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Arte e espiritualidade: Da morte à ressurreição, no deserto, entre o crânio e o lagarto

Pierre Puvis de Chavannes (1824-1898) era filho de um engenheiro mineiro e a sua família ostentava origens nobres, embora pouco conhecidas pela maioria das pessoas, teve muito sucesso no final do século XIX. A sua tela "Maria Madalena no deserto" funda, com notável antecipação, a coloração de De Chirico e a metafísica de Carlo Carrà. Olhava para esta obra no dia a seguir à Páscoa, quando o Evangelho propõe as mulheres como arautos da Boa Nova que em dois mil anos mudou o mundo.

Maria Madalena está vestida de vermelho: memória de um passado tempestuoso, segundo a tradição, mas também sinal da sua alma apaixonada pelo Mestre e pela Verdade que a tornou fiel do Calvário à cruz, até ao sepulcro vigiado pelos guardas. Agora está rodeada pelo deserto, lugar onde ressoa a Palavra, mas também lugar onde falta a água da Torá. Para lá se retirou a fim de orar àquele que, apenas Ele, pode salvar o ser humano da sua incredulidade.

Tal deserto é muito semelhante a este nosso mundo. Apesar dos dois mil anos que nos separam da ressurreição, apesar do anúncio perene da Igreja, o mundo apresenta às vezes os sinais de uma não redenção; de uma decadência do humano cada vez mais evidente; de uma religiosidade que se mede mais a partir de um sistema de pensamento do que pela lei do amor e do dom de si. Estamos também nós no nosso deserto, entre o crânio que ela segura na mão esquerda como um troféu e um lagarto que, aos seus pés, está placidamente imóvel, com o olhar voltado para o céu.

O crânio é o "memento mori", uma meditação contínua sobre a morte e sobre a decomposição da beleza ainda prepotentemente presente no jovem corpo de Maria Madalena. Uma meditação que, religiosamente falando, se afastou do nosso quotidiano. Hoje é cada vez mais raro os sacerdotes pregarem do púlpito os Novíssimos, advertindo para a chegada repentina da morte, que deve encontrar-nos em estado de graça.



Proclamar que Cristo ressuscitou, hoje, é como gritar no deserto. Uma voz que cai no vazio, mas esta lá e é capaz de mudar a vida de quem a ouve. É belo, então, que o anúncio cristão seja confiado às mulheres



O que não fazem os padres, fazem os meios de comunicação. São eles, agora, a consciência crítica da sociedade ocidental (e não). São eles que diariamente nos falam da morte, a propósito e a despropósito, como no recente caso da estação espacial chinesa que se desintegrou no Pacífico. Muitos diários alertaram: Atenção, problemas à vista! Mas depois de desaparecido o perigo ninguém admitiu o erro, o alarmismo imprudente ou, pior, ninguém agradeceu a Deus pelo perigo que não se concretizou. Tudo nos é devido, e o deserto da fé cresce desmesuradamente, enquanto que os "memento mori" de certa fé laicista imperam sem filtro nos nossos ecrãs televisivos.

O "memento mori" de Maria Madalena, ao contrário, é pleno esperança, livre de alarmismos apocalípticos. Demonstra-o aquele pequeno lagarto que está na rocha junto a ela. O lagarto não teme olhar para a luz e orienta-se sempre para o sol. Na arte, este réptil é o tímido sinal da ressurreição. Aqui, enquanto que o altissonante crânio é elevado, realçado, a ressurreição adere à terra, humilde e escapando aos olhares apressados.

Cristo ressuscitou! Este anúncio permite-nos olhar a morte com dignidade e força. Proclamar que Cristo ressuscitou, hoje, é como gritar no deserto. Uma voz que cai no vazio, mas esta lá e é capaz de mudar a vida de quem a ouve. É belo, então, que o anúncio cristão seja confiado às mulheres: no seu útero, tão semelhante à terra, consuma-se o triunfo da vida, que cada ser humano aprende experiencialmente que além da dor do parto há uma grande promessa de vida e felicidade.



Imagem "Maria Madalena no deserto" | Pierre Puvis de Chavannes | 1870 | Städel Museum, Frankfurt, Alemanha

 

Gloria Riva
In Avvenire
Trad.: SNPC
Publicado em 18.04.2018

 

 
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