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De Job, a Jesus: Natal, génese e prova do bem

De Job, a Jesus: Natal, génese e prova do bem

Imagem "Natividade" | Jacopo Torriti | 1296 | Basílica de Santa Maria Maior, Roma, Itália

Logo no início do Livro do Génesis, quando cria lenta, amorosa e deliciosamente o mundo, Deus, no fim de cada jornada em que do nada de tudo faz toda a realidade, mesmo a do possível, proclama que o que acabou de criar é bom. Tudo é bom, mesmo a possibilidade do mal, sem o que a criatura humana não pode, como tal, ser, como possível livre, não como coisa de mecânica felicidade e mecânica bondade própria.

O bem é este absoluto de positividade ontológica, que só recebe o seu real sentido quando comparado não com qualquer outro bem, mas com o que seria a total ausência de bem, o nada. A bondade ontológica do mundo, o seu absoluto de positividade ontológica, isso é a prova de que o nada não é, de que o mal em sentido ontológico não é.

Mas não o mal, derivado, que é o mal ético, em sua realidade propriamente ética e também política.

O mal é sempre o lapso entre o melhor bem possível para a ação de cada ser humano e o que dessa ação resulta – podendo, assim, ser nulo (é o que acreditamos de Maria). Não tem realidade ontológica própria, mas tem consequências ontológicas, como menorização efetiva de um bem possível, assim irrealizado.

Não diz, sequer, respeito à mágica intenção, irrelevante do ponto de vista do absoluto do ato possível relativamente ao ato realizado. O que conta é o bem feito, não se tal bem foi feito de forma intencional ou não. A intenção não passa de desculpa para a irresgatabilidade do mal feito ou de vaidade para o bem feito.

Reforçamos: é irrelevante ontologicamente; e é ontologicamente que tudo se joga em termos do bem como absoluto da positividade ontológica; mormente no que à ação humana diz respeito, pois é a única que não depende em absoluto de algoritmos de inflexível combinatória.

Supomos sabida a história do falhanço humano do casal primeiro. No entanto, a humanidade continuou, não foi aniquilada; foi poupada e deixada livre de se construir e consigo o mundo, em ato poético de aquisição de positividade ontológica, tanta quanto a sua capacidade em ato permitisse.

Não foi brilhante tal história, até que um certo homem se fez poema de bondade, precisamente aos olhos de Deus, semelhante a Deus como agente de bem: pôr em ato o absoluto do bem na sua diferença onto-eretora própria é o mesmo em Deus e no ser humano, o bem, em seu absoluto, não conhece graus.

E Deus, que gosta de proclamar ao mundo o que é bom, manifesta a bondade desse homem, de seu nome Job.

Mas o mundo, diferente de Job no bem, pela voz do Satã, põe em causa a bondade de Job; isto é, põe em causa a bondade de Deus que acabou de proclamar a bondade de Job. E Deus, espantosamente, deixa que Job e ele próprio sejam testados. O teste assume, longamente, a forma de fidelidade ou infidelidade ao sentido do absoluto do bem.

Depois de perder todos os bens exteriores, todos os bens interiores, menos a vida, toda a fidelidade – aparente – dos seres humanos, mas também de Deus – aparentemente –, Job permanece fiel ao bem em si, que o mesmo é dizer, permanece fiel a esse que tal bem em si pôs, Deus. E age assim, mesmo quando Deus se lhe manifesta não como o criador bondoso, mas como imperador da criação, prepotente e arrogante, gabando-se da sua infinita força perante a fragilidade da criatura.

Job mantém-se fiel. Deus, vencida a prova, indesmentivelmente – já nada mais há que seja possível testar – retoma a sua manifestação como Deus bom e do bem.

Pelo sofrimento e fidelidade da criatura se prova a bondade da criação e do criador. Não há outro modo possível.

Mas o mundo não quer saber de Job, isto é, do Deus de bem, prefere a bestialidade dos homens e os deuses feitos à imagem e semelhança destes últimos.

Já não há mais Job narrativo que possa servir, pois um segundo Job seria anedótico, ridículo e, com ele, o Deus que representasse.

Para que o que se joeirou em Job possa ser real, o próprio Deus tem de vir ao mundo, em pessoa. Obrigação divina? Certamente, como fidelidade ao bem que se é. Quando Deus vem ao mundo, já não é Deus que é modelo de Job, é Job que é modelo de Deus: o Deus próximo, de carne, perfeito em toda a possibilidade humana; perfeito como possível fiel ao bem que é.

Mas não há magia. Há a maravilha do possível das mediações. E, para ser de carne, é necessário carne de que se seja.

É o momento em que Deus, para vir ao mundo de forma digna de Deus e não de uma anedota, pede licença a uma menina. O Espírito de Deus, Deus como Espírito, infinito algoritmo em ato, informa a carne desta moça e faz-se carne nesta moça. ADN divino e humano; forma divina e humana; espírito divino, mas humano; carne humana, mas divina.

Eis o natal do Natal, que também o tem.

E, depois, eis o Natal em que Jesus é parido pela Mulher Maria como supremo dom de Deus para o mundo.

É apenas este o Natal que se celebra.

Mas é pena, porque se deveria celebrar o Natal do mundo, o da criação; o Natal da fidelidade, o do encontro de Deus e de Job; e, então, por fim, o Natal de Jesus, nascimento culminante, que coroa todos os nascimentos.

Como provamos, como saboreamos o absoluto do bem neste Natal? Como Deus, Job e Maria, percebendo o absoluto do bem presente em tudo, mesmo no Satã, ou somos como este, sempre incapazes de olhar o bem, olhando que estamos o nosso invejoso umbigo?



 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Publicado em 18.12.2017

 

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