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Desigualdade, exclusão, opção preferencial: Dia Mundial dos Pobres em foco na “Brotéria”

Desigualdade, exclusão, opção preferencial: Dia Mundial dos Pobres em foco na “Brotéria”

Imagem franz12/Bigstock.com

Desigualdade, exclusão, pobreza, governação integrada, alimentação, desenvolvimento, opção preferencial, mudanças climáticas e migrações são alguns dos temas relacionados com o Dia Mundial dos Pobres, instituído pelo papa Francisco, tratados pela edição mais recente da revista “Brotéria”.

 

Redistribuição é solidariedade devida

Manuela Silva sublinha que «não é demais afirmar que, nas atuais circunstâncias» é possível «erradicar a pobreza» e por isso subsiste «o dever imperioso de o conseguir», pelo que é preciso «colocar o objetivo da erradicação da pobreza entre as prioridades da ação governativa, aos vários níveis, e manter esse objetivo presente na agenda política, de modo a dispor, em permanência, de um diagnóstico atualizado da incidência e da severidade da pobreza, adequado para a monitorização, em tempo útil, das políticas que nelas têm ou poderão vir a ter impacto».

«Quando se defendem políticas de redistribuição de rendimento pela via de impostos progressivos (receitas públicas) e transferências sociais diretas ou em serviços públicos de saúde, educação, habitação e outros não se está apenas a cumprir com a solidariedade devida entre os membros de uma mesma comunidade nacional; está-se também a promover o desenvolvimento do país», frisa a professora catedrática jubilada.

 

«Quem são os pobres?»

Isabel Jonet defende que «é totalmente legítimo querer ter melhor qualidade de vida para si e para os seus, mas a facilidade com que se espera que essa decorra sobretudo da posse de mais bens de consumo, que exigem recursos crescentes que poderiam ser canalizados para a satisfação de necessidades reais, resulta numa inversão de valores difícil de contrariar. E exige um esforço crescente para a satisfação de necessidades que afinal não são realmente básicas, mas foram induzidas por uma sociedade onde o consumo impera, desumanizando, porque são os bens, ou a sua posse, que passaram a estar no cerne de todas as decisões».

A presidente do Banco Alimentar Contra a Fome considera que «não é raro» encontrar «famílias esgotadas, sem tempo para um convívio que as fortaleceria e enriqueceria a sociedade porque o padrão de vida que criaram – e do qual não prescindem – exige duplos empregos, biscates para além do trabalho regular, horas extraordinárias. E com esta opção, limitando até o número de empregos que poderiam garantir a outras famílias um sustento sem dependências assistencialistas».

 

Colaborar é essencial

Rui Marques, doutorado em Sociologia Económica e das Organizações, destaca que «as tragédias mais agudas, com expressão nas vítimas dos incêndios ou dos atentados, ou o sofrimento mais endémico, com as vítimas da pobreza e da exclusão, constituem um desafio enorme», pelo que a acomodção «à sua inevitabilidade» ou «impotência» é «inaceitável».

«Simplificarmos e aceitar como boas “pseudo-soluções” que verdadeiramente nada resolvem é pouco inteligente. Importa, por isso, ter a coragem de enfrentar estes problemas complexos sem temer o desconforto e a incerteza. Sem nos pouparmos a esforços. Abrindo espaço para a inovação. Mas, acima de tudo, compreendendo – e agindo em conformidade – que não temos outra alternativa senão colaborar. Por mais difícil que seja, precisamos de querer e a aprender a colaborar para alcançar uma governação integrada, capaz de fazer mais e melhor», conclui.

 

Pobreza e exclusão social em Portugal

Carlos Farinha Rodrigues recorre aos dados mais recentes publicados pelo Instituto Nacional de Estatística para fazer uma «leitura cruzada de diversos indicadores de pobreza, privação material e exclusão social, de forma a captar diferentes dimensões da precariedade social».

«Tomando como referência a população em pobreza monetária em 2015 é possível identificar os principais grupos da população que possui recursos abaixo da linha de pobreza: 54,4% da população pobre era do género feminino; 20,6% eram crianças com menos de 18 anos; 19,9% eram idosos; 56,6% dos indivíduos em situação de pobreza viviam em agregados familiares com crianças; 23,0% eram desempregados com mais de 18 anos; 23,2% eram reformados; 65,4% viviam em famílias cujo indivíduo de referência possuía um baixo nível de instrução, não tendo obtido mais do que o 2.º ciclo do ensino obrigatório; 40,5% viviam em áreas densamente povoadas», aponta o docente do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG).

O especialista salienta que este diagnóstico «aponta inequivocamente para a necessidade de um papel mais atuante das políticas públicas no combate às situações de maior vulnerabilidade social. A definição e implementação de medidas particularmente dirigidas às crianças e aos jovens em situação de pobreza, e às suas famílias, deverão constituir, nesse contexto, um pilar estruturante de novas políticas de combate à pobreza e à exclusão social», a par de «alterações profundas nas prioridades que presidem à noção de desenvolvimento do país» e o «desenvolvimento de políticas que promovam o emprego e o crescimento económico, conjuntamente com um sistema de proteção social mais eficiente».

 

Liderança servidora

Joana Morais e Castro e Filipe Pinto escrevem sobre a «liderança para o desenvolvimento e combate à exclusão», notando que «com frequência, a “Liderança” é associada ao conceito de elite e o “serviço” ao conceito de obediência, pelo que “liderança servidora” surge num aparente paradoxo com os ingredientes essenciais para o trabalho em prol do bem comum, para a aprendizagem da liderança para o desenvolvimento e contra a exclusão social».

«A possibilidade e o alcance da liderança servidora têm sido vivenciadas pela Academia Ubuntu, um projeto da organização sem fins lucrativos Instituto Padre António Vieira, que propõe um método formativo para a capacitação de jovens líderes servidores provenientes de contextos de exclusão social ou que, não sendo, queiram atuar neles. Tem como base central a filosofia ubuntu e o estudo de grandes líderes servidores como Nelson Mandela, Martin Luther King, Madre Teresa de Calcutá, Desmond Tutu, Mahatma Gandhi, etc.», explicam os autores.

 

Alimentação e bem comum

Miguel Gonçalves Ferreira, SJ vinca a necessidade de «evitar a despersonalização da questão alimentar»: «Aquele que passa fome é um irmão meu». «Essa deve ser a grande motivação para a mudança na qual têm um papel relevante tradições espirituais como o cristianismo. O acolhimento e o interesse despertados pelas palavras do Papa Francisco é o reconhecimento da sua capacidade para interpretar e interpelar até um ambiente cultural secularizado. Para os cristãos, a alimentação nunca é uma questão abstrata. Não podemos esquecer que é também para o faminto que se pede, no Pai Nosso, o pão de cada dia. Se o Senhor Jesus adverte que “nem só de pão vive o homem”, também nos convida a tomar o pão, abençoá-lo, parti-lo e entregá-lo».

«Para que o pão material chegue a todos, uns terão que crescer sustentavelmente, outros terão que decrescer sustentavelmente para que todos possamos sobreviver. O princípio do bem comum desafia-nos a cultivar a sobriedade e a solidariedade, abrindo na nossa mesa um lugar para o outro, um lugar para todos! Tornamo-nos verdadeiramente humanos ao preparar como irmãos um novo tempo no qual “os pobres comerão e serão saciados”», sublinha.

 

Alterações climáticas

Por seu lado, Fernando Ribeiro, SJ acentua que «a vulnerabilidade dos mais pobres face aos problemas ambientais é reconhecida por vários organismos internacionais e vem expressa igualmente em vários estudos», sendo «reconhecido que os impactos ambientais são bastante mais notórios nos países em desenvolvimento e, sobretudo, nas populações mais pobres e mais dependentes do sector primário como a agricultura, a pastorícia, a floresta e a pesca».

«Outro aspeto que afeta as populações mais pobres é o capital económico necessário para resolver ou fugir das situações extremas ou de catástrofes. Devido às suas dificuldades económicas os mais pobres são os que têm mais dificuldades, quer para recuperar as suas habitações, quer para encontrar uma solução e refazerem a sua vida noutro lugar», lembra o assistente nacional da ONG Leigos para o Desenvolvimento.

 

Migrações

Noutro artigo, Domingos Lourenço Vieira observa que «diante dos grandes fluxos migratórios e de refugiados e das divisões crescentes dentro das sociedades ocidentais» sobre o problema, «há uma questão central que se coloca: podem e ou devem as nações mais desenvolvidas acolher o estrangeiro em busca de segurança e de melhores condições de vida que não encontram no seu país?».

Para o sacerdote doutorado em Teologia Moral e em História Moderna e Contemporânea, o «trabalho de conversão – de uma “cultura do descartável” para uma “cultura de encontro”», na «resistência à “globalização da indiferença”, toma parte a Igreja, primeiro recordando, no tempo e contra o tempo, o convite evangélico a “acolher o estrangeiro” (Mt 25, 35), depois trabalhando com outros agentes defendendo a “obra da verdade” nesta área, porque as ideologias da rejeição do outro escondem equívocos e ignorância dos factos. Compete-lhe sublinhar, ao lado e fundando-se no conhecimento dos especialistas, que a migração não é primeiramente um “problema”, mas um “facto social global”, que comporta numerosos aspetos positivos».

 

Do Vaticano II ao papa Francisco

Geraldo De Mori, SJ assinala que «os pobres fizeram irrupção na Igreja e na teologia, sobretudo nas últimas décadas. Não que a Igreja os tivesse ignorado ao longo de sua história. Pelo contrário, fiel a Jesus, que os declarou “bem-aventurados” (Mt 5, 3; Lc 6, 20) e os colocou no centro de sua ação (Lc 4, 18-19; 7, 22), ela nunca os esqueceu (Gl 2, 10), como testemunham tantas iniciativas por ela desenvolvidas ao longo de sua história. Algo de novo, porém, emergiu no Concílio Vaticano II, que fez com que a Igreja e a teologia latino-americanas tivessem um novo olhar sobre os pobres, que a conduziu a uma “opção pelos pobres”».

O texto do professor de Teologia Sistemática em Belo Horizonte «retoma, num primeiro momento e de modo panorâmico, alguns elementos» dessa história, «apontando, num segundo momento, também de modo resumido, para o significado dos pobres no magistério do Papa Francisco».



 

SNPC
Publicado em 20.12.2017

 

 

 
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