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Dominicanos: Breve história da fundação da Ordem dos Pregadores e da presença em Portugal

A Ordo Praedicatorum, vulgarmente conhecida por Ordem Dominicana (herança do nome do seu fundador), teve origem num grupo de homens orientado por Domingos de Gusmão, que se reuniu numa propriedade herdada por Pedro Seila, que integrava aquela comunidade, no ano de 1215, em Toulouse.

Existia, naquela altura, um problema muito preocupante para a Igreja Católica - a proliferação dos Cátaros, um movimento que se espalhou sobretudo pelo Sul de França e Itália entre os sécs. XI e XIV. Foi neste contexto que S. Domingos ouviu o apelo da sua época e procurou incentivar a disseminação da palavra de Deus, auxiliado por um grupo inicial de apenas 16 companheiros, do qual fazia parte um dos seus irmãos de sangue.

Neste sentido, ainda em 1215, a Ordem é autorizada por Inocêncio III, e posteriormente confirmada por Honório III, em 22 de dezembro de 1216, após a diligência de Domingos de Gusmão junto do papa, por altura do IV Concílio de Latrão.

A novidade do projeto do fundador estava precisamente no seu carisma apostólico reforçado na bula Gratiarum omnium, de 21 de janeiro de 1217. A pregação surgia como uma necessidade vital para a Igreja, para que a evangelização levasse à conversão dos hereges ou descrentes.

FotoRuínas do Convento de Montejunto. Foto: Foto Criativa

Assim, tendo sempre em vista o fim último da conversão, era fulcral que os frades conhecessem profundamente as escrituras, para que as pudessem transmitir e defender. O estudo aprofundado da doutrina estava ao serviço da Igreja e a pregação fundamentada era a ferramenta preferida para levar a aplavra aos que mais precisavam de a ouvir.

Apesar de fortemente eruditos, ao ponto de a Ordem ser também apelidada de Ordo Doctorum, os Pregadores partiam despojados de bens materiais, atitude assumida pelo próprio S. Domingos desde os primórdios.

Com a bula de 1217 e o reconhecimento papal da pertinência da Ordem, foram atribuídos alguns privilégios aos Dominicanos, como por exemplo a possibilidade de poderem pregar ou ministrar sacramentos usufruindo de isenção em relação aos bispos. Ainda neste ano, Domingos dividiu o grupo de companheiros que o seguia, para que, à semelhança dos apóstolos, espalhassem a palavra. Assim, dos 16 membros, 7 foram para Paris, 4 para Espanha, 3 para Toulouse e 2 para Prouille.

FotoIgreja de S. Domingos, Lisboa. Foto: Portugal em Fotos

A Ordem ia ganhando forma, relevo e institucionalização, e, a 17 de maio de 1220, teve lugar o primeiro capítulo geral, em Bolonha, onde foram aprovadas as constituições inspiradas na Regra de Santo Agostinho, e no ideário premonstratense de S. Norberto, que já tinham servido de base para a confirmação da regra da Ordem por Honório III, ainda em 1216.

Desta assembleia surgiram algumas decisões que iam de encontro ao carisma do fundador: os membros da instituição não poderiam adquirir propriedades ou bens terrenos que impedissem a prática da pregação; os frades poderiam ser dispensados do Ofício Divino se estivessem a trabalhar para a conversão das almas, seja mediante o estudo, seja através da pregação.

Estas particularidades dos Dominicanos não só os definiam e diferenciavam das restantes ordens (eram mendicantes materialmente, mas fomentavam a erudição ao serviço da Igreja), como os tornavam mestres doutrinais profundamente instruídos.

FotoConvento de S. Domingos, Guimarães

A Ordem dos Pregadores conheceu grande prosperidade, com a proliferação de casas e escolas. Contudo, a devastação provocada pela peste negra (que aniquilou um grande número de frades nos conventos) e o descuramento dos costumes ao longo do séc. XIV motivaram uma ação reformativa realizada por Conrado da Prússia, no sentido de restaurar o primitivo vigor da Ordem de S. Domingos.

 

Os Dominicanos em Portugal

Integrado no contexto europeu que viu florescer e prosperar a Ordem dos Pregadores desde o século XIII, Portugal receberia o primeiro dominicano em 1217, na pessoa do Fr. Soeiro Gomes, um dos 16 companheiros de S. Domingos.

A fundação do Vicariato de Portugal da Província da Espanha ocorreria no ano de 1275 - até lá seriam criados so primeiros conventos da Ordem.

FotoIgreja do Convento de S. Domingos, atual sé de Aveiro

Depois de estabelecida primeiramente em Montejunto (cujo convento foi transferido em 1221 para Santarém), a instituição seguiria para Coimbra (1227). A fundação do Convento do Porto teve lugar em 1239, por iniciativa de Sancho II e incentivo do bispo da mesma localidade, que após o capítulo provincial de 1237 solicitou a presença de frades dominicanos na sua terra.

Ainda motivada pelo mesmo monarca mas continuada por D. Afonso III, a construção de um convento em Lisboa seria concluída em 1259. Seguiram-se as fundações dos conventos de Nossa Senhora dos Mártires, em Elvas (1267), Nossa Senhora das Neves, em Guimarães (1270), e também S. Domingos de Évora (1286).

O apoio régio aos Pregadores tornar-se-ia mais evidente com a entrega do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha, em 1388, quando D. João I assumia o trono. Do mesmo modo, o infante D. Pedro fundaria um convento em Aveiro, em 1423. Neste contexto da nova dinastia de Avis, destaca-se a figura de Fr. Vicente de Lisboa, confessor do rei, reformador da Ordem de S. Domingos em Portugal, e responsável pela fundação do Convento de S. Domingos de Benfica (1399).

FotoIgreja do Convento de S. Domingos, Lisboa (e imagens seguintes). Fotos: RJM/SNPC

O ano de 1418 representa um marco fundamental na história da Ordem em Portugal, uma vez que, pela bula Sacrae religionis, Martinho V aprova a Província Portuguesa, autonomizando-a da província ibérica.

Contudo, a época áurea da Ordem em Portugal ocorreu sobretudo no séc. XVI, através da fundação de mais conventos, do Colégio de S: Tomás, em Coimbra (1566) - o primeiro colégio universitário - e pelo aumento do espólio bibliotecário que alimentava a erudição dos frades.

Mesmo a participação de dominicanos na escolha e censura de livros no organismo do Santo Ofício comprovava a sua bem conceituada erudição, uma vez que se exigia um profundo conhecimento da doutrina católica a quem exercesse essa função.

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A evangelização portuguesa foi igualmente direcionada para as colónias, nomeadamente em África, onde se destaca o acompanhamento dos Dominicanos na tomada de Ceuta, chegando mais tarde a Angola, Congo, Guiné e Moçambique. Empreenderam missões também no Oriente e instalaram-se na Índia, localidade de Cochim, em 1503.

Os dominicanos portugueses celebrizaram-se na Europa, onde lecionaram em universidades como Oxford, Paris, Cambridge, Toulouse, Valladolid, Lovaina, entre outras.

De notar ainda que a comitiva enviada para representar Portugal no Concílio de Trento era constituída por dominicanos, de onde destacamos D. Fr. Bartolomeu dos Mártires (3 de maio de 1514 - 16 de julho de 1590). Figura de grande relevo na história da Ordem em Portugal, este frade pregador foi arcebispo de Braga e um importante executor das medidas tridentinas na sua arquidiocese.

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Destacou-se pelo apoio dado aos mais carenciados, mesmo no que diz respeito à instrução escolar. No livro I, cap. XXI da Vida de D. Frei Bartolomeu dos Mártires, escrito pelo cronista Fr. Luís de Sousa, podemos apreciar um episódio ilustrativo da caridade do arcebispo: este recusou usar as roupas novas oferecidas por Fr. João de Leiria, doando-as secretamente a pessoas carenciadas, e preferindo manter as suas vestes mais gastas.

Atitudes de altruísmo e desapego como estas são abundantemente descritas pelo cronista ao longo de seis livros, que relatam aprofundadamente o percurso vivencial de Fr. Bartolomeu, deixando evidenciar a admiração que o autor e a comunidade em geral nutriam por ele.

Outras personalidades dominicanas se destacaram pela sua ação e participação no Concílio de Trento, como Jerónimo de Azambuja, Gaspar dos Reis, Jorge de Santiago, Francisco Foreiro e Luís de Soto Mayor.

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No entanto este cenário fértil conheceria um revés durante o período filipino, na medida em que a Ordem assumia um sentimento marcadamente anticastelhano. A decadência viria a acentuar-se no século XVIII, altura em que foi fundado o último convento dominicano (1721 - S. Martinho de Manselos), e em que a instituição perde alguma autonomia, ao lhe ser imposto, pelo Marquês de Pombal, o nome de Fr. João Mansilha como superior maior, contrariando a autoridade do Capítulo Províncial.

Em 1778 são suspensos os estudos em Coimbra, Batalha, Lisboa e Évora por falta de alunos, acontecimento que desferia um duro golpe no seio de uma Ordem onde a formação era o pilar de toda uma estrutura carismática.

Como aconteceu com outros institutos, o decreto de 18 de outubro de 1822 encerrou várias casas religiosas por falta de vocações, antecedendo o de 30 de maio de 1834, de Joaquim António de Aguiar, que extinguiu as ordem religiosas de Portugal.

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À semelhança do que sucede com o ramo feminino, os dominicanos irlandeses conseguem permanecer no país, aproveitando a sua condição de estrangeiros e mantendo a única presença dominicana em território continental. Este grupo de frades tinha chegado em 1600, e estava, então, instalado no Convento do Corpo Santo, em Lisboa.

Posteriormente, a restauração dos Pregadores teve início em 1897, pela ação de Fr. Domingos Frutuoso, o primeiro dominicano português a professar depois da extinção das ordena, mas que acaba por ser exilado na sequência da Implantação da República, em 1910, regressando apenas em 1913.

Como auxílio de Fr. Bernardo Lopes, Fr. José Lourenço e Fr. Domingos Frutuoso, a recuperação da Ordem torna-se uma realidade. Este último é nomeado bispo de Portalegre em 1920, e não deixa de contribuir para o renascimento dos Dominicanos em Portugal, nomeadamente ao receber estudantes dos seminários na sua diocese.

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Em 1927 é criada a Escola Apostólica do Luso, um caminho que abriria de novo as portas à formação, essencial para os frades. Cinco anos mais tarde, a escola é transferida para Mogofores, e em 1938 é novamente deslocada para o Porto. O noviciado é inaugurado em Sintra no ano de 1949, e trasladado para Fátima em 1952.

O Convento do Porto é recuperado em 1959, pouco antes da restauração canónica da Província Portuguesa, que ocorreu no dia 11 de março de 1962. Em 1972 os frades regressam às missões em Moçambique, e em 1982, a Angola.

Atualmente os Dominicanos têm casas em Lisboa (Convento de S. Domingos, restaurado a 12 de março de 1994; Casa Nossa Senhora do Rosário no Corpo Santo), Fátima (Convento Nossa Senhora do Rosário, inaugurado a 13 de outubro de 1952), e Porto (Convento de Cristo Rei, recuperado em 1959).

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Seguindo o trilho do fundador, a Ordem dos Pregadores continua a ter no desenvolvimento intelectual o instrumento privilegiado da conversão. É no estudo aprofundado da doutrina que radica a evangelização e se concretiza a imagem iluminada que S. Domingos legou aos seus companheiros e descendentes espirituais.

Nesta quinta-feira, 8 de agosto, dia em que a Igreja católica evoca S. Domingos, termina em Trogir, na Croácia, o capítulo geral dos Dominicanos, que começou a 22 de julho, com a participação do português Fr. José Manuel Correia Fernandes. A próxima assembleia máxima da Ordem foi marcada para Bolonha, Itália, cidade de que S. Domingos é padroeiro, no verão de 2016.

 

Paula Cristina Ferreira da Costa Carreira
In O esplendor da austeridade, ed. INCM

Com SNPC
01.04.14

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Igreja do Convento de S. Domingos
Lisboa

 

 

 

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