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«Hoje tudo parece reduzir-se a números»: Desafios à esperança cristã em tempos sombrios

«Hoje tudo parece reduzir-se a números»: Desafios à esperança cristã em tempos sombrios

Imagem Jason Dalrymple/Bigstock.com

«Hoje especula-se sobre a vida, sobre o trabalho, sobre a família. Especula-se sobre os pobres e sobre os migrantes; especula-se sobre os jovens e sobre o seu futuro. Tudo parece reduzir-se a números, deixando, em contrapartida, que a vida diária de tantas famílias se tinja de precariedade e de insegurança. Enquanto a dor bate a muitas portas, enquanto em muitos jovens cresce a insatisfação pela falta de oportunidades reais, a especulação abunda em todo o lado.»

Este foi um dos retratos das sociedades ocidentais apresentado hoje pelo papa na missa a que presidiu no parque de Monza, perto de Milão, perante cerca de um milhão de pessoas, de acordo com a imprensa italiana.

«O ritmo vertiginoso a que estamos submetidos parece roubar-nos a esperança e a alegria. As pressões e a impotência diante de tantas situações parecem secar a alma e tornar-nos insensíveis diante dos inumeráveis desafios. E paradoxalmente, quando tudo se acelera para construir, em teoria, uma sociedade melhor, no fim não se tem tempo para nada e para ninguém. Perdemos o tempo para a família, o tempo para a comunidade, perdemos o tempo para a amizade, para a solidariedade e para a memória», continuou Francisco ao lembrar a tristeza que muitas pessoas, talvez a maioria, parecem viver.



«Como é possível viver a alegria do Evangelho hoje, no interior das nossas cidades? É possível a esperança cristã nestas situações, aqui e agora?», questionou Francisco na missa. Durante a manhã, já tinha dado uma pista de resposta: os católicos, ainda que sejam minoria, nunca se podem resignar



Durante a manhã, na catedral de Milão, o papa tinha afirmado: «Não devemos temer os desafios, e é bom que existam. São sinais de uma fé viva, de uma comunidade viva que procura o seu Senhor e tem os olhos e o coração abertos. Devemos sobretudo temer uma fé sem desafios, uma fé que se tem por completa, como se tudo tivesse sido dado e realizado. Os desafios ajudam-nos a fazer com que a nossa fé não se torne ideológica».

Os desafios, prosseguiu Francisco no encontro com padres, religiosos e religiosas da arquidiocese italiana, «salvam de um pensamento fechado e definido», além de abrirem «a uma compreensão mais ampla» da revelação de Cristo.

O que fazer, contudo, quando os problemas parecem irresolúveis, conduzindo muitas vezes não a um esforço para os ultrapassar, mas à paralisia e à desmotivação? «Como é possível viver a alegria do Evangelho hoje, no interior das nossas cidades? É possível a esperança cristã nestas situações, aqui e agora?», questionou Francisco na missa. Durante a manhã, já tinha dado uma pista de resposta: os católicos, ainda que sejam minoria, nunca se podem resignar.

«Se continuam a ser possíveis a alegria e a esperança cristã, não podemos, não queremos permanecer diante de tantas soluções dolorosas como meros espetadores que olham para o céu esperando que "pare de chover". Tudo isto que acontece exige de nós que olhemos para o presente com audácia, com a audácia de quem sabe que a alegria da salvação toma forma na vida diária da casa de uma jovem de Nazaré».



«Deus continua a percorrer os nossos bairros e as nossas estradas, dobra-se em cada lugar à procura de corações capazes de escutar o seu convite e de o fazer tornar-se carne aqui e agora»



O papa apontou para Maria, que os católicos evocam hoje, 25 de março, pela anunciação que um anjo lhe fez de que iria dar à luz Jesus: «"Nada é impossível a Deus": assim termina a resposta do anjo a Maria. Quando acreditamos que tudo depende exclusivamente de nós, ficamos prisioneiros das nossas capacidades, das nossas forças, dos nossos horizontes míopes. Quando, em vez disso, nos dispomos a deixar-nos ajudar, a deixar-nos aconselhar, quando nos abrimos à graça, parece que o impossível começa a tornar-se realidade».

«Como ontem, Deus continua a procurar aliados, continua a procurar homens e mulheres capazes de acreditar, capazes de fazer memória, de se sentirem parte do seu povo para cooperar com a criatividade do Espírito. Deus continua a percorrer os nossos bairros e as nossas estradas, dobra-se em cada lugar à procura de corações capazes de escutar o seu convite e de o fazer tornar-se carne aqui e agora», acentuou o papa na homilia da missa.

De manhã, no encontro com padres e pessoas consagradas, Francisco sublinhou que a leitura do mundo contemporâneo deve ser feita «sem o condenar e sem o santificar», «reconhecendo os aspetos luminosos e os aspetos obscuros», o que exige avaliar, julgar, fazer escolhas e apontá-las.

«Há uma opção que, como pastores, não podemos evitar: formar para o discernimento», apontou, antes de explicar: «A cultura da abundância a que estamos submetidos oferece um horizonte de muitas possibilidades, apresentando-as todas como válidas e boas.»

Os jovens, por exemplo, «estão expostos a um "zapping" contínuo»: «Podem navegar em dois ou três ecrãs ao mesmo tempo, podem interagir ao mesmo tempo em vários cenários virtuais. Quer nos agrade ou não, é o mundo em que estamos inseridos e é nosso dever, como pastores, ajudá-los a atravessar este mundo».



«Quantas vezes já confundimos unidade com uniformidade?», ou «pluralidade com pluralismo?», perguntou o papa: «Em ambos os casos o que se procura fazer é reduzir a tensão e eliminar o conflito ou a ambivalência a que estamos submetidos enquanto seres humanos»



«Considero que é bom ensiná-los a discernir, para que tenham os instrumentos e os elementos que os ajudem a percorrer o caminho da vida sem que se extinga o Espírito Santo que está neles. Num mundo sem possibilidade de escolha, ou com menos possibilidade, talvez as coisas parecessem mais claras, não sei», assinalou.

As crianças seguem o exemplo e as indicações dos pais, mas à medida que crescem, «no meio de uma multidão de vozes que aparentemente têm todas razão, o discernimento do que conduz à ressurreição, à vida, e não a uma cultura de morte, é crucial».

Não são apenas os jovens que estão expostos a esta realidade, todos, inclusive os crentes, vivem nela: «Estou convencido de que, como comunidade eclesial, devemos incrementar o hábito do discernimento».

Francisco mencionou também a necessidade de ajudar a Igreja «discernir os excessos de uniformidade ou de relativismo», tendências que «procuram eliminar a unidade das diferenças, a interdependência».

«Quantas vezes já confundimos unidade com uniformidade?», ou «pluralidade com pluralismo?», perguntou o papa: «Em ambos os casos o que se procura fazer é reduzir a tensão e eliminar o conflito ou a ambivalência a que estamos submetidos enquanto seres humanos. Procurar eliminar um dos polos da tensão é eliminar o modo como Deus quis revelar-se na humanidade do seu Filho.»

A viagem do papa a Milão começou com a visita a um bairro pobre e periférico da cidade, tendo-se seguido o encontro com padres e consagrados. Após a oração do Angelus, Francisco encontrou-se com reclusos de uma prisão, presidiu à missa e, por fim, avista-se com jovens crismandos no estádio de San Siro.



 

SNPC
Publicado em 26.03.2017

 

 
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