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“Diário de um pároco de aldeia”: Aos olhos de Bresson, tudo é graça

O argumentista e realizador Paul Schrader vincou-o com clareza definitiva: no cinema, mais do que em qualquer outro domínio, não é o argumento nem muito menos a trama que garantem a qualidade espiritual (ou, melhor ainda, transcendente) de uma obra, mas o estilo, ou seja, essa particular inclinação do olhar que permite ao cineasta deixar intuir a existência de um outro plano, mais misterioso e vital em relação à sucessão dos acontecimentos.

Entre os modelos indicados por Schrader figura o francês Robert Bresson, realizador capaz de um rigor quase quaresmal. A sua produção, de resto, é inteiramente atravessada pela interrogação sobre Deus e sobre a fé, sobre as misérias do homem e sobre a sua possibilidade de encontrar a salvação. São os temas que se entretecem numa das suas obras-primas, “Diário de um pároco de aldeia”, realizado em 1951 com base no homónimo e inesquecível romance de Georges Bernanos.

Com o livro na mão (em Portugal está publicado pela Paulinas Editora) não se pode deixar de notar como o argumento, assinado pelo próprio Bresson, respeita até ao detalhe o antecedente literário. E todavia, apesar desta fidelidade, o “Diário” cinematográfico é para todos os efeitos um filme de Bresson, uma narrativa original e ainda hoje extraordinariamente eficaz na sua simplicidade de estrutura. Para isso muito contribui a clareza de um preto e branco que recorda a essencialidade das incisões de Dürer, transferidas porém para o contexto de uma modernidade contraditória e dolorida.



Só quando é pronunciado o diagnóstico fatal é que o espetador se dá conta de que o que assistiu é, desde o primeiro instante, uma via-sacra do nosso tempo, articulada num quotidiano feito de deslocações em bicicleta, telefonemas a atender, comboios para entrar ou sair



A ação, como é sabido, concentra-se na pequena paróquia de Ambricourt, no coração de uma província francesa onde também a religião parece prisioneira de hábitos, hipocrisias e conveniências. O jovem pároco, interpretado por um ascético Claude Laydu, não gosta de polémicas e não alimenta segundas intenções, mas é precisamente a sua fé desarmada que suscita a desconfiança e até a hostilidade dos paroquianos. Os bem intencionados conselhos do velho cura de Torcy, paternamente interpretado por Armand Guibert, não conseguem mudar uma inflexibilidade sustentada por uma humildade exasperada e, ao mesmo tempo, por um desejo absoluto de identificação com Cristo.

Os ataques mais temíveis chegam do castelo que vive o conde com a sua família. Tanto o homem (o ator Jean Rivière) é astuto e autoritário, com a mulher (Marie-Monique Arkell) é prisioneira do arrependimento pela morte do filho, ao qual sobrevive uma irmã, Chantal (Nicole Ladmiral), que com o seu revoltado desespero parece repetir e amplificar as inquietações do pároco.

Bresson é habilíssimo em fazer realçar esta rede de relações mediante enquadramentos de geométrica exatidão, das quais também o rosto do protagonista ressalta num cruzamento de linhas não muito distante da abstração cubista. Um corpo atormentado que não é apenas a consequência de uma raiva interior, mas do segredo mais insondável, do qual nem sequer o jovem sacerdote tem consciência.

Chegado à paróquia para cuidar das doenças da alma, o cura está destinado a aperceber-se que ele próprio é devorado por um mal incurável. Só quando é pronunciado o diagnóstico fatal é que o espetador se dá conta de que o que assistiu é, desde o primeiro instante, uma via-sacra do nosso tempo, articulada num quotidiano feito de deslocações em bicicleta, telefonemas a atender, comboios para entrar ou sair. Não falta o cireneu, um companheiro de seminário que abandonou o sacerdócio. E há também um evangelista, o insuspeito pároco de Torcy, ao qual é dado recolher as últimas palavras do pequeno padre, esse famoso «tudo é graça» no qual, por intermédio de Bresson, o ato de fé se confunde com a declaração de poética. Ou de estilo, se se preferir.



 

Alessandro Zaccuri
In Avvenire
Trad.: SNPC
Imagem: D.R.
Publicado em 21.02.2018

 

 
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