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Fé e cultura

Igreja deve discernir e potenciar as aberturas ao transcendente

O que é mais importante (criar, manter, repensar) na relação da Igreja com a Cultura?

A Igreja deve estar atenta a tudo o que nas expressões do mundo das artes e do pensamento significa possibilidade de abertura a um horizonte maior do que o duma vida conduzida de forma estritamente terrena. Essas expressões podem surgir da parte dos que atuam quer como produtores quer como consumidores desse mundo. É possível que se apresentem implícitas ou surjam até de maneira declarada. Não surpreenderia que fossem sintoma dum certo anseio de transcendente.

Nos “Diálogos sobre a Fé”, da autoria de Eduardo Prado Coelho e do Cardeal D. José Policarpo, publicados em livro em 2004, o primeiro, sendo não crente, dizia a certa altura: «ouço Monteverdi ou Bach e sinto que nesta música feita à glória de Deus há algo que me toca: a ideia dum espaço sem centro nem periferia, porque o paraíso é apenas para mim o lugar onde tudo é sempre centro (…). E essa transbordância de centros infinitos, sustentada pelo canto e o inverosímil das vozes, cria a inclinação muito leve de um planalto: algo que ascende no vagar imenso mantendo sempre a mesma intensidade sem reservas. Será isso o paraíso? Será isso Deus?» (1)

Muito da produção e da leitura do mundo das artes e do pensamento pode sugerir, em maior ou menor grau, a tal «inclinação» ascendente. Tem é de se ver até onde ela pode levar. Umas vezes, não passará duma aparência de além que não sai da esfera trabalhada pelo aquém. Nada mais será, pois, do que um prolongamento deste último. Tudo o que o aquém parece intentar para fora de si acaba por retornar inatingido a ele mesmo. Outras vezes, a dita «inclinação» chegará talvez à antecâmara onde o verdadeiro transcendente poderá fazer sentir, pelo menos, algum do seu peso.

Não se pense, contudo, que a estética e o intelectual provocam, só por si, o irromper do transcendente. Seria enganoso ver aqui uma relação de simples causa e efeito. Da parte humana, pode haver curiosidade, atração ou fascínio, predisposição inconsciente ou anseio indisfarçável. São muitos os nomes da busca que importa descodificar. Mas o hipotético surgimento do transcendente – digamos expressamente, do divino – nunca será um mero resultado da obra humana. É ato que deriva da sua própria liberdade, que se manterá sempre soberana. No eventual encontro entre o ser humano e Deus, a predisposição do primeiro, mais ou menos consciente, mais ou menos trabalhada, torna-se necessária. Não se esqueça que até uma recusa antecipada pode denunciar a dita predisposição. Mas, seja como for, o irromper do divino é graça que decorre deste último.

Será interessante detetar, aclarar e avivar, no mundo das artes e do pensamento, os imensos lugares de possível conjugação frutuosa da predisposição ou busca humanas e da graça divina. É, aliás, importante que a Igreja facilite, crie e desenvolva nesse mundo ocasiões de potencial abertura ao encontro do transcendente. Torna-se seguramente necessário contribuir para aumentar a espessura da existência do ser humano de hoje. Tem que se o despertar para as grandes questões da vida: o todo, o último, o primeiro, o sentido. É preciso ajudá-lo a formulá-las a partir das expressões da atividade humana em que elas parecem fazer-se ouvir. Mas tudo isto é preparação de terreno da parte humana para a eventual perceção e o concomitante acolhimento de Deus, agindo enquanto Deus. Como afirma D. José Policarpo, importa «deixá-Lo acontecer» (2).

 

(1) D. José Policarpo e Eduardo Prado Coelho, Diálogos sobre a Fé, Lisboa, Editorial Notícias, 2004, p. 51.

(2) Ibidem, p. 40.

 

P. Domingos Terra, SJ
Professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
© SNPC | 25.03.12

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John Heseltine / Corbis




























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