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Arquitetura: Dez anos da igreja de Santo António, de Carrilho da Graça

«Os edifícios devem ser simples e acolhedores.

No exterior o edifício constrói com planos brancos um volume elementar.

O espaço principal é um contínuo que nos leva desde a rua até à rocha quartzítica posta a nu.

Primeiro o pórtico de entrada. Depois o pátio-adro flanqueado pelas duas rampas e pelas alas do centro comunitário. Ao fundo o espaço central da igreja, inesperadamente envidraçado e transparente. Por último o pátio exterior construído com a rocha existente, o ar, a luz zenital, àgua e plantas. Um espaço exterior aberto à contemplação.

A sala da igreja é de planta quase quadrada. Também o altar é uma mesa quadrada. Estas formas estáveis e centradas permitem-nos sentir que a celebração é presidida e consiste na congregação voluntária de um conjunto de fiéis.

A extrema simplicidade do espaço, da linguagem arquitetónica e do desenho dos objetos tem como objetivo a criação de um espaço de liberdade em que os protagonistas são as pessoas e os acontecimentos.

A arquitetura deve encenar o mínimo e da maneira mais intensa.» (João Luís Carrilho da Graça, in Arq/a (65) 2009)



A igreja dedicada a Santo António, no bairro dos Assentos, em Portalegre, segundo conceção do arquiteto João Luís Carrilho da Graça, foi inaugurada no dia 13 de junho de 2008.

O projeto, que data de 1993, teve de esperar 15 anos para conhecer a luz do dia, não perdendo, no entanto, a sua frescura e novidade no quadro da arquitetura religiosa portuguesa e internacional.

O conjunto, composto pela igreja, centro paroquial e comunitário, distribuídos à volta de um grande pátio-adro, assume uma linguagem claramente contemporânea, de linhas simples e planos brancos que constroem um volume elementar próximo do minimalismo, mas também da arquitetura tradicional alentejana, sintetizando o essencial da contemporaneidade e da tradição local, para alcançar o difícil ponto de equilíbrio onde a primeira se inspira na segunda, e esta se atualiza na outra.

Implantada no centro de um bairro degradado e desqualificado da periferia da cidade, a igreja revela-se atenta à sua localização, e através de traços reduzidos mas coerentes e marcantes, procura participar na valorização da urbe que a rodeia, ao disponibilizar-se como elemento criador de referências e identidade, mas também de relações humanas.



E se no exterior nos confrontamos com longas superfícies brancas muradas e cerradas, é no interior que o edifício se revela, como descreve o arquiteto. “O espaço principal é um contínuo que nos leva desde a rua até à rocha quartzítica, posta a nu pelo terreno aplanado. Primeiro, o pórtico de entrada. Depois o pátio-adro flanqueado pelas duas rampas e pelas alas onde se distribuem os centros comunitário e paroquial. Ao fundo, o espaço central da igreja, que um envidraçado torna inesperadamente transparente. Por último, o pátio exterior construído com a rocha existente, o ar, a luz zenital, água e plantas. Um espaço exterior aberto à contemplação”.

É neste fundo natural enquadrado da igreja que a arquitetura se une de modo mais explícito com a simbólica cristã, ao revelar que o edifício, como a Igreja, assenta sobre rocha (Mt 16, 18).

O mesmo gesto é, ainda, escultura e imagem do ensinamento de Jesus sobre os verdadeiros discípulos, recordando a comunidade da importância de viver e agir em coerência de palavras escutadas e ações praticadas - “Todo aquele que escuta estas minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, engrossaram os rios, sopraram os ventos contra aquela casa; mas não caiu, porque estava fundada sobre a rocha” (Mt 7, 24-25).

Mas esta igreja é ela mesma, no seu conceito e estrutura, uma verdadeira metáfora do ser e do parecer, ao recordar-nos que as verdadeiras riquezas (do ser humano como neste edifício) não se descobrem por fora na aparência do exterior, mas estão e revelam-se no seu interior, não sendo possível conhecer verdadeiramente alguém (ou esta igreja) pela superfície ou na distância, mas em relação de sincera aproximação e disponibilidade.



«Quando o edifício começou a ser construído, todo em betão, muito fechado, as pessoas acharam-no um horror porque parecia um “bunker”. Diziam: “Eu não vou enterrar-me vivo naquela igreja”.» Foi preciso esperar até à inauguração para que aceitassem a obra como sua. «Nesse dia fiz uma visita ao espaço, havia uma afluência enorme de pessoas e estavam muito entusiasmadas. Comentavam: “A igreja é muito melhor por dentro do que por fora, ninguém imaginava.” Os habitantes fizeram duas festas e apropriaram-se rapidamente daquele local de culto.»

Cumpriu-se, então, o propósito do arquiteto: «A extrema simplicidade do espaço, da linguagem arquitetónica e do desenho dos objetos tem como objetivo a criação de um espaço de liberdade em que os protagonistas são as pessoas e os acontecimentos».

Esta é uma das maiores forças desta igreja: o modo como, sem perder identidade, se apaga para dar lugar e primazia à comunidade.

Também no acontecimento principal de todo este complexo, a eucaristia, se descobre esta intenção: um espaço litúrgico que procura promover uma celebração festiva e participada pela comunidade que se deseja ativa e unida em torno do altar. Às opções tomadas neste ponto não será alheio o texto do liturgista P. Pedro Farnés Scherer, que se encontra na memória descritiva do projeto.

«O lugar de celebração não é, pois primordialmente nem um monumento artístico, nem um templo em que Deus habita, nem um lugar onde se veneram imagens ou se custodiam com respeito diversos objetos sagrados, nem um espaço dedicado à oração pessoal e ao trato íntimo com Deus. (...) A igreja cristã é, sobretudo, o lugar destinado à celebração dos sacramentos e à realização das demais ações sagradas dos batizados.»



Neste enquadramento teológico e litúrgico, concretizou o arquiteto: «Tentei materializar o conceito, herdeiro do Concílio Vaticano II, de que a igreja é um espaço onde nos reunimos em pé de igualdade. A sala da igreja é de planta quase quadrada. Um só degrau separa o altar, que é uma mesa quadrada em madeira, do público. Estas formas estáveis e centradas permitem-nos sentir que a celebração é presidida e consiste na congregação voluntária de um conjunto de Fiéis».

No entanto, este desejo bem direcionado ficou aquém das possibilidades existentes quando recorreu ao modelo de organização do espaço litúrgico que em Portugal mantém uma utilização maioritária: o de assembleia processional face ao presbitério alteado.

Neste caso, as tendências menos positivas que este modelo estimula, como a separação indesejada entre o presidente invariavelmente sobrevalorizado e o povo mais ou menos inconscientemente remetido à assistência, foram mitigadas por soluções diversas, como a lateralização da cadeira da presidência e consequente reforço da centralidade do altar, ou a planta quadrada quase de nível único com vista à máxima uniformização do espaço e aproximação da assembleia do presbitério.

Neste capítulo particular e por constituir uma tentativa concreta de fazer caminho no entendimento do espírito eclesiológico e litúrgico renovado pelo Concílio Vaticano II, indo mais além do que os espaços litúrgicos repetidos em Portugal até à exaustão nas duas últimas décadas, esta igreja é inquestionavelmente um passo muito relevante na atual arquitetura religiosa portuguesa.

Também pelas suas formas, ao mesmo tempo, reconhecíveis no estilo e novas no desenho da tipologia, e pelo traço discreto, rigoroso, proporcionado e belo do todo como nas partes, a igreja de Santo António, em Portalegre, constitui o acontecimento de maior relevo e significado na arquitetura religiosa dos últimos dez anos, em Portugal, confirmando que a arquitetura pode (e deve) ser um suporte favorável à vida sacramental, espiritual e comunitária vivida em Igreja, e que esta não pode (nem deve) exigir menos do que a excelência nas suas obras.



 

João Alves da Cunha
Arquiteto
Originalmente publicado em 11.4.2010
Imagem de topo: © FG+SG – Fernando Guerra, Sergio Guerra
Publicado em 27.09.2018

 

 
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