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A declaração do “cante” como Património imaterial da Humanidade

Imagem D.R.

A declaração do “cante” como Património imaterial da Humanidade

A recente declaração, pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), do “cante” alentejano como Património imaterial da Humanidade, encheu de júbilo as gentes do Alentejo e creio que também de todo o país. Comungo plenamente desta alegria coletiva, tanto mais que fiz parte da Comissão Científica que preparou a candidatura agora vencedora. E com todo o mérito. O “cante” é único, não tem similar em Portugal: é belo e poderoso, é solene e emotivo, toca a alma, é imagem de marca do povo alentejano. Esta declaração é uma justa distinção que muito honra este povo. Isso mesmo pude comprovar ao longo do dia 27 de novembro e nos dias seguintes na cidade de Beja: as pessoas estavam visivelmente felizes com esta boa notícia. O Alentejo, sobretudo o Baixo, tem sido muito esquecido pelos sucessivos poderes: é considerado uma região deprimida, com uma baixíssima densidade populacional, uma elevada taxa de desemprego e poucas perspetivas de futuro para os jovens. Neste contexto, a notícia, aliás já esperada, da decisão da UNESCO de distinguir o “cante” como Património imaterial da Humanidade, veio na melhor altura. Os alentejanos enchem-se de orgulho por ver o canto que lhes vem da alma – a sua identidade mais profunda - ser reconhecido mundialmente! Certamente que esta distinção é um grande estímulo para a sua autoestima. Este povo merece. Fez por isso. Sou testemunha do esforço que tem sido feito, sobretudo nos últimos anos, pela preservação do “cante”, pela garantia do seu futuro. Há anos atrás, os grupos corais eram constituídos quase exclusivamente por homens já bastante maduros na idade e alguns temiam que o “cante” desaparecesse com a sua morte. Hoje, felizmente, esse temor parece ter-se desvanecido: um dado novo recente é que têm surgido jovens que gostam do “cante” alentejano, que o estudam, o ensaiam, e se constituem em grupos que o cantam muito bem, como é o caso dos “Bubedanas” e outros. Por outro lado, a aposta no futuro por parte das autarquias também tem passado por esta tradição ser transmitida aos mais novos, nas escolas, com a ajuda de alguns monitores e dos professores, como é o caso dos concelhos de Beja, Serpa, Castro Verde, Mértola... Como feliz exemplo desta salvaguarda e dinamização, ainda há um mês atrás, na “Rural Beja”, pudemos ver e ouvir com muito agrado um grupo de crianças do Agrupamento de Escolas Mário Beirão a cantar modas tradicionais alentejanas acompanhadas a viola campaniça por Paulo Colaço e Ana Albuquerque, que também as ensaiam regularmente. Assim, o “cante” tem futuro! Esperamos também que esta distinção contribua para um maior fluxo turístico da região ajudando-a a superar as dificuldades por que tem passado.

Na decisão favorável da UNESCO pesou o contributo do “cante” para a solidariedade e fraternidade entre as pessoas. De facto, assim é: não conheço em Portugal, ao nível do canto popular, outro que aproxime tanto as pessoas. Vê-se nele claramente o esforço de cada um associado ao esforço de todos. O cante, tal como é executado, transmite bem a ideia de fraternidade: quando cantam desfilando, os homens fazem-no abraçados uns aos outros, reforçando o sentido de grupo e moldando a relação entre eles.

 

O canto popular religioso

Como é sabido, o cante alentejano tem também uma vertente religiosa. Qualquer estudioso sabe disso. Os alentejanos também usam o seu cante para se relacionarem com Deus, para rezar. Sabendo disso, eu próprio e o P. António Aparício, (que comigo integrava a Comissão de Liturgia de Beja) iniciámos em 1978 um trabalho lento e refletido de "recolha e recuperação do canto tradicional religioso" do Baixo Alentejo e descobrimos um riquíssimo repertório utilizado especialmente em certas épocas do ano, ligado de algum modo ao ritmo do ano litúrgico e às grandes tradições populares religiosas (Natal, Reis, Quaresma, Festas de Nª Senhora e dos Santos, etc.).

Esta nossa experiência foi estimulada pelas palavras encorajadoras do Concílio Vaticano II: «Promova-se muito o canto popular religioso (…), estime-se como se deve e dê-se-lhe o lugar que lhe compete…» (Const. “Sacrosanctum Concilium”, nn. 118 e 119). No trabalho sistemático de recolha dos velhos cantos tradicionais religiosos do Baixo Alentejo, que durou até 1982, foram visitadas, algumas por duas e três vezes, mais de quarenta localidades, particularmente aldeias e “montes”. Desde os “montes” perdidos do concelho de Mértola a meios maiores, como Serpa, V. V. de Ficalho, Aldeia Nova de S. Bento, Pias, Baleizão, Cuba, o concelho da Vidigueira, algumas povoações do concelho de Beja, etc., etc., nós contactámos muitas pessoas idosas que nos cantaram o que sabiam. O vasto material recolhido em gravação, depois de selecionado, revisto literariamente e transcrito para a pauta musical, começou a ser trabalhado pelo Coro do Carmo de Beja, que o foi testando na Igreja do Carmo e a pouco e pouco o foi divulgando em celebrações transmitidas quer pela rádio (RDP) quer pela televisão, e também pela publicação de duas cassetes (agora já numa versão atualizada em 2 CDs) e dois livrinhos com o título genérico de “Cânticos Religiosos Alentejanos” (hoje agrupados num único livro, copiado a computador, das Ed. Paulinas). São ao todo 35 cânticos, incluindo alguns que o saudoso P. António Marvão tinha recolhido e publicado no seu “Cancioneiro Alentejano”. Mas isto é apenas uma parte do material recolhido…

O repertório deste tipo de canto está organizado em 6 grandes temas genéricos: cânticos do ciclo do "Natal", certamente o tema mais vasto e mais rico, cânticos da "Quaresma", cânticos aos "Santos Populares, cânticos a "Nª Senhora", cânticos para "pedir a Deus a graça da chuva" e cânticos das "Almas".

Os frutos deste trabalho – seja do ponto de vista litúrgico seja cultural – são bem visíveis. Com estes cânticos, hoje bastante divulgados e conhecidos mesmo fora do Alentejo, pelo menos alguns, ajudámos o povo alentejano a louvar a Deus com a bela e majestosa música da sua terra, criada pelos seus antepassados. De facto, hoje no Alentejo quase não há Missa ou procissão em que não se cante algum cântico da tradição popular religiosa. Ainda no domingo passado, 30 de novembro, na Missa de entrada na Diocese do Bispo Coadjutor de Beja, D. João Marcos, participada por largas centenas de pessoas do Alentejo e de fora dele, pudemos experimentar como os cantos tradicionais religiosos do Alentejo (cantaram-se três) empolgaram as pessoas, fizeram-nas vibrar de entusiasmo e fervor, tocaram-lhes os corações. Que beleza ouvir esta multidão a rezar cantando a música da sua terra! Sem estes cantos a celebração seria mais pobre.

Também na quadra de Natal se passa algo de semelhante: alguns dos belíssimos cantos ao Menino, às Janeiras e aos Reis estão agora de novo na boca e no coração dos crentes, quer nas celebrações litúrgicas de algumas paróquias quer em concertos nas “Noites de canto ao Menino”, organizados pelos grupos corais em várias terras do Alentejo e até na zona da Grande Lisboa, onde há vários corais alentejanos. Eu próprio, quando oportuno, incluo sempre alguns destes cânticos nos programas dos concertos do Coro do Carmo de Beja.

É uma grande alegria ver o “cante” elevado a Património da Humanidade – o profano e o religioso. Um e outro se completam, porque são duas dimensões da mesma alma do povo alentejano. E eu estou feliz por também ter contribuído alguma coisa para a sua recuperação, preservação e dinamização.

 

P. António Cartageno
Compositor, Diocese de Beja
Publicado em 01.12.2014

 

 
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Os alentejanos enchem-se de orgulho por ver o canto que lhes vem da alma – a sua identidade mais profunda - ser reconhecido mundialmente! Certamente que esta distinção é um grande estímulo para a sua autoestima. Este povo merece. Fez por isso
Na decisão favorável da UNESCO pesou o contributo do “cante” para a solidariedade e fraternidade entre as pessoas. De facto, assim é: não conheço em Portugal, ao nível do canto popular, outro que aproxime tanto as pessoas
No trabalho sistemático de recolha dos velhos cantos tradicionais religiosos do Baixo Alentejo, que durou até 1982, foram visitadas, algumas por duas e três vezes, mais de quarenta localidades, particularmente aldeias e “montes”
Com estes cânticos, hoje bastante divulgados e conhecidos mesmo fora do Alentejo, pelo menos alguns, ajudámos o povo alentejano a louvar a Deus com a bela e majestosa música da sua terra, criada pelos seus antepassados
Ainda no domingo passado, 30 de novembro, na Missa de entrada na Diocese do Bispo Coadjutor de Beja, D. João Marcos, pudemos experimentar como os cantos tradicionais religiosos do Alentejo (cantaram-se três) empolgaram as pessoas, fizeram-nas vibrar de entusiasmo e fervor, tocaram-lhes os corações
É uma grande alegria ver o “cante” elevado a Património da Humanidade – o profano e o religioso. Um e outro se completam, porque são duas dimensões da mesma alma do povo alentejano
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