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Pré-publicação: “Diante de ti os meus caminhos”

«Os meus leitores e ouvintes têm o direito de conhecer não só o contexto exterior, mas também o contexto interior da minha criação, não só o contexto da época e do meio social e cultural, mas também o contexto da minha história de vida, do meu drama da procura e do amadurecimento espiritual. Se quiserem, encontrarão aqui a chave para uma compreensão mais profunda daquilo que lhes tento comunicar nos meus livros e nas minhas palestras.»

É com esta explicação que o padre e teólogo checo Tomáš Halík justifica a publicação do livro “Diante de ti os meus caminhos”, que a Paulinas Editora disponibiliza nas livrarias a partir de 15 de outubro.

«Quem sou, na verdade? “A questão que me tornei para mim mesmo”, diz Santo Agostinho. Sim, o nosso eu, tal como o nosso Deus, deve ser para nós objeto de perguntas, dúvidas e buscas constantes. Também procuramos o nosso Eu e o nosso Deus através da narração da nossa história e de não escondermos a nossa emoção ao narrá-la. Apenas o coração que não deixou de se emocionar com o desassossego santo pode, no final, descansar no mar da paz divina», conclui o sacerdote que se notabilizou pela defesa do diálogo entre crentes e não crentes, e que estará em Portugal no mês de novembro.

«Fé», «primavera», «sacerdócio», «clandestinidade», «despertar», «catarse», «transição», «fundação», «noite», «política», «mundo» e «silêncio eterno» são os caminhos propostos pelo autor, que recorda a sua primeira passagem pelo país, em 2016, viagem «bastante curta, mas muito intensa», em que menciona o «encanto de da velha Lisboa», que lhe lembra Praga, que, «no entanto, não tem o cheiro a mar nem o fascínio do fado». Apresentamos um excerto da obra.

 

O caminho para o silêncio eterno
Tomáš Halík
In “Diante de ti os meus caminhos”

Nunca, nem mesmo no eremitério do Reno ou no deserto egípcio, senti uma solidão tão abismal. Nunca vi um silêncio tão estranho como nesse dia de janeiro. Estou sozinho numa tenda na margem de um glaciar na Antártida, na costa da Ilha do Rei George, exatamente no lugar onde o Oceano Atlântico se mistura com o Pacifico.

Durante a noite, toda uma tempestade de vento sacudia a lona da minha tenda e, por isso, não dormi muito. Agora é uma manhã de domingo estranhamente calma. Caminho ao longo do glaciar até à falésia, de onde se vê a enorme superfície do oceano coberta por bancos de gelo. A direita, erguem-se rochedos dramaticamente acidentados contra os quais se quebram as ondas e, diretamente à minha frente, levantam-se do oceano enormes icebergs com uma coloração única de delicados tons de azul. O solo está lamacento por todo lado, sendo difícil andar nele. Ontem, depois de uma caminhada de varias horas pela costa, com os meus pés a enterrarem-se na lama e as minhas mãos a afugentar os pássaros que me atacavam persistente e violentamente a cara, como no famoso filme de terror, sentia-me esgotado. Alem disso, com a chegada da noite, levantou-se um vendaval, de maneira que no final da caminhada tive de ir contra o vento forte quase de gatas e, depois, demorei muito mais tempo do que esperava a desamarrar e amarrar a tenda. Comi pouco para economizar as provisões.



Quando vi Jaroslav a correr em direção ao pequeno barco para remar no meio das ondas embravecidas, gritei para ele: «Enlouqueceste? Vai-te custar a vida!» «Então vem comigo!», gritou ele de volta. O que se seguiu foi como um sonho violento



Quando, no dia anterior, Jaroslav Pavliček, explorador polar checo com quem cheguei a este mundo estranho há quatro dias, num avião militar que partiu do Chile, se despediu de mim para ir de caiaque à Ilha Nelson, salientou que, na verdade, não sabia quando é que o tempo lhe permitiria voltar para me ir buscar. Se não voltasse dentro de uma semana, significaria que algo lhe aconteceu, e eu teria de ir até à base chinesa, onde tomámos chá no primeiro dia, ao carregar as provisões. não lhe disse, na altura do primeiro transporte, por causa da forte dor nas costas e em todos os músculos, que não estava ciente da direção do caminho.

A maioria dos meus amigos não suspeitava nada sobre o lugar onde me encontrava. Daqueles que sabiam, a maioria abanou a cabeça ou bateu com o dedo na testa, como se eu estivesse louco. Há um mês, eu próprio estava a terminar o trimestre em Oxford sem fazer a mínima ideia de onde me encontraria poucas semanas depois. É certo que, há um ano, concordei em participar «um dia» numa expedição à Antártida, cujo objetivo seria investigar as condições da sobrevivência humana em situações de carga mental e física extremas.

Durante o ano, eu e Scarlett [colaboradora] treinámo-nos de diversas formas, física e mentalmente, para esta viagem. No verão, participámos, sob a orientação de Jaroslav, no exigente «treino pre-antártico» nos Alpes austríacos e em Itália. Subimos ao topo de Dachstein, acampámos na parede de pedra a uma altura de mais de dois mil e quinhentos metros, atravessámos um glaciar, singramos por um rio selvagem e, em Itália, aprendemos a controlar um navio no mar. Mas ainda estávamos longe de avistar a realização do nosso plano. Ao regressar de Oxford, esperava-me uma mensagem: está tudo a postos, partimos dentro de três semanas. Em Praga, tinha tratado da minha substituição na igreja e na universidade para todo o semestre de inverno, por causa da minha ida a Oxford. Precisamente a diferença entre o final do trimestre em Oxford e o final do semestre em Praga criou um raro período de algumas semanas livres que dificilmente encontraria noutra altura. Não havia desculpa.



Assim que nos secámos, celebrei a minha primeira Missa antártica, nas condições de campo da estacão checa, aparentemente a única que se celebrou nesse dia naquele continente, maior que a Europa



Os primeiros dias de permanência neste continente, o mais maravilhoso de todos, o último que ainda não tinha visitado, trouxeram duas complicações. Não encontrámos o barco que Jaroslav preparara – na sua última visita –, na «praia das focas», para atravessarmos para a base checa na Ilha Nelson. Foi por isso que Jaroslav teve de navegar sozinho num pequeno caiaque, deixando-me so, por tempo indeterminado, numa tenda na costa da Ilha do Rei George. Voltou dois dias depois com um catamarã e, finalmente, atravessámos para a nossa ilha, ancorámos o barco e sentámo-nos para almoçar. No entanto, no final do almoço, esperava-nos um choque. A tempestade de vento levantou-se novamente e foi tão forte que levou o catamarã, apesar de estar carregado com muitas pedras gigantes. Vimos o barco, a nossa única ligação consistente com o continente e a maior riqueza da estacão antártica checa, a desaparecer ao longe. As ondas intensas em breve decidiriam, como brincamos mais tarde, se seguiria rumo à costa australiana ou à Cidade do Cabo africana.

Quando vi Jaroslav a correr em direção ao pequeno barco para remar no meio das ondas embravecidas, gritei para ele: «Enlouqueceste? Vai-te custar a vida!» «Então vem comigo!», gritou ele de volta. O que se seguiu foi como um sonho violento.

Contudo, em cerca de duas horas de intensas remadas numa tempestade e ondas altas, conseguimos alcançar o catamarã, dar-lhe a volta, subir para dentro dele, ligar o motor e, contra o vento, no meio das ondas geladas que nos encharcaram completamente, levar as duas embarcações de volta para a costa. Jaroslav disse-me que, nos seus catorze anos na Antártida, só tinha passado duas vezes por uma situação tão perigosa. Admitiu que, se não tivéssemos conseguido alcançar ou ligar o catamarã, com aquele temporal não teríamos conseguido voltar à costa no nosso pequeno barco.



Nunca antes, nem mesmo no deserto, aprendi tão claramente a perceber os diferentes tons de silêncio», as diferentes profundidades e cores do silêncio. Chegou a hora em que o homem, e creio que cada homem, pensa em Deus



Os momentos de perigo que passámos juntos acrescentaram à nossa amizade uma nova dimensão. Aos olhos de Jaroslav, de repente, saltei da minha posição de explorador polar principiante e passei por cima de vários graus da hierarquia antártica: «Divido as pessoas em dois grupos: ao da maioria, pertencem aqueles que nessas circunstâncias nunca saltariam para o mar; e depois há o outro, e nesse estas tu.» Também para mim, desde então, a relação com este continente mudou completamente. Passei pelo «batismo» da natureza selvagem e comecei a movimentar-me aqui com uma segurança muito maior, porque sentia que não me podia acontecer situação pior.

Assim que nos secámos, celebrei a minha primeira Missa antártica, nas condições de campo da estacão checa, aparentemente a única que se celebrou nesse dia naquele continente, maior que a Europa. Coloquei nela uma súplica por todos os homens que pagaram com a sua vida o desejo de explorar as suas belezas e segredos. Dali a uma semana deveriam juntar-se a esta expedição de dois homens Scarlett e Dagmar, cunhada de Vaclav Havel, que esperam incansavelmente pela oportunidade de um voo em Punta Arenas, na costa chilena, juntando, entretanto, mais provisões de Inverno para a tripulação e aproveitando o tempo restante para conhecer a Terra do Fogo e as belezas da Patagónia.

À noite, depois de um primeiro dia muito aventuroso na Ilha Nelson, retirei-me para o meu eremitério antártico≫, uma casa de madeira do tamanho de um galpão, cujo único equipamento era uma cama sob a janela. Da janela, tinha, no entanto, uma vista magnífica para o oceano. Nesta época do verão antártico, o sol praticamente não se põe atrás do horizonte, só à meia-noite é que o céu fica significativamente mais crepuscular, apenas para, em cerca de duas ou três horas, voltar a ficar mais brilhante de novo. Embora estivesse cansado, não consegui dormir. Olhei pela janela e refleti.



Foi uma experiência espiritual peculiar que me trouxe mais do que a confirmação de que, quando uma pessoa se vê verdadeiramente aflita, rapidamente se lembra de Deus. Aí venerá-lo-á também aquele que toda a sua vida se gabou de ser ateu



A beleza profunda e severa da terra do gelo parecia estar igual, como há vinte milhões de anos atrás. A natureza prevaleceu sobre a história. Neste único continente que não foi afetado pela guerra, não há conhecimento de alguém ter alguma vez morto intencionalmente outra pessoa. A toda a volta reinava aquele silêncio que acontece apenas depois do acalmar de uma tempestade de vento.

Nunca antes, nem mesmo no deserto, aprendi tão claramente a perceber os diferentes «tons de silêncio», as diferentes profundidades e cores do silêncio. Chegou a hora em que o homem, e creio que cada homem, pensa em Deus.

***

Um antigo provérbio latino diz que o mar ensina a orar. Sim, naquelas horas, perante a garganta de uma ameaça extrema, eu realmente rezei e, com efeito, de uma forma como nunca antes havia rezado. Foi uma experiência espiritual peculiar que me trouxe mais do que a confirmação de que, quando uma pessoa se vê verdadeiramente aflita, rapidamente se lembra de Deus. Aí venerá-lo-á também aquele que toda a sua vida se gabou de ser ateu. Ocorre-nos se o ateísmo não será apenas uma ilusão de luxo a que se podem permitir somente aqueles que não conheceram a necessidade real ou que eliminaram da sua consciência a experiência pela qual passaram.

Quando tentei lembrar-me, com a máxima precisão, de como orei naquele momento, percebi que não era apenas uma súplica devota pela nossa salvação. No mar, houve mesmo momentos em que quase desejei que o remar exaustivo e a tensão toda finalmente terminassem, para que pudesse ter paz, mesmo no abraço frio da água à minha volta e debaixo de mim. Esses momentos estranhos, cravados na minha memória, foram substituídos por uma sensação de que isso não era e não podia ser o fim, e que a minha história teria uma continuação e não podia desistir dela.

Nesse momento, aconteceu algo difícil de descrever. Experimentei um grande alívio de que a minha vida não esta sob a minha própria direção e que a minha força de sobreviver e resistir vem de uma fonte muito mais profunda do que o enredo do meu eu, os meus músculos, os meus pensamentos e os meus nervos. E entreguei-me completamente a essa fonte, «liguei-me a Deus», entreguei-lhe o leme e senti um grande afluxo de força e uma grande libertação. Houve nisso uma certa «resignação», mas nada de passividade. Em vez disso, senti uma enorme intensificação da minha atividade e a sua liberação de qualquer medo pela minha pessoa que me travasse e enervasse.



Talvez muitas vezes antes tenha ouvido ou lido esse devoto conselho de autoentrega, e talvez, num momento de disposição devota, o tenha dito nas orações: «Deus, confio-te a minha vida.» Mas só no momento limite, isso sai do homem como uma chama, como o inspirar profundo daquele que se está a afogar ou a sufocar. Sem palavras ou grandes pensamentos, como um ato imediato e puro do espírito



Quando mais tarde pensei naqueles momentos na água embravecida, lembrei-me da afirmação de são Paulo: «Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» [Gálatas 2,20], uma frase que sempre esteve perto de mim, mas somente desde aquela «experiência oceânica» passou a ser a minha experiência pessoal. Foi o conselho de Santo Inácio de Loiola: «Trabalha, como se tudo dependesse de ti e nada de Deus. Acredita, como se tudo dependesse de Deus e nada de ti.»

Há momentos extremos em que o homem choca com os limites das suas possibilidades e, se não quiser resignar-se, «liga-se a Deus», entregando-se-lhe por completo. Talvez muitas vezes antes tenha ouvido ou lido esse devoto conselho de autoentrega, e talvez, num momento de disposição devota, o tenha dito nas orações: «Deus, confio-te a minha vida.» Mas só no momento limite, isso sai do homem como uma chama, como o inspirar profundo daquele que se está a afogar ou a sufocar. Sem palavras ou grandes pensamentos, como um ato imediato e puro do espírito, no qual o homem está totalmente inteiro, com corpo e alma, passado, presente e futuro. Entendi o que se diz sobre as pessoas em situações extremas que experimentam, como num sonho – e provavelmente também ao morrer –, uma espécie de fusão de planos de tempo, em que presenciam as suas vidas passadas e também o seu futuro.

E saliento de novo que nesse momento o homem reconhece que essa «entrega» não e um álibi para interromper a sua própria atividade. Não se pode parar de remar no meio de um oceano tempestuoso, se puder usar a minha experiência como metáfora. Se ele realmente ultrapassou um certo limite e «se entregou» a si próprio, então, imediatamente após essa autoentrega, a sua atividade recebe uma espécie de outra natureza e outra qualidade, como se extraísse força de níveis muito mais subjacentes. No inicio deste livro, mencionei as palavras de Eckhart sobre a unidade de Deus e do homem, de que por detrás do nosso «ego» há uma coisa diferente e mais profunda, o «homem interior», o «eu profundo», “das Selbst”, e por detrás do «deus do teísmo», do deus da nossa imaginação humana, há o «Deus interior», o «Deus por detrás de deus». Eu já tinha pensado nisso durante muito tempo, mas, naquela vez, vivi-o.

Se alguma vez senti profundamente esse encontro, a interpenetração e a unidade interior de «liberdade e graça», compromisso humano e ajuda de Deus, atividade e entrega, luta e confiança, trabalho e oração, então foi nas ondas, às margens da Ilha antártica de Nelson.



Imagem Ermida na Ilha de Nelson | In "Diante de Ti, os meus caminhos" | D.R

Imagem Forte de São Julião da Barra, Oeiras, 30.4.2016 | In "Diante de Ti, os meus caminhos" | D.R.

 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 10.10.2018

 

Título: Diante de Ti, os meus caminhos
Autor: Tomáš Halík
Editora: Paulinas
Páginas: 384
Preço: 23,00 €
ISBN: 978-989-673-662-0

 

 
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