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Leitura: “De que estamos à espera? - Procurando o sentido do Advento e do Natal”

Leitura: “De que estamos à espera? - Procurando o sentido do Advento e do Natal”

Imagem Capa | D.R.

A pouco mais de uma semana do início do tempo de preparação para a celebração do nascimento de Cristo, apresentamos o livro “De que estamos à espera?”, uma das novidades da Paulinas Editora.

A obra de Richard Leonard «apresenta uma série de histórias e reflexões inspiradoras» que ajudam «a compreender e a viver o tempo do Advento e do Natal no seu sentido mais profundo».

«As histórias divertidas e desafiadoras do padre Leonard constituem um excelente recurso para a oração e para a reflexão sobre as narrativas do Evangelho, reveladoras da encarnação do Senhor no tempo e na nossa vida pessoal», assinala a sinopse.

 

Esperando o inesperado
Richard Leonard
In “De que estamos à espera?”

No início do Advento de 1992, fui nomeado para uma paróquia situada na zona de prostituição de Sydney e de imediato, pus novamente a funcionar o coro da igreja. A primeira pessoa a candidatar-se foi uma mulher muito alta e muito bem vestida, que se aproximou de mim depois da missa e disse na sua voz baixo profundo: «Padre, chamo-me Glória e sou baixo.» «É sempre difícil encontrar baixos – repliquei. – Vemo-nos amanhã à noite para o nosso primeiro ensaio.» Enquanto se afastava, Glória parou, virou-se para mim e perguntou: «Já percebeu que eu sou trans, não percebeu, padre?» «Sim, Glória, até eu percebi isso… é pouco comum encontrar uma mulher que seja realmente baixo.»



Talvez a Glória seja um “sinal” para nós, neste Advento, de que Deus vem para desinstalar os que estão confortáveis, e reconfortar os aflitos



Glória era, sem dúvida nenhuma, o pior baixo que eu jamais ouvi na minha vida, mas a notícia da sua entrada no coro alastrou como um incêndio em Kings Cross, e, em breve, muitos dos seus amigos começaram a vir à missa para vê-la e ouvi-la cantar. Certo domingo, no fim de um hino, Glória entoou um grande «ÁAA-MEN» e imediatamente dois bancos inteiros de travestis se puseram de pé, aos gritos: «Mostra-lhes como se canta, rapariga!»

Eu sei que será um choque terrível para o leitor descobrir que nem todos os membros da comunidade católica aceitaram a situação! De facto, um pequeno grupo lançou uma petição exigindo o afastamento imediato da Glória do coro, porque «ela estava a fazer da Missa uma farsa, distraindo-nos da nossa oração».

A certa altura, o caso foi apresentado ao conselho paroquial. No momento preciso em que iam votar sobre se Glória devia ser chamada a deixar o coro, o meu pároco jesuíta, natural da Irlanda, tomou a palavra: «Eu sei que Jesus sempre foi bom a “ler os sinais” – disse ele. – No Advento, somos continuamente chama dos a “ler os sinais”. Talvez, repito, talvez Glória seja um sinal para nós, neste Advento, de que os dons de Deus nem sempre chegam a nós dentro de caixinhas perfeitas. De facto, como sabem, no capítulo 14 do Evangelho de Lucas, Jesus fala de sinais dizendo que “Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos”. Ora, se nós pedirmos a esse membro, por muito baralhado que ele esteja, para deixar o coro, talvez nunca mais o voltemos a ver, nem a ele nem aos seus amigos. E, da última vez que refleti sobre isso, cheguei à conclusão de que os sacramentos são para aqueles que mais precisam deles. Não é necessário ser perfeito para receber Deus nos sacramentos. Tem de se receber os sacramentos para chegar a Deus. Talvez a Glória seja um “sinal” para nós, neste Advento, de que Deus vem para desinstalar os que estão confortáveis, e reconfortar os aflitos. Mas – concluiu ele – eu posso estar enganado, por isso, força, votem à vossa vontade.» Ganhámos as votações! Glória ficou connosco.



Eu sei que não foi fácil para alguns de vocês terem um artista travesti no coro, mas acreditaram em mim mesmo, quando nem eu sabia quem era, o que queria e a quem precisava de recorrer



Passados seis meses, Glória disse-me que a sua mulher estava a morrer de cancro noutra cidade, e que precisava de ajuda para resolver alguns problemas e voltar para casa. Enquanto era ajudado por um psicólogo, desapareceu da paróquia. Depois, certo dia, apareceu um homem à minha porta. Eu não o reconheci, até o ouvir falar: «B’dia, padre! Sou o Gordon e venho só para me despedir.»

Bastante mais tarde, chegou uma carta do Gordon, que a escreveu pedindo que a lêssemos nas missas de domingo. «Só quero que saibam que, ontem à noite, a minha mulher morreu em paz, em casa, do cancro da mama de que sofreu nos últimos dezoito meses. Depois de os agentes funerários a terem levado de casa e de eu ter metido os nossos rapazinhos na cama, fiquei muito comovido ao pensar que não estaria aqui, se não tivesse experimentado a bondade da paróquia de Kings Cross. Eu sei que não foi fácil para alguns de vocês terem um artista travesti no coro, mas acreditaram em mim mesmo, quando nem eu sabia quem era, o que queria e a quem precisava de recorrer. Quem poderia pensar que cantar na Missa viria eventualmente a fazer com que um marido se reconciliasse com a sua mulher, que foi um modelo impressionante de perdão, e a devolver o pai a dois rapazinhos, porque eles não fizeram nada para merecerem ser órfãos? Não sei ao certo se vocês têm consciência da frequência com que cantam e pregam acerca da “assombrosa graça”. Nunca deixem de o fazer. Eu sou testemunha do seu poder. E se eu o entendi bem, “Amazing grace” [Assombrosa graça] diz que não importa onde se começa; o que importa é aonde o amor de Deus nos pode levar.»

«Assombrosa graça, quão doce é o som
Que salvou um miserável como eu.
Eu estive perdido, mas agora fui encontrado,
Era cego, mas agora vejo.»

Graça é apenas um sofisticado termo teológico que traduz o amor salvífico de Deus. É a isso que se refere a nossa preparação para o Natal. Que este Advento nos permita perceber de novo que os sinais de Deus raramente chegam em caixinhas perfeitas e que, através da assombrosa graça, devemos esperar o inesperado no fim da nossa caminhada.



 

SNPC
Publicado em 24.11.2017

 

Título: De que estamos à espera? - Procurando o sentido do Advento e do Natal
Autor: Richard Leonard
Editora: Paulinas
Páginas: 152
Preço: 10,90 €
ISBN: 978-989-673-617-0

 

 
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