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Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura distinguido pela obra "Aquilino - A escrita vital"

Imagem Aquilino Ribeiro | D.R.

Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura distinguido pela obra "Aquilino - A escrita vital"

O diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC), José Carlos Seabra Pereira, foi distinguido com o Prémio de Ensaio Jacinto Prado Coelho, atribuído pela Associação Portuguesa dos Críticos Literários, pela obra "Aquilino - A escrita vital".

O galardão, no valor pecuniário de cinco mil euros, vai ser repartido em partes iguais com Fernando Cabral Martins, igualmente premiado pelo livro "Introdução ao estudo de Fernando Pessoa".

«Autor invulgar e excelente realizador de uma poética vitalista nos géneros e subgéneros de ficção narrativa (romances, novelas e contos de índole vária), bem como em textos de hibridismo genológico, Aquilino Ribeiro [1885-1963] desde cedo foi alvo de uma fortuna crítica que importa hoje rever, a par de uma releitura da sua obra em nova perspectiva», sublinha José Carlos Seabra Pereira no texto de apresentação da obra, editada em 2014 pela Verbo.

A narrativa de Aquilino chama à cena «frades mendicantes tentados pela «premência de viver» e pelo prazer vital ao arrepio do penitente "vale de lágrimas"; no fundo, o primado da fruição jubilosa do "viver por viver" parece por vezes ir aparentar-se, no plano da sensibilidade, ao enaltecimento franciscano da vida terrena, mas não se identifica em verdade com a espiritualidade franciscana, que associa o a "santa alegria" ao anseio de salvação do Homem segundo os desígnios amorosos de Deus, através do serviço aos irmãos e através do louvor orante», acrescenta o autor.

Licenciado em Filologia Românica e doutorado pelas universidades de Coimbra e Poitiers (França), José Carlos Seabra Pereira é professor associado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Literatura Portuguesa Moderna, Estudos Camonianos, Estudos Pessoanos e Teoria Literária, Expressão e Comunicação, Civilização, Cultura e Artes estão entre os domínios da lecionação e investigação do docente, que assumiu a direção do SNPC em novembro de 2014.

"Do fim-de-século ao tempo de Orfeu", "Neorromantismo na poesia portuguesa", "António Nobre: Projeto e destino" e "O tempo republicano da literatura portuguesa" são alguns dos livros publicados de José Carlos Seabra Pereira.

O Prémio Jacinto Prado Coelho teve como jurados Fernando J.B. Martinho, Maria João Cantinho e João David Correia.

 

Aquilino, a escrita vital
José Carlos Seabra Pereira
Excerto

Na obra de ficção narrativa de Aquilino Ribeiro, são oscilantes mas insofismáveis as confrontações que, como diriam os seus protagonistas rurais, separam e unem as estremas dos campos onde brota a reivindicação imanentista do moderno humanismo e dos campos onde viça a vinculação transcendente do tradicional humanismo cristão.

Na multifacetada obra aquiliniana, o discurso do autor textual em livros à margem da ficcionalidade literária e o dos narradores heterodiegéticos em romances, novelas e contos não é discurso nem de ortodoxo louvor de todas as coisas em Deus (na sua alteridade de Deus pessoal, trinitário e Criador, na sua omnisciente e omnipotente Providência como Senhor da Vida e da História), nem de aberta heresia panteísta do louvor de Deus em todas as coisas. Em contraste com essa abstenção agnóstica, os protagonistas e os enredos de várias narrativas ficcionais figuram a exemplaridade da legenda franciscana trazendo consagração ao amor laico das coisas e dos seres, da vida em natureza e em generosa fraternidade com todos os homens; mas, heterodoxamente, mesmo essa refiguração ficcional da legenda franciscanista tem de coabitar na narrativa aquiliniana com irónica desautorização da bondade do mundo e da natureza humana, bem como da finalista evolução ascensional do mundo e da teleologia salvífica da Humanidade. Tanto assim é que até alguns heróis da demanda espiritual sob signo franciscano podem ser conduzidos a irónica questionação da crença na Providência divina e no poder redentor do Cristo (por exemplo, perante as guerras entre cristãos e mouros no Ocidente peninsular na novela "O Servo de Deus": «Não era justo, nem injusto, mas um irremissível fadário. Este revezamento do domínio entre moiro e nazareno, esta sucessão cíclica de calamidades apresentava-se a Bigorril como problema que não tinha solução na mesa do seu Deus. Porquê, porquê?»).

Oscilando entre o epicurismo anatoliano e o valor refontalizante da espiritualidade franciscana – e da sua conexa moral, em que, segundo Aquilino inculca através de Iluminata, a própria caridade «devia exercer-se nas pessoas tais como são e não como deviam ser» –, a narrativa aquiliniana carrega por vezes na sátira da atmosfera mental em que tantos prodigalizam «descompassadíssimos milagres», da mania interessada da santidade e da psicose ascética; outras vezes, cinge-se a uma rectificação da «pureza» arvorada «em nome dum falso sentimento cristão» e predispõe os seus protagonistas para viverem «sem quebra de dignidade» e segundo «a piedade», à luz do espírito originário do Cristianismo. 

O naturismo aquiliniano chega a aparentar-se, mas não a fundir-se plenamente, com a solicitude e o enlevo franciscanos perante os seres e coisas do mundo natural, dirigido ao louvor de Deus pela bondade e beleza da Criação – composta «em hora desenfadada pela mão autêntica, […], caprichosamente bucólica, do Criador», como crê Banaboião.

Em algumas obras ambíguas de Aquilino – nas considerações dos seus narradores e nas falas ou pensamentos das suas personagens –, tanto se pode desvirtuar a piedade cristocêntrica dos franciscanos em vislumbres de naturismo imanentista (v. g. «Nas ruas repartiam com os pobres o pão do bornal, depois de o beijar em acção de graças à madre-natureza»), quanto o louvor do entorno natural pode ganhar um tom de veneração religiosa ou de recolhimento espiritual («[…] beijavam a terra. Em sinal, primeiro, de humildade; depois, porque a terra, que os havia de comer, fora o palco em que Deus vivo viera representar o drama sublime do Calvário», diz-se por exemplo de Beltrasanas e seu rebanho de fiéis em "S. Banaboião, Anacoreta e Mártir"). Mas, como experimentam primeiro como tentação (i)moral e depois como reconciliação ontológica na ordem natural do vivente os seus apóstolos andantes da santidade (Banaboião, Bigorril, etc.) , em Aquilino nunca se desterra irreversivelmente a volúpia humana – ainda que seja «a castíssima volúpia dum santo, grato a Deus nas criaturas».

O alto princípio franciscano da periódica rectificação do humano por influxo da Natureza recebe em Aquilino uma predominante inflexão libidinal, irónica relativamente às modulações lusitanistas e saudosistas da época: com sua configuração feminina, descendente dos antiquíssimos cultos matriarcais, a Natureza exerce o seu ascendente no sentido da legitimação do amor quer como «sonho estival vivido no seio da natureza, mãe jucunda e generosa» (amores de António Valadares com a adolescente boieira Ermelinda em "Maria Benigna"), quer como «mistério gozoso» («A bucólica do lugar, tão silencioso e ermo, impregnado dum cheiro vago de mofo e de abandono, penetrou como bálsamo na alma agitada de Bigorril.») tão integrado pela novela "O Servo de Deus" no «plano primordial das coisas» quanto «na obediência sem maldade à ordem de Deus».

Muitas vezes as narrativas ficcionais de Aquilino desfecham em mensagem de mundividência, com reconciliação da subjectividade humana (dos protagonistas) com o mundo e com a vida através da primazia de eros e do "carpe diem", embora a diversa índole das personalidades em causa e as diferentes experiências existenciais em pauta subsirvam a proverbial intuito da antropologia literária aquiliniana representar o Homem como ser de contrapostas solicitações físicas e anímicas.

O frémito epocal da legitimidade e bondade de amar «à lei da natureza» tem na erótica vitalista e na arte amatória de integração franciscana um fundo comum de repúdio dos farisaísmos puritanos e dos calculismos traiçoeiros, prepotentes, cínicos, com que tanto a tradição libertina como a tradição marialva haviam inquinado as metamorfoses da sedução "donjuanesca". No entanto, na literatura de emancipação vitalista, a nostalgia de uma suposta consumação pagã da libido «sem maldade» (projectada aquilinianamente na «boa deusa pagã» Acidália) propende para uma retoma da erótica hedonista oriunda do Renascimento; por conseguinte, cultiva os tópicos, também tão aquilinianos, da eficiência predatória do desejo e sua inteligência intuitiva ou do momento «glorioso» na experiência única de cada vivente; e, no mesmo sentido, explora a conotação da genuína libido pelo imaginário de faunos e ninfas.

Tão assídua em Aquilino, sobretudo quando o autor paratextualmente (e ironicamente) se penitencia, como na dedicatória de "S. Banaboião, Anacoreta e Mártir", de que «Um sátiro vinha às vezes para o pé de mim tocar flauta e distraía-me do enlevo celestial com que carpintejava figuras a que cabe de direito serem graves e hieráticas», essa convocação, «ao som da flauta de Pã», de algum génio «lúbrico e astuto como deus pagão», mas afinal «regenerador da humanidade combalida» porque capaz de «remir as fontes [libidinais] da vida», desdobra-se nos recalcamentos católicos de Eva e, sobretudo, de Asmodeu, «o formoso e atlético príncipe da luxúria» e, como tal, (anti-)herói vicário da gesta erótica de "Andam Faunos pelos Bosques", «o Diabo lascivo que estava à ilharga» do santo em "Humildade Gloriosa", «o belo arcanjo da concupiscência» em "S. Banaboião, Anacoreta e Mártir", porventura acenando veladamente no «lenço vermelho» de Jorgina em "Quando os Lobos Uivam"…

Na literatura reafeiçoada pela inspiração neo-franciscana, subsiste a superioridade do ideal de castidade e a atracção ou o peso da ascese cristã - o «bordão» da prece e o jejum, o retiro no silêncio absoluto do Claustro da Soledade e a contemplação plangente do Cristo crucificado, com que mesmo na obra aquiliniana Santo António se batia contra as «carícias abomináveis» que, sobretudo nessa «espécie de zona elementar» que para os ascetas é a noite, surdiam «do fundo da natureza humana» (… lá onde vinham «ninfas nuas, faunos e sátiros obscenos dançar em volta da pobre alma sem defesa suas rondas lascivas»). Por isso, na obra de Aquilino Ribeiro, mesmo nas experiências aparentemente mais bem sucedidas de ascese «a carne libidinosa e, sobretudo, a memória e a imaginação da carne» exigem recorrente combate…

A primazia inquestionada da «vida» como fenómeno imotivado e como existência ateleológica (fruição jubilosa do «viver por viver», enquanto culto da euforia vital de pendor hedonista) não sofre contestação na corrente vitalista a que a ficção aquiliniana dá a melhor realização estético-literária. Na narrativa de Aquilino, através da tentação dos espirituais mendicantes pela «premência de viver» como única realidade para a qual nascemos e pelo prazer vital num mundo contrapolar do penitente «vale de lágrimas» («A natureza convertera-se num açafate de noiva. Fora sempre assim? Ele [Santo António] o cria. A bondade de Deus tinha àquela hora no mundo o seu retrato risonho. Ah, era bom viver, era bom viver!»), esse primado da «vida» chega a aparentar-se, mas não a confundir-se, com o amor e a enaltecimento franciscanos da vida terrena - disposição de ânimo não menos jubilosa, mas motivada e teleológica, enquanto possibilidade de salvação do Homem segundo os desígnios amorosos de Deus, através do serviço aos irmãos e do louvor orante.

Nisso reside a consoladora alegria semeada pelos joculatores do Senhor, evocados irisadamente por Aquilino…até no que respeita a essa «santa alegria».

Logo, o movimento comum de refontalização antropológica pelo reemergir nas energias, belezas e lições do mundo natural, ganha tonalidades diferentes nas propostas laicistas de regeneração e no propósito franciscano de «ajustamento do espírito» pela inspiração divina através daqueles elementos edificantes da Natureza – por seu turno compensados depois que da boca de cada jogral de Deus «apenas brotavam bem-hajas e bênçãos para as criaturas».

Também o resgate dos explorados e desprezados tem, na corrente vitalista e emancipalista do Neo-Romantismo com que Aquilino se aparenta, um substrato de reacção contra a soberba (individual e social) que é comum ao neo-franciscanismo epocal; e a sua apologia literária da Justiça social tem um fundo de combate à cobiça e de apelo à partilha «natural» dos bens «naturais» (v. g. em Aquilino os baldios ou a água da Rochambana em "Quando os Lobos Uivam") que se afigura comum ao mesmo neo-franciscanismo. Mas naquela literatura emancipalista do Neo-Romantismo vitalista assumem conotações de culto revolucionário da Liberdade e da Igualdade no ressentimento de classe e desencadeiam orientações sediciosas; por contraste, em muitos passos da ficção narrativa aquiliniana ganham conotações piedosas de liberdade e fraternidade dos filhos de Deus, de assumpção pessoal da «humildade em Cristo» e da «santa pobreza» como virtudes morais e como meios inexcedíveis de dignificação e felicidade humanas, e inspiram orientações caridosas para com os humildes na pobreza.

 

Edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 22.01.2016

 

 

 
Imagem Aquilino Ribeiro | D.R.
Na obra de ficção narrativa de Aquilino Ribeiro, são oscilantes mas insofismáveis as confrontações que, como diriam os seus protagonistas rurais, separam e unem as estremas dos campos onde brota a reivindicação imanentista do moderno humanismo e dos campos onde viça a vinculação transcendente do tradicional humanismo cristão
O naturismo aquiliniano chega a aparentar-se, mas não a fundir-se plenamente, com a solicitude e o enlevo franciscanos perante os seres e coisas do mundo natural, dirigido ao louvor de Deus pela bondade e beleza da Criação – composta «em hora desenfadada pela mão autêntica, […], caprichosamente bucólica, do Criador»
O frémito epocal da legitimidade e bondade de amar «à lei da natureza» tem na erótica vitalista e na arte amatória de integração franciscana um fundo comum de repúdio dos farisaísmos puritanos e dos calculismos traiçoeiros, prepotentes, cínicos, com que tanto a tradição libertina como a tradição marialva haviam inquinado as metamorfoses da sedução "donjuanesca"
Na literatura reafeiçoada pela inspiração neo-franciscana, subsiste a superioridade do ideal de castidade e a atracção ou o peso da ascese cristã - o «bordão» da prece e o jejum, o retiro no silêncio absoluto do Claustro da Soledade e a contemplação plangente do Cristo crucificado
Também o resgate dos explorados e desprezados tem, na corrente vitalista e emancipalista do Neo-Romantismo com que Aquilino se aparenta, um substrato de reacção contra a soberba (individual e social) que é comum ao neo-franciscanismo epocal
Em muitos passos da ficção narrativa aquiliniana ganham conotações piedosas de liberdade e fraternidade dos filhos de Deus, de assumpção pessoal da «humildade em Cristo» e da «santa pobreza» como virtudes morais e como meios inexcedíveis de dignificação e felicidade humanas, e inspiram orientações caridosas para com os humildes na pobreza
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