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Defende os migrantes, tem a cabeça a prémio e anda com escolta: a vida do padre Solalinde

Defende os migrantes, tem a cabeça a prémio e anda com escolta: a vida do padre Solalinde

Imagem P. Alejandro Solalinde | D.R.

«Sou o P. Alejandro Solalinde.» Não precisou de dizer mais ao interlocutor: «Conheço-o bem. Continue a trabalhar, sei que é difícil, mas continue a trabalhar». Foi esta quarta-feira, no Vaticano, com o papa Francisco.

Com 72 anos, a vida do sacerdote mexicano está a prémio, um milhão de dólares oferecidos pelos narcotraficantes: «Querem-me morto [mas] eu não tenho medo e sigo em frente».

Há 10 anos Solalinde, nomeado para o prémio Nobel da Paz de 2017, fundou os "Irmãos no Caminho", centro de ajuda para os migrantes que se dirigem aos EUA. São meio milhão de indocumentados por ano que da América Central procuram um futuro melhor.

A eles, o padre oferece pão e um lugar seguro, longe dos bandos criminosos que os exploram e submetem a violências, violações, torturas, recrutamento forçado, tráfico de órgãos, prostituição. Protege-os também denunciando os traficantes de droga, «as conivências da política» e «das instituições», a corrupção da polícia.

Em entrevista, o P. Alejandro Solalinde conta como é viver com escolta policial no segundo país mais violento do mundo (23 mil homicídios por ano), analisa a intenção do presidente dos EUA, Donald Trump, de construir um muro na fronteira com o México, fala sobre a criminalidade, que começa a semear-se na infância, e defende que é preciso distinguir entre os migrantes que querem trabalhar e aqueles que, pelo terrorismo, se querem vingar da Europa.

 

Como se vive com ameaças contínuas de morte e um prémio sobre a cabeça?

Apesar das ameaças de morte e as ações violentas vido tranquilo na minha fé porque sou um missionário itinerante do Reino de Deus. Para mim é importante levar a termo este compromisso e estou a fazê-lo a cada dia. Se a máfia e o governo corrupto me permitirem, seguirei em frente. Não quero perder a responsabilidade da missão nem a alegria de viver. Quero continuar a defender os migrantes, apesar das ameaças e dos perigos. Até agora Deus esteve junto de mim e salvou-me.

 

Como se sente após a candidatura ao prémio Nobel da Paz de 2017?

Tomei esta candidatura como muita cautela e precaução. Para mim é claro que, se o ganhasse, não seria um prémio para mim mas para as mais de 90 organizações da sociedade civil no México que lutam pelos migrantes. E para a Igreja católica, que trabalhou muitíssimo neste campo, para as organizações e para quem defende os direitos dos migrantes. Não esqueçamos que há outras 317 pessoas propostas para o Nobel da Paz e todas estamos a fazer um trabalho importante pelos direitos humanos. Cada uma ganha-o. Será um reconhecimento para toda a comunidade mundial dos defensores e defensoras dos direitos humanos.

 

No México os defensores dos direitos humanos arriscam muitíssimo. Não existe outro país no mundo como o México, onde desaparecem tantas pessoas, não só migrantes.

As valas clandestinas são um horror. Cada dia descobre-se uma. Na noite antes de partir para Itália falei com pessoas de quatro localidades que me falaram de novas valas comuns clandestinas. A maior parte dos corpos são de migrantes pobres que vinham do Sul e Centro da América; encontraram a morte no México porque não puderam pagar o resgate ou não quiseram trabalhar como sicários para o crime organizado. Estes desaparecimentos têm que ver com as corporações policiais do México, mas também com o Exército e a Marinha.

 

Vive num Estado onde o crime organizado se infiltrou. Vive com escolta. Não teme traições?

Estou seguro de que não arrisco traições da minha escolha pessoal [três homens e uma mulher]. Estão comigo há cinco anos, quero-lhes muito bem, são como a minha família. Mas pode acontecer um ataque de qualquer lado. Porque são agentes de polícia dissuasiva. Podem apenas conter os riscos e tirar-me do perigo.

 

O que acontece hoje à fronteira entre o México e os EUA com a presidência Trump?

Continuam a morrer muitos migrantes, mas muitos continuam a passar a fronteira. Desde que Trump é presidente 25% da população migrante [no total de 500 mil pessoas presentes no México] consegue chegar aos EUA. Donald Trump não pode conter a migração porque a fronteira não é controlada pelos EUA nem pelo governo mexicano, mas pelo crime organizado. Há corrupção em ambos os lados. Há pelo menos quatro maneiras de entrar. A corrupção é a ponte por onde passam os migrantes, pagando. Cerca de 25% são detidos e voltam ao país de origem. Mas 50% está a decidir se fica no México, pelo menos enquanto Donald Trump estiver na presidência.

 

Portanto a ameaça de Trump de construir o muro não serve?

Não serve porque já é tarde. Os migrantes já estão nos EUA: são 34 milhões de mexicanos, com 11 milhões de migrantes sem documentos e outros que continuam a chegar. Uma população que se está a multiplicar por três. O novo rosto das Igrejas católica e evangélica dos EUA é migrante. A Conferência Episcopal dos EUA organizou-se muito bem para os ajudar.

 

É verdade que muitas crianças mexicanas dizem que quando forem grandes querem ser sicários?

Assim é. Crianças e jovens dizem que querem ser traficantes de droga para serem importantes, terem mulheres, dinheiro e armas. «Não importa que a vida dure dois ou três anos mas quero vivê-la bem», dizem. Isto significa que nas instituições educativas, escola e Igreja católica, deixou-se de apresentar Jesus como um exemplo. A maior parte das pessoas não se aproxima das paróquias, vive na rua, onde não chega a Palavra de Deus. Por isso é necessária uma verdadeira educação para a fé e para os valores. Temos 82% de católicos no papel, mas a maioria não são verdadeiros crentes. Temos políticos corruptos, traficantes e jovens que querem tornar-se traficantes. (...)
O melhor presente para os migrantes é o papa Francisco. Nunca conheci um papa que tenha amado tanto os migrantes. Defende-os não só porque são os mais excluídos mas porque são um sinal dos tempos. A 17 de maio irei à audiência geral na Praça de S. Pedro, mas não sei se conseguirei encontrá-lo pessoalmente [esta entrevista foi realizada antes do encontro do sacerdote com Francisco].

 

Infelizmente, numa Europa atingida pelo terrorismo desliza-se facilmente para o medo do diferente...

Uma coisa que falta à Europa é um melhor conhecimento da colonização europeia em África: a Europa estabeleceu fronteiras e criou conflitos históricos, saqueou as riquezas africanas com as quais viveu comodamente durante muitos anos. É preciso distinguir entre os migrantes que vêm trabalhar e que reconstruirão uma nova Europa e os migrantes terroristas para vêm para se vingar do dano que a Europa causou à África. Há uma espécie de vingança, de desforra, do Estado Islâmico em relação à Europa, mas isto não tem nada a ver com os migrantes; é uma questão política.



 

Fontes: SIR, Vatican Insider
Trad. / edição: SNPC
Publicado em 19.05.2017

 

 
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