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“Do céu caiu uma estrela”: O milagre do anjo Clarence é a economia do dom

“Do céu caiu uma estrela”: O milagre do anjo Clarence é a economia do dom

Imagem D.R.

Já passou inúmeras vezes na televisão, especialmente nesta época, e talvez por isso “Do céu caiu uma estrela” (“It’s a wonderful life”, no original), de Frank Capra, merece que lhe seja reconhecida a importância e até a grandeza que a genérica definição de “filme de Natal” acabou por lhe negar.

É verdade que não faltam neste filme os bons sentimentos e abundam as armadilhas emotivas, mas se o espetador tiver a paciência de se centrar na estrutura em que a narrativa se apoia, dar-se-á conta de que este cinema é tudo menos ingénuo.

“Do céu caiu uma estrela” é um filme para toda a família (até porque é um belíssimo filme sobre a família), mas ao mesmo tempo é um filme de forte e quase declarado carácter político, como tinha em parte intuído a censura norte-americana em 1946, entre a II Guerra Mundial há pouco terminada e a Guerra Fria já pronta a começar.

E, mais do que tudo, é um filme – inteligentíssimo – sobre a economia e sobras as suas mais temíveis distorções, circunstância que o une a outra célebre comédia de ambiente natalício que da obra-prima de Capra pode ser considerada a prossecução, se não mesmo um “remake” mascarado: “Os ricos e os pobres”, com John Landis na realização e a dupla Dan Aykroyd-Eddie Murphy a dar uma demonstração plástica das risíveis contradições que estão na origem de todo o determinismo financeiro.

O protagonista de “Do céu caiu uma estrela” chama-se George Bailey, administra uma pequena cooperativa de poupança na pequena cidade de Bedford Falls e, apesar de ser incapaz de fazer inimigos, tem um adversário implacável no banqueiro Potter, defensor do princípio do lucro a todo o custo tanto quanto Bailey é um paladino do socorro mútuo.

A trama é suficientemente transparente, mas é preciso considerar que para interpretar o duro Potter foi escolhido (não por acaso) o histriónico Lionel Barrymore, que tinha dado voz ao mesquinho capitalista Scrooge numa popular versão radiofónica de “Um conto de Natal”, de Charles Dickens.

Bailey, por sua vez, é personificado por um James Stewart em estado de graça, habilíssimo em passar do entusiasmo ao desespero. Sim porque o dinheiro necessário para evitar a falência da cooperativa foram perdidos precisamente na véspera de Natal e George não sabe como escapar a não ser atirando-se ao rio para pôr fim a uma vida que lhe passa a parecer inútil.

Mas antes de desaparecer na água, acabamos com um velho bizarro que responde pelo nome de Clarence (um excelente Henry Travers), anjo encarregado de dissuadir o suicida. O qual, entretanto, mergulhou generosamente para salvar o seu salvador. É assim que tudo começa: a viagem no tempo, a descoberta de como seria o mundo se um homem de nome George Bailey nunca tivesse existido, o repensar, o acolhimento de um milagre que nasce da ideia, simplicíssima e revolucionária, da economia como partilha e dom, e não como exploração e posse.

Respeitando o destino de muitos clássicos – que não se limitam a contar uma história, mas são a história que estão a contar –, “Do céu caiu uma estrela” não foi um sucesso imediato, mas com o passar do tempo impôs-se pelo seu insuperável equilíbrio entre profundidade e delicadeza, entre comoção e divertimento. A propósito: este é também um magnífico filme sobre o amor conjugal. Não perca de vista a mulher de George, Mary (a atriz Donna Reed) se por acaso nestes dias quiser ver (ou rever) o filme.



 

Alessandro Zaccuri
In Avvenire
Trad.: SNPC
Publicado em 03.01.2018

 

 
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