forma incompleta. A Deus, diz São João, «jamais alguém o viu» (Jo 1,18a), e contudo Ele é o continuamente presente – «Este é o meu corpo, que é dado por Vós» (Lc 22, 19) – O que nos é dado numa dimensão verdadeiramente nossa, e deste modo verdadeiramente sua, de tal modo que a Trindade não é somente um mistério, mas também a «verdade que se pratica» (2).

«E eu não o sabia» (Gn 28, 19): a conversa, entre Paulo Pires do Vale, filósofo, professor, ensaísta e ultimamente responsável pela curadoria de exposições de artistas como Rui Chafes ou Lourdes Castro, e Fernando Matos Rodrigues, antropólogo e investigador na área da arquitetura, decorreu, em Braga, durante o Dia Nacional da Faculdade de Teologia [23 de maio], na procura de uma forma de habitar e celebrar a arte e o espaço litúrgico, nomeadamente com referência às novas produções, como sendo, a Capela Árvore da Vida, a Capela Imaculada e, igualmente, a Capela Cheia de Graça, incluindo, em tal período, uma visita aos dois últimos locais e celebração da eucaristia, já no final do dia.  

«Voltai Senhor, até quando» (Sl 90, 13). Vivemos entre o que estabiliza e o que incomoda, entre a representatividade do mistério e a nossa incapacidade de o fazer, de modo que a arte sacra se apresenta neste dilema, ao qual hoje podemos acrescer o contínuo ruido da cidade, mas, igualmente, a própria identidade eclesial: «Queremos uma Igreja destacada, ou antes uma Igreja no meio da cidade?», perguntava Paulo Pires do Vale. A Arte apresenta-se, nesta linha, como o espaço dialógico e dinâmico, o local do jejum da sequência de imagens do quotidiano; o espaço do homem, porque, como indica o mesmo orador, a dimensão deste ofício não separa o mundo de Deus e o do ser humano, mas une-o, visto que o nosso conhecimento é sempre mediado e construído, dando lugar à imaginação como meio da incarnação de Cristo: o cristão é aquele que vê, e fá-lo de um determinado modo.









Na verdade, é perante isto que o espaço nos envolve: o espaço que somos, o espaço que o outro é para nós, o espaço como único modo de eu ser o que sou, e daí que a arte não seja um lugar, mas antes de tudo o lugar. Por esse motivo, Fernando Matos Rodrigues expande as medidas dos nossos indícios, apontando na Capela Imaculada a totalidade de um lugar onde o vertical-horizontal, o alto-baixo se presentificam. Trata-se, como dizia, de ressacralizar o espaço litúrgico, dotá-lo de vazio, de serenidade, de consciência de um limite, onde a dúvida e o desconhecido são signos da beleza.









A arte assume a fraqueza: é capaz de debilitar o homem, colocá-lo em questão, recusar o auto-poder, destacar a dissolução, a fome e a fadiga, traz-lhe à memória a decadência, o perigo e a impotência (3), e por isso, a recusa que lhe fazemos, por demostrar que a beleza nos é insuficiente para a realidade, e que o Homem só é compreendido no seu todo, sentindo-se a existir, desta forma múltiplo.












(1) Cf. E. LEVINAS, Totalidade e Infinito, 19-22.
(2) J. MENDONÇA, A Mística do Instante, 68.
(3) Cf. F. NIETZSCHE, Crepúsculo dos Ídolos, 93-94.



 

Texto: Comissão Organizadora do ENFT
Vídeo e edição: Auditório Vita, Tiago Silva
Fotografia: Filipe Alves
Publicado em 02.06.2017

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos