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Da escritura pictural de um mantra visual

Imagem Enrique Mirones Díez | D.R.

Da escritura pictural de um mantra visual

«Sou um mantra visual»! Esta é a pictórica expressão autobiográfica do monge-pintor cisterciense Enrique Mirones Díez. As suas obras encontram-se expostas no corredor superior do claustro dos peregrinos do caminho de Santiago e no refeitório dos hóspedes do mosteiro de Santa Maria de Sobrado e em diversos outros espaços da casa. A pintura de Mirones é uma suspensão da respiração do viajante peregrino ou hóspede, do próprio espaço-tempo, para entrarmos numa outra dimensão da vida. Ela convoca poeticamente a vida do passageiro que por ali passa para a dança do imprevisto. A arte deste monge-pintor é uma fenda aberta no quotidiano.

Zona fronteiriça de passos e passagens, fluídos e movimentados, a sua arte habita tensa e ambivalentemente as margens, sem se decidir facilmente por um ou por outro lado. A criatividade de Mirones expressa o melhor que a arte contemporânea pode dar a pensar e a morar outramente o mundo. Os seus quadros são como corpos vivenciados que suspendem a atitude natural do cientista e do homem neorrealista ou até da crendice devocionista, para os reescrever picturalmente como um poeta mendigo. O monge-pintor não quer ver tudo a nu, o que lá está, ou descrever a realidade tout court, mas antes escrever e pintar o que lá não está para que se possa ver o começo matinal do mundo. Como diria o fenomenólogo Michel Henry, de sensibilidade fina à artes, Mirones, como Kandinsky e outros afins, faz “ver o invisível”, porque ela é a expressão de um sujeito, da vida propriamente, como fenómeno originário.

Só num mosteiro aberto à vida se poderia integrar e incorporar o contemporâneo na memória histórica de uma tradição monacal, sem a ferir nem anular, nem hipotecar a memória futura de uma herança espiritual milenar. Em Sobrado, se reúne a mais alta tradição icónica e o não-figurativo do contemporâneo, como dois pulmões artísticos que fazem respirar os seus habitantes. Entrar nesta tensão habitacional, é respirar o húmus de uma alta espiritualidade teologal aliada a uma alta antropologia da hospitalidade fraterna e cósmica. Nenhuma espiritualidade ou arte será viável sem o despojamento absoluto de si, como viático para a eternidade do tempo, para receber desprendidamente uma O/outrocidade.

Nisto reside toda a diferença relativamente ao uso da arte em alguns outros lugares eclesiais, mais como estética e eficácia do que experiência habitacional da puerilidade evangélica; mais como afirmação de um poder do que da presença cruciforme de Deus no meio das vítimas do neoliberalismo económico travestido de humanismo. Só a arte autêntica potencia esta atmosfera sapiencial como liberação do tempo e da memória, do corpo e do espírito, do finito e do infinito, da fragilidade e da força, da angústia e da esperança, do estacional e do passional. O verdadeiro artista como o verdadeiro poeta, filósofo ou teólogo, é e será sempre alguém pronto a flamejar-nos interiormente, para além do consumo bélico imediato, despojado de toda a vanglória. Outrora, a aclamação de um grande pensador, escritor ou artista dava-se pós-morte, ao ponto de rejeitarem em vida todo o género de reconhecimentos. Eram verdadeiros eremitas e profetas no mundo! Muito pouco resta dessa autenticidade…

Se ainda há livros que nos curam, também há pinturas que salvam a nossa imaginação, que nos acompanham permanentemente, que nos obrigam a sair do mundo do “eu”, para entrarmos narrativamente na carne da história e na vida autêntica das relações inter-humanas. A pintura de Mirones é como um mantra recitativo, de mosaicos fragmentados, recompostos por um fio linear que se desvela e se espalha subtil e consistentemente ao longo da tela; como uma gota de sangue martirial que flui numa longitude descendente. A sua composição pictural faz-se de interstícios místicos abertos à complexidade dos fenómenos existenciais, à noite do não-experienciável absolutamente, para o autêntico, onde a fragilidade é assumida em toda a sua potencialidade orgânico-espiritual. A Mirones se poderia aplicar a afirmação assertiva do fenomenólogo Jan Hendrik van den Berg: «Os poetas e os pintores são fenomenólogos natos» (citado por Juahn Pallasmaa, em Habitar). Fenomenologia pictural, sem dúvida, a arte de Mirones. De consentir o invisível no visível, de mostração evocativa que torna visível algo mais que a simples aparência, e não de demonstração metafísica a priori da disposição ordenada das coisas, sem lugar para o imprevisto ou para o provisional, para a fenda cruciforme que nos trespassa interiormente.

Para o filósofo Ortega y Gasset, como descreve no seu livro A desumanização da arte e outros ensaios de estética, há uma passagem epocal na arte, que vai da representação, que é no fundo uma desumanização ou descarnação do real, à expressão de si como maneira de ser-no-mundo, como aquilo que dá sentido à existência. Da essencialidade à vivencialidade, da espacialidade objetiva perspetivística e geométrica à qualidade espacial da interioridade em profundidade. Afirma o filósofo: «Passou‑se de pintar as coisas a pintar as ideias: o artista cegou‑se perante o mundo exterior e virou a pupila para as paisagens interiores e subjetivas». Não será isto concomitante com a metáfora da cegueira interior neotestamentária, não obstante a plena visão física exterior dos interlocutores devotos, que os impede verdadeiramente de olhar bem-aventuradamente a vida do humano? A arte de Mirones é contemporânea, de uma ética invisível. É um gesto apelativo à reconciliação do humano em toda a sua amplitude, tecida mais por invisuabilidades do que por visibilidades. Ela convoca-nos para um exercício da memoria passionis arriscada, de busca espiritual intensa, muito para além daquilo que se mostra, dos novos “pobres da terra”. É um apelo a imaginar de um modo novo o rosto do humano, onde a travessia dos vários desertos é uma condição fundamental para essa busca da nossa comum humanidade. A sua pintura implica que nos tornemos cegos às fáceis evidências do imediato e do objetivismo.

O monge-pintor convida-nos a um afastamento espacial interior para ver tanto em profundidade como em amplitude. Para ver com outros olhos a vastidão do mundo, simpática e bem-aventuradamente. É um convite à suspensão das nossas certezas e prejuízos para entrarmos de coração sincero, para sairmos renascidos dessa moração espiritual pictural que nos convoca corporal e totalmente para uma aprendizagem visual, para um outro modo de sermos humanidade. A arte de Enrique Mirones é, no fundo, o apelo iluminado de um “ousa ver-te” na teodrámatica do existencial (é extraordinária a pintura do talho cruciforme sob azul tecido com arame onde a negrura desse buraco negro se transfigura em nova esperança para os crucificados da história ou para todos aqueles que morrem sem serem narrados). Uma teodrámatica invisível ou indicial que evoca subtilmente uma visitação do crucificado como luminosidade no fundo do abismo da nossa existência, como reabilitação do dom originário perdido, de nos reconhecermos primeiramente amados por a/Alguém, que nos visita infinitamente como “sol nascente” no banal quotidiano.

É o próprio monge-pintor a dizer-nos que, tanto na récita mantra ou como nas jaculatórias cristãs, procura «concentrar o pensamento e que a mente não divague para alcançar a pacificação do espírito» (cfr. obra “Meditaciones”). E, por isso, como pintura exodal, térrea e húmida, ele foi «criando um tecido de cores que é como ir tecendo a vida em traços, é o mistério da vida de cada um». Na sua pintura sobressai não a saturação excessiva das cores ou da luminosidade da luz, mas o poder dos objetos quotidianos, a sua capacidade de os transfigurar e mostrar em toda a sua potência. A arte de Mirones é uma espécie de «escritura translúcida» ou de «escritura barrenta» que deixa ver a visitação do infinito no finito. É uma arte que olha para além das aparências, um olhar em profundidade, de alguém que anseia por existir sempre de modo novo, sem deixar de ser ontologicamente quem é, um originário ser-para e um ser-com.

A sua crítica ao estado atual da arte praticada na Igreja é pertinente e audaz. Segundo Mirones, a «arte na Igreja virou aberrante, light e Kitsch; alimenta o sentimental e não o sapiencial e experiencial». Por isso, escreve Mirones, o «monge-pintor tem de ser um profeta que grita no seu deserto, um ser que assume a sua solidão para mostrar desinteressadamente as entranhas próprias da vida na qual Deus se encarnou porque descobriu que a expressão artística é tão essencial para ele e para os demais como a comida e a bebida, e que é um caminho que – apesar dos que muitos acreditam – é duro e solitário, já que põe continuamente o seu autor no fio da navalha, enfrentando a sua própria realidade e fazendo-o reconhecer que o mistério envolve a vida humana e que muitas vezes só resta o silêncio, a esperança, a prostração e o abandono a uma realidade que nunca terminaremos de compreender, e que a única que nos resta é oferecer-lhe uma confiança incondicional, apesar do muitas vezes vemos e não sabemos como responder ou como assimilar».

Aplicando o estilo contemporâneo e o abstrato concreto à sua criação artística, sensível ao fragmento e aos estilhaços da existência humana, ao movimento interior da procura humana do sentido profundo da vida, aberta às múltiplas e conflituosas interpretações possíveis, Mirones dá continuidade à grande tradição dos monges-pintores. Como ele escrevera algures, aqueles «anunciavam a presença do divino nas pessoas ou a sacralidade do quotidiano» (Fra Angélico ou Giotto). A arte autêntica é a possibilidade epifánica de um “abismo luzente” (Christian Wiman) no seio da angústia solitária do humano contemporâneo. Nesta mesma linha de monges-pintores, de ontem e de hoje, se insere a linguagem vitral abstrata, pintura não figurativa mas transfigurante, do dominicano sul-coreano Kim En Joong (1940), tão atento aos múltiplos modos da abertura humana à transcendência e à sua intersignificação mútua. Ainda que o contexto histórico-cultural seja outro, pois a arte deixou de ser predominantemente sacra ou de função litúrgica, o pintor cisterciense e dominicano ombreiam com a mais profunda criação artística contemporânea. Isso acontece porque não pretendem ser o bastião de um passado nostálgico, ou até de ser uma arte cristã, mas de assumir a fenda que trespassa o coração humano para o abrir à possibilidade da transfiguração.

A arte de Mirones ultrapassa o âmbito geográfico do seu mosteiro. Atravessa-nos, dá a ver a nossa comum humanidade, feita de buscas e perdas, encontros e desencontros, decisões e indecisões, amores e desilusões… Foi precisamente pelo cultivo de uma linguagem cosmopolita, aberta à diferença hospedal do próximo, que o monge-artista foi convidado, em 2009, a expor as suas “Meditaciones”, na galeria Del Sol St, na cidade espanhola de Santander, no seio do mundo secular! De um secular atraído pela busca do espiritual profundo, «à procura do tempo perdido» (M. Proust) «do homem sem qualidades» (R. Musil), à espreita de alguém que testemunhe gratuita e despojadamente no deserto rumoroso da urbanidade cosmopolita?

A sua arte é uma invocação do corpo e do sangue da humanidade ferida (cfr. o belíssimo quadro de duas margens de coloração negra e vermelha com um rio fronteiriço entre essas margens, exposto no refeitório do mosteiro), o humano em toda a sua contradição e contração. O pintor-monge procura expressar com a máxima autenticidade – não evitando o peso das suas própria dores ou dúvidas – sem a preocupação de preencher lucidamente a opacidade do objeto, de o saturar de transparência, como o faz a «sociedade do positivo ou da transparência» (Byung-Chul Han), a qual pretender ocultar a negatividade (dor, morte, sofrimento, fealdade, velhice…) ou retardar nevroticamente o seu aparecimento. Da agonia do Eros à agonia do pensamento, à agonia existencial total!

Isto leva-nos à pergunta que a experiência estética nos coloca sempre: «O que é o belo?» Sem dúvida, que «a arte traz ao mundo humano beleza». Mas qual beleza? Escreve Mirones: «A desgraça da Igreja moderna é que durante demasiado tempo acabou por confundir a beleza com o tranquilizador ou o bonito, com o sentimental; acabou por fazer da sua iconografia e liturgia algo afastado dos problemas, dúvidas, inseguridades, sofrimentos e desejos profundos da humanidade. Deixou de falar do profundo da pessoa, para provocar a “emoção fácil” ou o “calorzito do coração”. Contudo, o belo, o significativo, o representativo da alma humana e do devir da história não tem que ser bonito; e muito menos tranquilizador e sentimental. A beleza está noutra coisa: no Autêntico”.

A arte contemporânea autêntica, pelo menos no modo como aqui a pensamos, faz do abstrato a mais singular carnação, de um distanciamento próximo de transfiguração do objetal banal em algo de expressivo. Em sua abstração conceptual, a pintura moderno-contemporânea é a concreção da dureza do quotidiano e da sua possibilidade de ser transfigurada por uma interpelação. Não anula a ambivalência do real, mas habita-a, para a questionar e a partir daí suscitar nela um ato de coragem, de abertura ao mistério que nos abarca. Não lhe impõe um sentido extrinsecamente, mas encontra-o no seu interior (como a luz do impressionismo por contraste com a luz barroca), de tal modo que o estilo, a maneira de dar a ver, é já o seu conteúdo, e não o seu adorno ou veículo instrumental. Esta arte apresenta-se como um “rasgo”, um corte fino, que permite a entrada do olhar e a suspensão da respiração diante do drama que ali se evoca.

A pintura de Mirones, tal como a arte contemporânea autêntica, implica e envolve o vivido profundo do humano, a sua vulnerabilidade ontológica. Contrariamente a uma certa arte comercial de consumo emocional, mesmo de índole sacra ou até litúrgica hodierna, que anestesia e paralisa o espectador frágil num belo ideal, incapaz de assumir a fenda que habita a nossa comum corporeidade. A imaginação pictural do monge-pintor faz-nos entrar no rasgo sombrio dos “buracos negros” e nos fragmentos das pegadas inscritas no deserto, indiciando a presença de algo/alguém para além do que é possível aos nossos olhos saturados ver. Mirones procura dessaturar a saturação objetal, para ver e acreditar com outros olhos, mesmo se isso implica uma rutura a ser transfigurada, como ponto de passagem para uma nova visão existencial e espiritual do existente. Sem essa rutura, nada de novo se instaura!

Não poderia deixar de o expressar em primeira pessoa. Do tempo lá habitado, em passagem, como promessa de retorno, sempre que passava no corredor da hospedaria ou tomava o sóbrio alimento no refeitório dos hóspedes, sentia-as como parte de mim; fazia corpo com o corpo do quadro e do que aí se evocava. Magistral fora um diálogo com outros comensais em torno destas evocações pictóricas, sobretudo com uma mulher religiosamente incrédula, ali de passagem, ferida por causa da prepotência clericalista! Poderia a arte de Mirones curá-la dessa ferida, deixando espaço para o seu pensamento e para a sua imaginação, para um outro modo de viver a fé latente em seu corpo, muito para além de uma pretensa pertença de cartório?

Do quarto contíguo à hospedaria sentia um apelo constante que me comovia a revisitá-las visitando-me, como questionamento. Estranha empatia, mas autêntica! Revia-me aí, sentia a sua frugalidade como minha, as suas dúvidas e desânimos como minhas, a sua força expressiva como a possibilidade de um êxtase íntimo aberto à alteridade que se faz presente em cada uma das suas evocações corporais da vida. A Mirones a gratidão por este tempo de graça espiritual das suas evocações pictóricas que nos convocam para a cura das feridas abertas pelo turbilhão das águas da inquietude pulsional das indecisões a advir. Diversamente de outros espaços devotos, e por isso mesmo interiormente proféticas, imersos num dogmatismo obtuso e sórdido ao apelo divino no humano múltiplo, estas comunidades monásticas abertas (Sobrado, Bose, Clerland ou Tamié…) são o que sempre foram: lugares de reserva espiritual, mental e cultural, face às resistências e investidas eclesiásticas e academicistas ao contemporâneo.

Qualquer coisa de novo se produz nesta admiração, é a obra (alteridade), e o vivido do monge-pintor, como uma “personalidade situada” num mundo sensível, que apela à sensibilidade do passageiro, ao devir ser algo de diverso. Esta nova realidade produzida não advém tanto da sensibilidade do sujeito quanto da obra de arte, que suscita o nosso ser sensível para uma intermitência relacional. Não obstante essa primazia do mundo sensível da obra e do autor que nela se desnuda, o viajante também a plenifica e completa. É uma espécie de a priori correlacional afetivo mediante o qual o caminhante humano se relaciona com o ser sensível da obra. Neste corpo-a-corpo densamente expressivo se dá a ressonância tímbrica universal – e aqui reside a verdade e a justiça da beleza – da compassio artística e das várias compassionis crísticas das vítimas da história, como esperança e libertação concretas do domínio das formas visíveis e invisíveis do mal.

Fazendo jus à grande tradição monástica, Mirones, como um mantra visual, vigia e volta a sua atenção para o humano, através de um caminho de autoconhecimento e de amor a Deus, que passa pelo cuidado para com os irmãos e a criação inteira. Sem isso, pelo menos nele, a pintura perderia toda a sua força e rugosidade, para ser apenas veículo polido e liso do consumo frenético do “like” momentâneo sem comemoração e sem recordação. De um outro modo, o escritor americano Hermann Melville, no seu livro Bartleby, o Escrivão, também nos fala da importância que as cartas da secção do esquecimento teriam para salvar uma vida se fossem recebidas pelo seu destinatário. «Um perdão para quem morreu no desespero; uma palavra de esperança para quem morreu sem ela; boas notícias para quem morreu oprimido por calamidades nunca aliviadas. Mensagens da vida, estas cartas correm para a morte.» Se para o artista-escrivão fora o mandamento novo, «sim, foi isso que me salvou», para o monge-pintor, a par desse mandamento novo salvífico, seria também a arte a salvar-nos, o belo autêntico. A arte deste pintor-monge não permite que o objeto mais simples, ou o que de mais humano há, caia no esquecimento e no anonimato dos “likes”, tão admirados por um certo marketing empresarial religioso de inspiração cristã!

A pintura de Mirones entretece-se e entrelaça-se também com a teologia de Karl Rahner, um outro cultivador contemporâneo! Rahner, grande auscultador da experiência da graça quotidiana – dessa presença de uma ausência do infinito no finito, do invisível no visível – escrevia, no seu breve mas profundo livro Cose d’ogni giorno (“Coisas de todos os dias”), que «Aquele que, em quanto ser humano, sabe colher no breve tempo da sua vida o gérmen da eternidade que ele mesmo transporta em si, nota imediatamente que também as pequenas coisas têm profundidades inexprimíveis, são mensageiros de eternidade e são também sempre mais do que parecem». Dar a essas pequenas coisas da quotidianidade uma dimensão teologal, como ato de despojamento absoluto que traz em si o gérmen do Eterno e Inominável, é fazer da sobriedade um ato de potência e de coragem, em tempos de consumação de tudo e de todos.

As peças de Mirones não têm nome. Em grande formato, atentas ao ínfimo pormenor, às formas expressivas, são de uma fina sensibilidade espiritual ancorada na complexidade do humano e do mundo. A sua arte é uma «mística de olhos abertos, de um logos sensível ao tempo e ao sofrimento» (J.B. Metz), de expressões vibrantes no coração pulsante da história. As suas pinturas suspendem a definição, esse ato fechado de circunscrição ou de delimitação por um particularismo, à espera de um viajante que as nomeie e as titule a partir da sua própria existência. Neste ato de livre nomeação, o viajante, peregrino ou hóspede, aberto ao diverso de si, carrega-as consigo, em memória corpórea afetiva e afetante. Para o arquiteto filósofo finlandês Juhanni Pallasma, no seu belo livro Habitar, «a interdependência da identidade e do contexto é tão forte que os psicólogos falam de uma «personalidade situacional». A pintura de Mirones cultiva essa interdependência de identidade e contexto, ao ponto de gerar um evento ou uma nova situação.

Ao apelar ao acolhimento da nudez do outro, ela é uma convocação da vida do viajante que, por instante, ouse levantar os olhos para o alto, de silenciar-se por inteiro, e aí demorar algum tempo, para ser recebido picturalmente. Porque, como diria Oscar Wilde, no seu ensaio Intenções – quatro ensaios sobre estética: «A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida». Por essa via, eventualmente, a vida tornar-se-á arte autêntica, exposta à vulnerabilidade, mas também aberta à força do Espírito, que fará com que sejamos tudo em todos. Portanto, uma criação recriada e renascida das cinzas! A arte de Mirones é espiritual, escritura de si sempre em abertura a alteridades múltiplas, impossível de separar da sua condição existencial de monge. Contudo, incircunscrita a uma única gramática ou tonalidade saturante. A sua arte é cosmopolita, enraizada na simplicidade e autenticidade espiritual da sua humanidade, permitindo-lhe navegar por outros mares e marés, sem medo de hospedar a radical diferença da outrocidade, de quem ali habita ou de quem ali chega e parte. Tanta demoração quanta solidão, eis o princípio fundamental da sua gramática artístico-espiritual.

O anonimato da titulação das suas pinturas é como algumas passagens do Novo Testamento. O uso do artigo indefinido («uma/um», «alguém», «um certo»…) ou a ausência declarada do nome abre espaço para que o leitor (crente ou incrédulo) se incorpore na narrativa e se deixe conduzir pelo narrador. Aquele sentirá aí carnalmente a força do texto em diálogo com o drama da sua própria existência, imaginando que aquela personagem ou situação poderia ser a sua própria situação. Também o viajante que ouse passar os seus limites judicativos, silenciar-se e olhar-se naquela vastidão mântrica, na coloração tímbrica ou disposição cuidada dos objetos, se deixa conduzir invisivelmente pela mão do pintor, por uma alteridade que narra a experiência da graça na vida de cada dia. É o monge-pintor, em sua humanidade, que aí se narra e expõe dramaticamente no ato pictural que nos apresenta, daí a autenticidade daquele ato pictural, condivisível e extensível a outras experiências humanas. Nesta fecunda narração empática ou intercorpórea, entre o corpo da obra, o corpo do narrador-pintor e o corpo do viajante atento, se dá a possibilidade de uma comunhão existencial, a um insight luminoso que nos transcende e leva a crer no poder salvífico da autenticidade espiritual da arte.

A pintura de Mirones evoca também subtilmente a obra de Simon Hantaï (1922-2008), sobretudo as suas obras Peinture (Ėcriture rose, 1958-1959) et À Galla Placidia (1958-1959). Tanto Mirones como Simon Hantaï apresentam uma pintura tecida de palavras que se repetem como uma oração. Uma escritura pictural capaz de concentrar totalmente a pessoa nesse progressivo desvelamento originário, do “Om” (ॐ) corpóreo tímbrico; da brisa suave de Deus no jardim original que ressoa aos nossos ouvidos e nos interpela com uma pergunta; ou ainda do intensíssimo grito: «Eli, Eli, lama sabactâni» (Mt 26,47). Ambos pintores-monges – Hantaï vivia como um eremita urbano –, eles usam elementos subtis que indiciam a presença de uma transcendência, do Verbo que se faz carne, mediante a presença de pequenas cruzes suspensas na imensidão da tela, sempre insuspeitas aos nossos olhos frenéticos e ávidos de evidências e de figurações temáticas. Essas formas ‘cruciformes da beleza que salvará o mundo’ (F. Dostoievski) estão lá precisamente para serem encontradas através de uma procura interior do viajante peregrino que ouse passar e habitar! Tudo isso passará despercebido, se o viajante apenas quiser ver aquilo que deseja, aquilo que já sabe, e não ver-se e abrir-se iconicamente à autenticidade dos elementos picturais que aí se fazem presentes.

A arte de Mirones é uma verdadeira escritura pictórica ou mural, de fios de palavras tecidas e pintadas em recitação, em ajoelhamento kenótico (a fenda como símbolo dessa ferida entreaberta, de uma fenda no corpo do mundo e do humano). Nela os viajantes poderão vivenciar o ‘Verbo sensível ao coração’ (B. Pascal), numa comum linguagem hodierna, do “espiritual na arte” (W. Kandinsky). Sempre tocados por novas e antigas epifanias, interpretações e desvelamentos futuros que da sua arte advenha, do que apenas agora se pressentiu como existência pictural narrante em ato, poderíamos dizer que, na pintura de Enrique Mirones, o «olho escuta» (Paul Claudel), o ouvido vê e o espírito toca-se. Aí se vislumbra, como metamorfose ressurrecional da nossa mente pática, tudo o que somos e poderemos ser ad aeternum, entre presença e parusia, um mundo novo porvir e em devir!

 

João Paulo Costa
Publicado em 15.09.2016

 

 

 
Imagem Enrique Mirones Díez
Nenhuma espiritualidade ou arte será viável sem o despojamento absoluto de si, como viático para a eternidade do tempo, para receber desprendidamente uma O/outrocidade
Só a arte autêntica potencia esta atmosfera sapiencial como liberação do tempo e da memória, do corpo e do espírito, do finito e do infinito, da fragilidade e da força, da angústia e da esperança, do estacional e do passional
Se ainda há livros que nos curam, também há pinturas que salvam a nossa imaginação, que nos acompanham permanentemente, que nos obrigam a sair do mundo do “eu”, para entrarmos narrativamente na carne da história e na vida autêntica das relações inter-humanas
A arte de Mirones é contemporânea, de uma ética invisível. É um gesto apelativo à reconciliação do humano em toda a sua amplitude, tecida mais por invisuabilidades do que por visibilidades. Ela convoca-nos para um exercício da memoria passionis arriscada, de busca espiritual intensa, muito para além daquilo que se mostra, dos novos “pobres da terra”
O «monge-pintor tem de ser um profeta que grita no seu deserto, um ser que assume a sua solidão para mostrar desinteressadamente as entranhas próprias da vida na qual Deus se encarnou porque descobriu que a expressão artística é tão essencial para ele e para os demais como a comida e a bebida
«A desgraça da Igreja moderna é que durante demasiado tempo acabou por confundir a beleza com o tranquilizador ou o bonito, com o sentimental; acabou por fazer da sua iconografia e liturgia algo afastado dos problemas, dúvidas, inseguridades, sofrimentos e desejos profundos da humanidade»
A pintura de Mirones, tal como a arte contemporânea autêntica, implica e envolve o vivido profundo do humano, a sua vulnerabilidade ontológica. Contrariamente a uma certa arte comercial de consumo emocional, mesmo de índole sacra ou até litúrgica hodierna, que anestesia e paralisa o espectador frágil num belo ideal, incapaz de assumir a fenda que habita a nossa comum corporeidade
A Mirones a gratidão por este tempo de graça espiritual das suas evocações pictóricas que nos convocam para a cura das feridas abertas pelo turbilhão das águas da inquietude pulsional das indecisões a advir
Dar a essas pequenas coisas da quotidianidade uma dimensão teologal, como ato de despojamento absoluto que traz em si o gérmen do Eterno e Inominável, é fazer da sobriedade um ato de potência e de coragem, em tempos de consumação de tudo e de todos
A arte de Mirones é espiritual, escritura de si sempre em abertura a alteridades múltiplas, impossível de separar da sua condição existencial de monge. Contudo, incircunscrita a uma única gramática ou tonalidade saturante
A sua arte é cosmopolita, enraizada na simplicidade e autenticidade espiritual da sua humanidade, permitindo-lhe navegar por outros mares e marés, sem medo de hospedar a radical diferença da outrocidade, de quem ali habita ou de quem ali chega e parte. Tanta demoração quanta solidão, eis o princípio fundamental da sua gramática artístico-espiritual
Sempre tocados por novas e antigas epifanias, interpretações e desvelamentos futuros que da sua arte advenha, do que apenas agora se pressentiu como existência pictural narrante em ato, poderíamos dizer que, na pintura de Enrique Mirones, o «olho escuta» (Paul Claudel), o ouvido vê e o espírito toca-se
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