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Da poesia ao mistério divino: O itinerário mistagógico dos hinos do Apocalipse

O caminho da poesia ao mistério divino é possível de perceber em diversos autores que nos arrebatam com os seus textos provocantes ao sublime. Não seria diferente com textos bíblicos tidos, pela tradição judaica e cristã, como sagrados, portanto, que apresentam Deus. Contudo, leituras tendenciosas e fundamentalistas desses textos ofuscam a sua beleza enquanto obra literária.

O livro do Apocalipse é uma dessas obras vítimas de muitas interpretações deturpadas que, ao invés de gerar encantamento, causam horror e medo para os leitores e ouvintes. Entretanto, a mensagem dessa narrativa culmina com esperança e suscita ânimo para quem deseja apreciar o texto. Confirmamos essa suposição tomando os hinos desse livro, que são peças poéticas, e percebendo a imagem de Deus que eles transmitem.

Ao contrário de uma imagem de Deus terrível e punitivo, deparamo-nos com um mysterium tremendum et fascinans. Um convite para uma experiência de poesia e encontro com o mistério divino.

Com a observação da posição dos hinos na narrativa e a análise dos textos, notamos um papel de síntese do enredo relatado. Os hinos emolduram os episódios e servem de transição de uma cena para outra. Eles retomam e celebram os eventos de forma doxológica [palavra de glória, nde] e antifonal, consolidando o drama narrado e relacionando um episódio ao outro. Por conseguinte, devido a tal função, os hinos portam consigo uma síntese da imagem de Deus presente no Apocalipse e apresenta-o mistagogicamente [mistagogia, tudo o que ajuda a conduzir ao mistério, nde].



O leitor-ouvinte passa da reverência a Deus e ao Cordeiro, por meio dos diversos atributos, para a celebração da ação divina que ocorre na experiência histórica dos primeiros cristãos



O Apocalipse dispõe a narrativa de forma a favorecer o leitor a penetrar no arcano de Deus e do seu Cristo por meio do Espírito Santo. Aos poucos, conforme o enredo, o mistério desvela-se através dos factos, culminando com a visão final de um novo céu e uma nova terra (21,1).

O primeiro hino (4,8-11) apresenta Deus identificando-o a partir de atribuições da tradição judaica. A reação daqueles que o contemplam é de “prostrar-se” e “lançar as suas coroas” (4,10) como atos de reverência e adoração àquele que está sentado no trono (4,9; 5,1; 7,13; 6,16; 7,15; 21,5). A metáfora do “trono” encontra-se na tradição profética e em muitos apocalipses judaicos para designar a dimensão transcendente de Deus (1Rs 22,19-23; Is 6; Ez 1; Dn 7,9-10; 1Hen 14; 60,1-6; 71,2; 2Hen 20,1; Ap Abraão 15-18). Essa imagem era comum nas culturas do oriente antigo (sumérios, acádios, hititas, ugaríticos e egípcios) e objeto de adoração. Mesmo havendo a identificação com o Deus do Antigo Testamento, a nomeação divina permanece insuficiente e aquele que é visto permanece inominável na esfera celeste.

O segundo hino (5,9-14) apresenta o Cordeiro em relação com aquele que está sobre o trono. A identificação da imagem do Cordeiro, possível alusão ao servo de Is 53, com Jesus Cristo, realiza-se com o desenrolar do evento. O livro do Apocalipse não repete a história de Jesus que os evangelhos contaram, mas refere-se à morte e ressurreição de Jesus falando do “Cordeiro imolado e de pé” (5,6), por isso, digno da mesma reverência de Deus. Além disso, apresenta-o em comunhão com Deus, aquele que está sentado sobre o trono, e relacionado à comunidade.



Além de testemunhar a vida dos cristãos naquele tempo, os hinos provocam os leitores de hoje para semelhante testemunho de prática da fé em Cristo, inserido no contexto sociocultural



Em 7,10-12, quando os factos começam a acontecer, introduz-se o tema da salvação pertencente a Deus e ao Cordeiro (7,10). Os atributos usados para Deus e para o Cordeiro nos dois hinos anteriores repetem-se com o acréscimo de “dar graças” (7,12). O leitor-ouvinte atenta-se para a ação divina, doravante caracterizada como “salvação” (7,10; 12,10; 19,1): vocábulo que caracteriza como os hinos assimilam o que acontece na narrativa do livro do Apocalipse (7,10; 12,10; 19,1). O hino passa das atribuições a Deus e ao Cordeiro para o anúncio da salvação que ocupará o centro do Apocalipse. Retomam-se as descrições anteriores e anuncia-se a realização da salvação.

Os hinos 11,15-18 e 12,10-12 situam-se em torno do julgamento de Deus. O primeiro (11,15-18) comunica que o reino do mundo tornou-se do Senhor e do seu Cristo, então, ele começará o seu reinado (11,15). A semântica do texto muda para prevalências dos termos “reinar” (ocorrido em 5,10, mas repetido em 11,15.17; 19,6; 20,4.6; 22,5) e “reino” (ocorrido em 1,6.7, mas repetido em 11,15; 12,10; 16,10; 17,12.17.18). Também ocorrem com mais frequência o verbo “julgar” (6,10; 11,18; 16,5; 18,8.20; 19,2.11; 20,12.13), os substantivos: “julgamento” (17,1; 18,20; 20,4) e “juízo” (15,4; 19,8), e o adjetivo “justo” (15,3; 16,5.7; 19,2; 22,11). A adoração continua, mas passa-se de atribuições a Deus para a contemplação do seu julgamento. A designação do Cordeiro como Cristo torna-se mais frequente (11,15; 12,10; 20,4.6). O leitor-ouvinte experimenta a ação divina mais do que expressa os adjetivos para Deus. O que antes era atribuição, agora passa a ser evento narrado.

O hino 12,10-12 declara o início da salvação (julgamento) (12,10). Deus e Cristo exercem a sua autoridade e expulsam o acusador dos cristãos. Passa-se a dar atenção à comunidade perseguida e resistente que testemunha a fé em Cristo (12,11). A vitória realiza-se “por meio” e “na” comunidade de fé. Logo, inicia-se o júbilo porque o Diabo foi expulso. O hino central do Apocalipse não se dirige mais a Deus para reverenciá-lo, mas para os leitores-ouvintes, a fim de proclamar a realização da ação divina (salvação).



A narrativa embeleza-se com as pausas poéticas dos hinos. Os eventos são recordados, celebrados, e assimilados pela comunidade que formou esse texto e por quem lê e interpreta a atualidade



Por conseguinte, os hinos celebram a vitória de Deus utilizando a imagem do soberano que começa efetivamente a exercer o seu reinado. Por isso, enaltecem-se as obras maravilhosas de Deus (15,3-4). À semelhança da libertação do povo de Israel do Egito, os cristãos podem experimentar a liberdade que acontece devido à manifestação dos juízos divinos (15,4). Ao mesmo tempo, as nações são convidadas à adoração conjuntamente com os cristãos, pois apenas Deus é santo (15,4). O mistério de Deus revelado destina-se a todos e não a um grupo exclusivo.

A celebração do julgamento de Deus continua juntamente com o testemunho da comunidade cristã (16,5-7). O hino assume a descrição comum de Deus no Apocalipse (o que é e o que era) e soma a este os títulos apresentados em 15,3 (justo e santo), justificando que ele julgou todas as coisas. A atenção também se dirige aos cristãos que derramaram o próprio sangue e são chamados de dignos (16,6), assim como Deus e o Cordeiro (4,11; 5,9.12). Mais uma vez, enaltecem-se os verdadeiros e justos julgamentos de Deus (16,7), da mesma forma que seus caminhos em 15,4. Confirma-se a continuação da celebração do julgamento divino.

O fechamento hínico do Apocalipse ocorre em 19,1-8 com uma retomada dos temas, termos, personagens e atributos já dirigidos a Deus e ao Cordeiro nos outros hinos. A cena recompõe-se para que o leitor-ouvinte entre nesse reinado de Deus e cante o louvor a Deus por causa da condenação da prostituta e da vingança do sangue dos servos (19,2). O júbilo caracteriza esse hino: Aleluia (19,1); louvai ao Senhor (19,5); regozijemo-nos, alegremo-nos e glorifiquemos (19,5). Assim, conduz-se quem acolhe esse “desvelamento” para uma comunhão com Deus por meio do Cordeiro.



A tessitura das palavras, a organização dessas peças na estrutura literária do livro e a sequência dos eventos e das aclamações sugerem um Deus fascinante que poetas e místicos de diferentes épocas experimentaram



Passo a passo, quem se aproxima do Apocalipse penetra no mistério de Deus. O início acontece com a apresentação da sala do trono, onde Deus está sentado (4,8-11) e o Cordeiro imolado de pé (5,9-14). Então, proclama-se que a salvação pertence a Deus e ao Cordeiro (7,10-12). Logo, inicia-se o reinado de Deus e do seu Cristo (11,15-18) e a realização da salvação (12,10-12), que consistem no julgamento dos opressores dos cristãos. Finalmente, celebram-se as obras maravilhosas do Senhor (15,3-4) e os seus verdadeiros e justos julgamentos (16,5-7), cantando o “aleluia” final a caminho das núpcias com o Cordeiro (19,1-8).

Os hinos trazem consigo a síntese do enredo e a Teologia do Apocalipse. Os seres “assombrados” com o mistério experimentam e assistem à execução do julgamento. As expressões de louvor comunicam o arrebatamento e o gozo espiritual da relação com a ação divina por meio do culto e na própria história do povo. Por isso, a mescla, no enredo, de atos e termos de cunho cultual e político.

O leitor-ouvinte passa da reverência a Deus e ao Cordeiro, por meio dos diversos atributos, para a celebração da ação divina que ocorre na experiência histórica dos primeiros cristãos. A vida real daquelas pessoas era considerada e celebradas nesses hinos, reverenciando a atuação divina em Jesus Cristo. A experiência de garantia da vitória confortava os cristãos imersos naquele contexto sociocultural. Os hinos podem ser considerados uma expressão do testemunho da fé em Cristo e estímulo para aqueles que têm acesso àquela mensagem que persevere ante as adversidades.



Embora haja, no Apocalipse, um anúncio de final, há uma celebração para ele e o anseio de que se realize, pois esse fim representa essa experiência com o inefável apresentado na poesia dos hinos e o início de uma nova realidade



Portanto, além de testemunhar a vida dos cristãos naquele tempo, os hinos provocam os leitores de hoje para semelhante testemunho de prática da fé em Cristo, inserido no contexto sociocultural.

Conforme os nossos textos, Deus é para quem se dirigem as reverências e honras, causando um temor religioso ou um “sentimento do estado de criatura”, conforme a descrição de Rudolf Otto para designar o ser humano diante do numinoso [divino, nde]. Somos conduzidos para diante de um mysterium tremendum. Logo, Deus não é um terror, nem horrível, mas fascinante e admirável, que exerce uma atração no ser humano.

Passamos da poesia à experiência do mistério divino tremendum et fascinans. A narrativa embeleza-se com as pausas poéticas dos hinos. Os eventos são recordados, celebrados, e assimilados pela comunidade que formou esse texto e por quem lê e interpreta a atualidade. Deus faz-se presente na cedência desses hinos que faz o ser humano participante e em comunhão com sua justiça realizável na história.

A tessitura das palavras, a organização dessas peças na estrutura literária do livro e a sequência dos eventos e das aclamações sugerem um Deus fascinante que poetas e místicos de diferentes épocas experimentaram. Assim aconteceu com o autor do Apocalipse e pode ocorrer também aos leitores de outrora.

Embora haja, no Apocalipse, um anúncio de final, há uma celebração para ele e o anseio de que se realize, pois esse fim representa essa experiência com o inefável apresentado na poesia dos hinos e o início de uma nova realidade na qual Deus “enxugará toda lágrima, não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor” (21,4).


 

P. Marcus Mareano
Imagem: "Apocalipse de Douce" (det.) | C. 1272 | Bodleian Library, Oxford, Reino Unido
Publicado em 12.10.2018

 

 
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