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Dentro de quatro paredes caiadas…

Imagem D.R.

Dentro de quatro paredes caiadas…

Assinalou-se a 25 de novembro o dia de luta contra a violência sobre as mulheres. Mas de que violência estamos a falar? Em maus tratos, naturalmente, que podem levar à morte.

Uma professora catedrática da Universidade de Barcelona define a violência deste modo: «obrigar alguém a fazer aquilo que não quer», ou seja, aquilo que não gosta ou que não lhe apetece fazer. Assim sendo, todos temos de aprender a viver e a gerir a violência/contrariedades da vida, com as adversidades que daí advém. A gestão dos contratempos leva-nos à conquista de um bem maior.

Porém, quando nos referimos à violência contra as mulheres (contra os idosos e crianças) estamos a referenciar outro âmbito: o do crime. A violência contra os homens também existe, embora numa percentagem muito inferior, o que torna essa realidade menos relevante.

Neste ano de 2014, foram assassinadas em Portugal 40 mulheres. Os crimes aconteceram, como é do conhecimento publico, no âmbito da violência conjugal, às mãos dos maridos, companheiros ou namorados. Daí falar-se hoje em “femicídio” no contexto das relações íntimas, amorosas. Trata-se de uma guerra cor-de-rosa, letal e intolerável. Os números falam por si: uma mulher é assassinada por semana em Portugal. E mais: 46 foram alvo da tentativa deste crime. As duas maiores cidades do país, às quais se junta Setúbal, são os distritos com mais queixas.

É legítimo perguntar-se: sempre foi assim? Ainda não há uma resposta empírica; certo é que há muitíssimas mais denúncias, o que dá uma maior visibilidade ao fenómeno. No entanto, as organizações de apoio à vítima admitem que as mulheres, principalmente no meio rural, têm muito medo e vergonha de apresentar queixa, o que as mantém cativas por anos e anos em ambientes altamente violentos. Heroicidade precisa-se… para sair de casa, deixar tudo para trás e procurar refúgio seguro. Nem todas têm coragem para o fazer; as que o fazem são autênticas heroínas.

Este preâmbulo é para enquadrar a estória da “D. Clotilde”. Com o que tinha vestido no corpo, pegou nos três filhos e pôs-se a caminho, à procura de guarida, onde refugiar-se. Encontrou-a na vizinhança. Todavia, ao ser um meio pequeno, rapidamente foi descoberta, vendo-se obrigada a pedir auxilio às forças de segurança, que a conduziram a um abrigo protegido.

Sorte a dela. Foi por pouco. Um pequeno descuido na fuga e estaríamos hoje a falar da 41.ª vítima de violência doméstica em 2014. Só o não foi porque um dia disse «basta».

A “D. Clotilde” deixou a sua casa, a sua aldeia, familiares, bens, amigos, vizinhos, escola dos filhos, etc. Ficou de mãos a abanar. A pessoa que há duas dezenas de anos fora o seu príncipe encantado tornou-se no seu algoz. E pior, ainda: a “D. Clotilde” era empregada oficial no estabelecimento de ambos, e, em casa, tinha de ser a mulher, esposa, mãe, criada para todo o serviço.

Hoje, está privada de tudo, sem direito a subsídio de desemprego e/ou de qualquer outra prestação social. Por isso, tantas mulheres preferem continuar subjugadas no sequestro do aparente doce lar, aguentando humilhações, insultos e vexames.

A liberdade e a paz têm um preço muito elevado. Nunca estão de todo conquistadas. É uma longa travessia pelo deserto da vida, e, muitas vezes, com um horizonte tão longínquo, que parece não ter fim à vista. É preciso muita coragem e lucidez para, estrategicamente, confrontar-se com os fantasmas, uns mais reais, outros mais imaginários, mas eles estão sempre na mira.

Vale a pena morrer por uma causa. Vale, pois claro, «tudo vale a pena se alma não é pequena». Mas aquilo a que temos assistido em Portugal referente ao “femicídio”, na verdade é uma autêntica tragédia. Muito recentemente, no congresso de um partido politico, tiveram a ousadia de ler em público os nomes das mulheres assassinadas, o que fez estremecer e estarrecer a assembleia.

Que nos reservará 2015? Diariamente dizemos: nem mais uma! Mas, por desgraça, há sempre mais uma. A reviravolta só acontecerá quando os meninos (e as meninas), ao decorar as primeiras letrinhas do abecedário, aprendam também, e desde logo, o respeito pelo/a outro/a: não se chama nomes feios…não se empurra, não se dá bofetadas, não se puxa pelos cabelos, não se dá pontapés (só na bola), e as redes sociais são para comunicar, não para denigrir e/ou controlar as pessoas.

Enquanto assim não for, podemos ter a certeza de que muitos jornais se vão vender à custa de grandes manchetes, e muitos telejornais têm garantida a audiência ao abrir manchados de sangue: «matou…e depois suicidou-se (ou entregou-se às autoridades), mas os vizinhos diziam que era um casal pacífico».

O terrorismo familiar dentro das quatro paredes - mesmo que «caiadas e com cheiro a alecrim» - é um sinal da derrapagem dos valores na sociedade que vivemos.

 

Ir. Maria Júlia Bacelar, adoradora
Publicado em 16.12.2014

 

 
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As organizações de apoio à vítima admitem que as mulheres, principalmente no meio rural, têm muito medo e vergonha de apresentar queixa, o que as mantém cativas por anos e anos em ambientes altamente violentos
A liberdade e a paz têm um preço muito elevado. Nunca estão de todo conquistadas. É uma longa travessia pelo deserto da vida, e, muitas vezes, com um horizonte tão longínquo, que parece não ter fim à vista
A reviravolta só acontecerá quando os meninos (e as meninas), ao decorar as primeiras letrinhas do abecedário, aprendam também, e desde logo, o respeito pelo/a outro/a
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