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Da alegria ontológica: A propósito de “Gaudete et exultate”, de Francisco, Papa

O dom da alegria

O Papa Francisco começa a sua «Terceira exortação apostólica» com as exatas palavras que lhe dão título: «Alegrai-vos e exultai». Esta afirmação, mais corretamente, uma ordem dada com a bonomia dos verdadeiramente grandes, é retirada do Evangelho de Mateus, 5, 12.

Das muitas ordens que Cristo profere ao longo da sua vida exposta ao serviço do bem da criação, esta é a mais importante. É-o porque toca o que há de fundamental na mensagem e na pessoa de Cristo, aliás, indiscerníveis. Que «fundamental» é este? Precisamente isso sobre que o texto do Papa versa: a santidade. Não há santidade sem alegria e não há alegria sem santidade. A alegria é o estado humano que imediatamente se instala quando se pratica um ato de santidade, vivido como tal, isto é, um ato realizado por amor, como se fosse realizado pelo próprio Deus.

Tal significa que cada ato de amor, quer dizer, de caridade, de bem, posto no mundo, é um ato criador. Ora, cada ato criador é sempre um ato divino, mesmo quando é um de nós a realizá-lo. E é apenas cada um destes atos que é um ato de caridade, de santidade. O mais, o que não acrescenta bem ao bem do mundo, é, já, a presença, neste, do mal; a redução da Terra ao regime do inferno, regime da falta de amor. Relembre-se que o inferno não é um sítio, mas o ato, todo o ato que não é de amor: o inferno é o absoluto da falta de caridade.

Assim como Deus é o absoluto da presença de caridade e nos convida a que assim com ele sejamos, no que, em sua perfeição, seria o céu; assim o inferno é, em cada instante, a ausência de caridade.



O apelo de Deus, que agora o Papa renova no momento histórico que é o nosso, corresponde a que se anulem as intermitências na prática do bem, da santidade: que a nossa ação seja sempre um ato de bem, de amor, sendo, assim, um santo ato de forma ininterrupta



Como ausência de caridade, de amor, de sequer suficiente bem, o inferno é, consequentemente, o ato em que não há alegria.

A alegria é a manifestação da caridade em ato: é a irradiação da presença de Deus em nós através do nosso ato de bem. Note-se que nunca é algo de mágico: o dom da alegria não corresponde a um vazio de ato nosso, premiado por um capricho divino. Não há caprichos divinos, apenas a estupidez humana de quem projeta sobre Deus a sua própria miséria psicológica. Ao dom da alegria corresponde sempre a presença de Deus, consubstanciada, em nosso mundo, pelo ato de bem; por todos os atos de bem, sejam eles realizados por quem sejam.

A grande questão não reside em quem pratica o bem – esse, nisso, é sempre santo –, mas em por que razão não é a prática do bem contínua.

Mesmo esse que se considera ser o pior ser humano – sem que haja o direito de assim se considerar – pode sempre realizar um ou alguns atos de bem, sendo, neles e por eles, «santo aos pedaços», santo intermitentemente. Note-se que esta é a situação de todos nós, em graus diferenciados: todos nós somos santos intermitentemente. Assim, somos também alegres intermitentemente.

O apelo de Deus, que agora o Papa renova no momento histórico que é o nosso, corresponde a que se anulem as intermitências na prática do bem, da santidade: que a nossa ação seja sempre um ato de bem, de amor, sendo, assim, um santo ato de forma ininterrupta.



A vida humana é uma possibilidade de perfeição. Esta é a evidência maior da condição humana universal – não é própria para cristãos ou outros quaisquer, e não é imprópria seja para quem for



Temos como modelos históricos Cristo, Deus e Homem, mas também Maria, simplesmente humana, mas precisamente excelente como humana porque sempre em ato de amor.

Será assim tão difícil amar? Será assim tão difícil transformar a vida própria num ato de constante amor?

Que é que o amor tem de repelente para que se lhe prefira o mal?

Eis a questão que se põe com a ação – precisamente em contravontade com a vontade de bem de Deus – de Eva e Adão, os que perderam, ao que parece para sempre, a alegria.

A nós compete trabalhar para que se possa dar em constância o milagre da ressurreição da alegria. Alegria-nossa-de-cada-dia. Deus em nós.



Este dom total de bem, do bem que cada ser humano é como possibilidade sua, é o que Deus pede a cada um como bem de sua perfeição. O paradigma, como sabemos, está manifestado, primeiro em Job, ficcional, depois, em Cristo, histórico



Santidade, não mediocridade

Na mesma «Terceira exortação apostólica», no parágrafo 1., o Papa Francisco, depois de relembrar as palavras de Jesus «a quantos são perseguidos ou humilhados», precisamente, as mesmas que titulam esta «Exortação», «alegrai-vos e exultai», relembra que o «Senhor pede tudo», oferecendo em troca «a vida verdadeira, a felicidade para a qual fomos criados».

Mais lembra que Deus nos quer santos e «espera que não nos resignemos com uma vida medíocre, superficial, indecisa»: é um chamamento à perfeição humana, como o Papa relembra, citando a palavra de Deus dirigida a Abraão (Gn 17, 1), «Anda na minha presença e sê perfeito».

A vida humana é uma possibilidade de perfeição. Esta é a evidência maior da condição humana universal – não é própria para cristãos ou outros quaisquer, e não é imprópria seja para quem for –, por vezes difícil de entender, sobretudo se se partir, ao invés do Papa Francisco, de uma posição de humilde abertura à inteligência do real, mas de uma atitude de sobranceria para com o mesmo.

É que o real, na tradição a que Francisco pertence, a judaico-cristã, é obra de Deus, boa como tal e como tal declarada pelo seu autor, que repete a palavra da bondade do criado sete vezes no início do Génesis.

Todo o real é bom, porque criado por bem e para o bem por Deus.



Ao criar a nossa própria perfeição como nosso dom a Deus, estamos também a dar o bem que somos aos outros, pois desde que nos conceberam que somos seres de possível comunidade. A nossa perfeição, se universal, é a perfeição da comunidade



Mas estas formas de bondade não são iguais. A bondade de Deus é absoluta e em ato, sempre. A bondade do real, acabado de sair das mãos de Deus é total, mas não absoluta e o seu ato admite modificação. Esta modificação é permitida porque do bem do criado faz parte a possibilidade, precisamente a possibilidade do bem.

Em Deus o bem não é possível, é sempre atual; no real, no mundo, se se quiser, o bem começa por ser um dado, mas, após o ato de criação que tal dado deu, passa a ser uma possibilidade. Compete ao mundo ser bom. E quase todo o mundo cumpriu tal possibilidade: a natureza não capaz de escolha é sempre totalmente boa, pois é o que é e não pode escolher ser de modo diferente: se um vulcão tiver de explodir isso faz parte do seu bem possível; se um lobo tiver de comer, isso faz parte do seu bem possível: o vulcão e o lobo não têm como não fazer o que lhes é necessário. Por isso não são entidades éticas.

Mas os seres humanos, aos quais esta «Terceira exortação» é dirigida, esses (nós) podem escolher: mesmo que eu tenha de morrer de fome para não fazer mal a um outro ser, posso escolher tal. É a algo como isto que se refere a expressão «o Senhor pede tudo»: tudo é mesmo tudo.

Este dom total de bem, do bem que cada ser humano é como possibilidade sua, é o que Deus pede a cada um como bem de sua perfeição. O paradigma, como sabemos, está manifestado, primeiro em Job, ficcional, depois, em Cristo, histórico. Também Maria responde positivamente a este pedido de todo o bem que nos é possível como nossa dádiva de nós próprios a Deus.



A santidade não é um luxo, que se reserve a uma elite qualquer estabelecida de uma qualquer artificial forma; não é uma exceção, assim o queiram os possíveis santos, quer dizer, cada um de nós



Todavia, o que é muito belo, quando damos tudo isto a Deus, é a nós próprios que o damos; ainda mais, ao criar a nossa própria perfeição como nosso dom a Deus, estamos também a dar o bem que somos aos outros, pois desde que nos conceberam que somos seres de possível comunidade. A nossa perfeição, se universal, é a perfeição da comunidade. Esta tem nomes: em Agostinho, chama-se «cidade de Deus», em palavras de Cristo, «Reino dos Céus», que é, porque ato de amor, de perfeição, ato que realiza Deus no mundo.

É à perfeição do nosso ato como se fosse, em cada nosso ato, Deus a realizar-nos que nos convida Francisco, o Papa.

Se assim for, não haverá mediocridade ou superficialidade de vida; não haverá indecisão: seremos como Maria: «faça-se». Faça-se o bem. É esta a possível perfeição humana, a santidade, que não é mágica, mas sempre fruto de atos de decisão no sentido do bem como entendido por Deus.

 

Cada pessoa, um possível santo

No parágrafo 2 da sua «Exortação», o Papa Francisco lembra que o «chamamento à santidade» é algo que deve «ressoar» nos dias que correm. A santidade é uma possibilidade atual, quer no sentido de que há a possibilidade da santidade quer no sentido de que tal possibilidade está em ato hoje.

A santidade é, assim, para cada ser humano, mormente para aquele que se reclama «cristão», uma possibilidade universal, presente em cada instante, em cada possível ato, em todo o movimento humano que vai transformando o nosso futuro em nosso presente.

A santidade não é, assim, um luxo, que se reserve a uma elite qualquer estabelecida de uma qualquer artificial forma; não é uma exceção, assim o queiram os possíveis santos, quer dizer, cada um de nós, nós que somos a humanidade como um todo. É, aliás, este o sentido de «católico»: universal, não como império ou forma de poder, mas como graça de Deus ao dispor de toda a humanidade, toda criada por Deus tendo como possibilidade máxima quer universal quer pessoal e que é precisamente a santidade.



Não há “pré-salvos”, ou “pré-santos”: a santidade e o sentido de salvação que consigo transporta implica um ato humano de labor incessante, de preferência, no sentido do bem, de Deus



Um santo só é especial exatamente porque é santo. Quer isto dizer que ninguém é especial se não for santo, que é a santidade que torna especial, quer também dizer que especial não é sinónimo de excecional, excecional que pode ser por exemplo, um Hitler, mas de «precioso», no sentido de isso que coincide com um absoluto de bem.

Ora, este absoluto de bem realizável e a realizar é dom de Deus a qualquer ser humano que o queira receber. No maior e melhor dos limites, seria a humanidade como um todo, sem exceção.

Todos podem ser santos, assim o queiram. É este o fundamento católico da graça de dom de Deus que subjaz à mensagem do Papa nesta sua «Exortação». Não há pré-eleições caprichosas realizadas por Deus, um «deus», assim, semelhante ao que de pior o ser humano perverso consegue conceber.

Não há “pré-salvos”, ou “pré-santos”: a santidade e o sentido de salvação que consigo transporta implica um ato humano de labor incessante, de preferência, no sentido do bem, de Deus. Não é um pagamento do ser humano a Deus – ridículo – ou concorrência do ser humano contra Deus – ao modo do diabo –, mas da confirmação autónoma da grandeza humana dada por Deus como possibilidade, recriada pelo ser humano como realidade mundana.



Não há, no âmbito em que o ser humano pode agir, bem ou mal que não lhe passem pelas mãos como possibilidade sua e apenas sua



É exatamente no mundo que a santidade se pode realizar, com «os seus riscos, desafios e oportunidades», que não são a favor ou contra a santidade, mas apenas os seus circunstantes ambientes, isso sobre que tem de se enraizar para que possa crescer e frutificar; isso na lama em que terá, talvez, de rastejar para que, um dia, se possa erguer e olhar Deus olhos nos olhos, como Job, sem arrogância, mas com o mesmo pleno sentido de amorosa justiça com que Deus o criou, para que pudesse ser bom.

E o erro? E o pecado? E o mal?

A estas questões, tem de começar por se responder: e tu? E eu? Onde estamos, que fazemos, que agimos?

Não há, no âmbito em que o ser humano pode agir, bem ou mal que não lhe passem pelas mãos como possibilidade sua e apenas sua. O mais, são desculpas, como quando alguém pergunta pelo nosso ato e nós apontamos outro; outro, não interessa quem, pois não há outro que possa assumir o meu ato, desculpa que me isente de responsabilidade, positiva ou negativa, a menos de me anular como ser humano: não tenho responsabilidade, logo, não existo, dir-se-á, parodiando Descartes.

O vulgar maniqueu, exemplar humano superabundante, olha a humanidade e vê um imenso conjunto de pecadores ou de animais ilógicos condenados à destruição; o Papa Francisco, olhando para a mesmíssima humanidade, vê nada menos do que um imenso conjunto de possíveis santos. Trabalhosos e dificultosos santos, mas potencialmente santos.



A misericórdia sobre o mal não é a primeira escolha para a pessoa: a primeira escolha é a santidade, mérito próprio da pessoa, sobre o dom de possibilidade de Deus



Não condena pessoa alguma antes de terminado o percurso da sua ação e, mesmo este findo, invoca, não o maniqueu e plebeu veredicto de condenação, mas o cristão e divino ato de misericórdia.

Compete à humanidade, isto é, a cada um de nós escolher se prefere continuar na senda da maniqueia idolatria realizadora do pecado ou se prefere assumir a senda, melhor, assumir abrir o carreiro, talvez penoso, do bem, da santidade possível, sendo posta em ato.

A santidade nossa de cada dia trilhemos, pois o pão criatural, esse já o temos.

 

Perfeitos, na imperfeição

No parágrafo terceiro de Exultate et jubilate, a propósito de «os santos que nos encorajam e acompanham», para além de vários exemplos clássicos na tradição cristã, o Papa Francisco chama a atenção para outros exemplos de santidade, mais próximos de cada um de nós: deles podem constar «a nossa própria mãe, uma avó ou outras pessoas próximas de nós».

O tema da universalidade da possibilidade da santidade continua a impor-se. É sob a égide do título «O chamamento à santidade» que se encontra este terceiro parágrafo. Há que ter presente que, sendo todos os seres humanos chamados à santidade, cada um no que é, como é, em sua inalienável realidade humana própria, tal significa que tais exemplos, a mãe, a avó, o filho, os netos, são chamados à santidade.

Não se trata de constituir uma tribo ou uma seita de especialmente escolhidos ou autoeleitos, de entre a demais humanidade – condenada à não-santidade e, assim, à não-salvação, isto é, sendo encarada como lixo humano –, mas de fazer notar que faz parte da possibilidade de cada ser humano a santidade. A santidade é a sua maior possibilidade, a única que coincide com o seu melhor possível, como tal irredutível.



O que é próprio do santo é não desistir – «continuaram a caminhar» – de agir segundo a perfeição, isto é, segundo o bem: não um bem qualquer, mas o bem próprio para cada coisa, cada ser humano, tudo



Outras possibilidades há para cada pessoa, infinitas, aliás, mas todas, sendo caminhos possíveis, não são o caminho que corresponde ao chamamento divino.

Não se quer com isto dizer que Deus, ao modo dos tribalistas que renegam a humanidade dos «outros», queira a perdição dos que não são santos: a misericórdia de Deus é mesmo infinita e tanto maior é e parece quanto é a distância entre o merecimento e o dom divino.

Mas a misericórdia de Deus é de Deus, mesmo quando dada gratuitamente. Quer dizer: a misericórdia sobre o mal não é a primeira escolha para a pessoa: a primeira escolha é a santidade, mérito próprio da pessoa, sobre o dom de possibilidade de Deus. A misericórdia primeiro é de Deus, depois de quem a recebe. A santidade de cada pessoa primeiro é desta, diretamente é desta, apenas indiretamente é de Deus, ou cada pessoa não seria mais do que um títere nas mãos de Deus, o que seria indistinguível de ser um boneco nas mãos de um qualquer destino de tipo pagão.

Como culminar da santidade humana encontramos o ato de misericórdia humana, ato em que melhor o ser humano se aproxima da grandeza dadivosa de Deus. É o momento do céu na terra: amor dadivoso de Deus ao ser humano e deste a Deus, ambos os atos sem comércio, sem colateralidade. Puro dom.



É mau contemplar o mal que se fez, quando se pode e se deve contemplar o bem que se pode fazer. A contemplação do mal pretérito é idólatra, pois é o bem possível – Deus como caminho e como fim – que deve ser contemplado



Falou-se de «momento de céu na terra» porque a santidade que é culminada por tal momento não é um ato de contínua perfeição humana. Esta, em termos cristãos, é possível – Jesus e mesmo Maria –, mas é especialmente rara. O que existe é o modo imperfeito de se ser santo, isto é, de alcançar momentos de perfeição no seio de uma vida que não é perfeita, até porque, podendo-o ser, não tem de o ser, sob a pena de nos transformarmos nas tais marionetas de Deus.

Pode, com total realismo, dizer assim o Papa: «A sua vida talvez não tenha sido sempre perfeita, mas, mesmo no meio de imperfeições e quedas, continuaram a caminhar e agradaram ao Senhor».

A santidade não exige total perfeição, mas consiste em ser perfeito. Não há, aqui, qualquer contradição: tal significa que cada momento em que o ser humano é perfeito no seu ato é um momento de santidade. Se todos os seus momentos fossem assim, seria uma vida totalmente perfeita. Logo, totalmente santa.

O que é próprio do santo é não desistir – «continuaram a caminhar» – de agir segundo a perfeição, isto é, segundo o bem: não um bem qualquer, mas o bem próprio para cada coisa, cada ser humano, tudo. Esta é a posição de Deus, esta é a posição do santo em cada ato de santidade.



Nada disto é particularmente difícil: daí, o ser possível para todos. No entanto, implica que se deixe de adorar o próprio umbigo como verdadeiro deus e se passe a adorar Deus como Alfa e Ómega do bem



Por outro lado, o que é importante é persistir em caminhar no bem, para o bem. O que se deve contemplar e procurar é o bem possível. É mau contemplar o mal que se fez, quando se pode e se deve contemplar o bem que se pode fazer. A contemplação do mal pretérito é idólatra, pois é o bem possível – Deus como caminho e como fim – que deve ser contemplado. Contemplar o mal é uma forma infernal. Contemplar o bem possível é estar a um passo do céu: o passo que falta consiste em agir no sentido do bem que se contempla.

Nada disto é particularmente difícil: daí, o ser possível para todos. No entanto, implica que se deixe de adorar o próprio umbigo como verdadeiro deus e se passe a adorar Deus como Alfa e Ómega do bem, como ato de amor e como chamamento ao meu ato de amor. Mesmo amando no máximo que nos é possível o nosso umbigo permanece no sítio, não se perde, pelo contrário, torna-se não o centro do meu egoísmo, mas o centro do meu amor, como “centro” do corpo de amor que sou em ato.

 

Santo, em comunidade

No parágrafo sexto desta sua «Terceira exortação apostólica», primeiro dos dedicados aos «santos ao pé da porta», relembra o Papa Francisco que «ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos sempre tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais». O Papa fala, ainda, de «comunidade humana».

Ora, esta existe quando há relações, sempre em rede, interpessoais que se norteiam e se cumprem na prossecução do bem de todas essas mesmas pessoas. Todas. Sem que o universo esteja completo, não há comunidade real. Esta obrigatoriedade de universalidade é o que torna algo como a «cidade de Deus» ou o «reino de Deus» de tão difícil realização.

Os modos mundanos comuns de realização de vida em sociedade raramente se preocupam com a universalidade dos seus sujeitos/objetos, isto é, das pessoas envolvidas.

Ou preocupam-se apenas com o bem de um único, o tirano, que é sempre a figura humana que se comporta como se de um deus omnipotente se tratasse.



Não se trata de uma qualquer forma de tentativa de poder por parte do príncipe cristão: não se trata de todos se tornarem culturalmente cristãos, mas de todos se tornarem antropológica, ética e politicamente bons



Ou se preocupam apenas com o bem de alguns, poucos, de entre os tais sujeitos/objetos envolvidos, constituindo uma oligarquia do e para o bem, vulgo, “os eleitos”, tribo que reclama para si apenas o bem possível, relegando os mais para um limbo de negação sub-humana.

Ou se preocupam apenas com o bem da maioria, mesmo que digam que se baseiam em “valores universalistas”, trabalhando, concretamente, apenas pelo bem dos “muitos”. Trata-se de algo como uma “oligarquia expandida”: o desprezo pelo bem dos não-eleitos é semelhante àquele que a oligarquia clássica lhes dedica.

A mensagem de Cristo não se enquadra em qualquer destes tipos: é verdadeiramente universalista; dirige-se a todos, como proposta de acesso ao máximo bem possível para cada um, para todos, sem exceção.

Apenas, porque não é um ato imperial ao modo mundano, mas uma proposta de amor-caridade, permite que haja quem não aceite fazer parte de tal bem universal. Não se trata de uma exceção da regra da proposta de amor universal, mas de algo exógeno, que diz respeito à estrutura de livre-arbítrio humana, que permite sempre que se diga sim ou não ao bem proposto, seja este qual for.



É esta a rede de que fala Francisco; esta a massa, quiçá pagã em várias formas, que há que fermentar com o exemplo, mais do que com a palavra – com a palavra do exemplo – a fim de que se torne possível a construção de uma comunidade universal de amor



A figura paradigmática e perenemente simbólica desta recusa não é Eva ou Adão, mas o próprio diabo, que, após ter sido criado como capaz de um grande bem próprio, não aceitou esta propriedade e preferiu o bem próprio de Deus: este é o paradigma de todo o pecado; mas também é o paradigma laico de todo o mal como forma de tentativa de roubo do bem que pertence a um outro. A religião limitou-se a canonizar uma estrutura antropológica de possibilidade de bem e de mal em ato sempre autónomo.

Assim, a proposta do reino feita por Cristo é universal e este príncipe da mansidão – isto é, que não usa violência, apenas a força atrativa, teo-erótica, do amor – não ficará satisfeito enquanto não for tal proposta aceite pela totalidade do universo humano a quem é manifestada.

Não haja confusão: não se trata de uma qualquer forma de tentativa de poder por parte do príncipe cristão: não se trata de todos se tornarem culturalmente cristãos, mas de todos se tornarem antropológica, ética e politicamente bons – nesse ato, teremos, finalmente, uma comunidade.

Esta comunidade terá de ser universal, «católica», à letra, mas não significa isto qualquer forma de triunfalismo da Igreja, antes que a humanidade, no seu todo, acolheu o mandamento divino do bem, mesmo que nunca tenha ouvido falar de qualquer forma cultural de religião. É no mais profundo do coração humano que tal marca vocacional se encontra, como mostra Job e como Agostinho descobriu.



Aquilo a que o Papa se refere é a incessante doação do ser humano que quer o bem – seu e dos outros, seu porque também dos outros – ao labor de construção deste mesmo bem. Este labor é necessariamente feito com a paciência devida a tudo o que não pode senão demorar toda uma vida a construir e, ainda assim, não ser alcançado



São estas figuras que importam, não como coisas culturais, mas como testemunhos de humanidade para a humanidade da palavra de Deus que é convite ao bem, à santidade.

Este convite permeia toda a humanidade, percebe-se em nossos dias que tem mesmo de ser universal/global, e aplica-se a nós e ao nosso vizinho da porta do lado, de quem nós somos o vizinho do lado da sua porta.

É esta a rede de que fala Francisco; esta a massa, quiçá pagã em várias formas, que há que fermentar com o exemplo, mais do que com a palavra – com a palavra do exemplo – a fim de que se torne possível a construção de uma comunidade universal de amor, a única que poderá alguma vez contentar Deus como produto das suas criaturas, criadas para o bem.

O bem é o único pão nosso de cada dia.

 

Santidade «ao pé da porta»

No parágrafo sete da sua «Terceira exortação», o Papa Francisco toca no ponto essencial necessário para a compreensão do que seja a santidade não como privilégio de alguns eleitos ou dom caprichoso de caprichoso “deus”, mas como fruto do amor humano, por sua vez fruto do amor de Deus.

Diz o Papa que gosta «de ver a santidade no povo paciente de Deus». Vamos tomar «povo de Deus» não no seu sentido cultural habitual, que exclui os que são considerados como «os outros», mas no sentido em que, sendo todos criaturas de Deus, somos todos «seu povo» e seu povo eleito, pois não se entende como possa Deus ter elegido alguém senão para que se possa tornar seu filho ou como seu filho.

Então, aquilo a que o Papa se refere é a incessante doação do ser humano que quer o bem – seu e dos outros, seu porque também dos outros – ao labor de construção deste mesmo bem. Este labor é necessariamente feito com a paciência devida a tudo o que não pode senão demorar toda uma vida a construir e, ainda assim, não ser alcançado ou alcançado plenamente.

O bem implica labor, sempre; implica sempre também paciência. Teria sido necessário a Eva um exercício de muita paciência para derrotar o que seriam as incessantes tentativas da rastejante coisa tentadora. Eva não foi paciente e a bicha venceu, sem dificuldade, aliás. Este exemplo basta para que se perceba a importância da paciência e do labor paciente na construção do bem, isto é, da santidade.



São estes os incontáveis santos pacientes que alimentam o mundo de muitos modos, nunca sendo cantados. O Papa resolveu, agora, cantá-los, discretamente; mas o espalhafato não é apanágio do bem. O esplendor, sim, o espalhafato, esse não



As afirmações sobre o bem e a sua realização tendem a ser vagas, muitas vezes porque não se sabe do que se está concretamente a falar: bem, o que é isso do bem?

Ora, Francisco sabe do que está a falar. Sabe o que é o bem. Por isso, exemplifica, breve, simples, mas exemplarmente: os «pais que criam os seus filhos com tanto amor», os «homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa», os «doentes», as «consagradas idosas que continuam a sorrir».

E basta como exemplos. Estes exemplos cobrem todas as possíveis classes humanas. Os pais que criam os filhos são a humanidade fértil que apresenta aos seus filhos o dom da manutenção e melhoramento da vida; que lhes apresenta, vivendo segundo eles, os princípios de ação de acordo com o bem; que permite, assim, que subsista como coisa mundana sã uma humanidade precisamente capaz de modo ativo do bem, da santidade.

Esta, se universal, seria a humanidade construtora da «cidade de Deus», preparando-se para o «reino de Deus»; reino que, deste modo, já estariam experimentando segundo o tempo no que tem de eterno, exatamente o absoluto de bem que há em cada ato: isso é Deus presente em cada momento em que o bem é realizado.

Os pais são o ato de início de vida.



Há que descobrir os altares comuns em que estes santos caseiros e vizinhos estão, não para lhes prestar culto, mas para lhes agradecer o bem que fazem, o bem que são: basta um sorriso como aquele das «consagradas idosas»



Como ato de meio de vida, encontramos esses «homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa»: é o longo período da constante manutenção económica do bem comum. Tempo e movimento talvez maioritariamente não-entusiasmante para quem não viva em regime espiritual, mas tempo sem o qual não há possibilidade de humanidade subsistente. São estes os incontáveis santos pacientes que alimentam o mundo de muitos modos, nunca sendo cantados. O Papa resolveu, agora, cantá-los, discretamente; mas o espalhafato não é apanágio do bem. O esplendor, sim, o espalhafato, esse não.

Encontramos, depois, os que estão em declínio de vida, os «doentes», quer terminais quer recuperáveis. Nestes, a vida sofre uma diminuição de força. Por algum tempo ou definitivamente, o absoluto da vida é posto em causa. O sentido da finitude humana emerge. O que parecia nunca acabar, revela-se absolutamente limitado. A vida ganha um preço que sempre teve, mas que nunca lhe foi percebido. Perante a perspetiva do fim, mesmo do fim que a doença grave não terminal anuncia sempre, a angústia instala-se. Sem fé, é o desespero que espreita. Este, na sua grandeza, é incompatível com a vida, uma vida que passa a não ser mais do que uma dor do tamanho da alma de quem sofre e sabe que é para nada. Lembremos que Job aguentou o seu sofrimento porque acreditava no Deus de bem.

É este estado de fim de vida que faz perceber a presença, de outro modo estranha, das «consagradas idosas que continuam a sorrir»: este sorriso é a marca de uma esperança em fim de vida, que, embora não anule a angústia perante a morte, lhe dá o sentido positivo de um fim de bem em que se acredita com todo o ser. É isto que este sorriso em fim de vida significa: a esperança num bem que transcenderá todos os bens da vida até então vivida, por mais santa que possa ter sido. É o sorriso de quem se vê aproximar os portões escancarados do reino de Deus.



Este sentido de santidade, profundamente humano, no que a humanidade tem de melhor em termos éticos e políticos – também religiosos –, profundamente coincidente com o sentido de bem que a tradição em que nos inserimos tem como a própria do ser humano, no seu melhor, é alargável a todos as pessoas que assim ajam



Este é o sorriso do santo, muito diferente do sorriso do néscio. É este sorriso que manifesta, então, uma vida de santidade aí, por aí, em toda a parte, por mais desconhecida que por nós seja. Mas não é desconhecida por Deus.

Francisco sublinha: «Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade “ao pé da porta”, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus».

Esta «classe média da santidade» não deve ser confundida com uma «classe média» no sentido burguês e economicista em que vulgarmente se emprega a expressão, mas no sentido em que constitui um numeroso grupo de pessoas que não são especialmente notadas, embora a sua ação seja especialmente boa, ou não seriam «santos ao pé da porta».

Há que descobrir os altares comuns em que estes santos caseiros e vizinhos estão, não para lhes prestar culto, mas para lhes agradecer o bem que fazem, o bem que são: basta um sorriso como aquele das «consagradas idosas».

 

Os alicerces do bem

No parágrafo oitavo da sua «Exortação apostólica», o Papa Francisco apresenta os que são o sustentáculo da história humana, isto é, esses que, realmente põem em comum o bem que permite que persista a existência da humanidade, quer dizer, os que são os santos, santificados pelo absoluto do bem que inserem no tecido histórico.

É esta presença do comum bem, do bem comum, que impossibilita que o mundo humano colapse no caos, que não é discernível do seu próprio nada. Lembremos que, no Génesis (Gn 18-19), é precisamente a não existência de agentes de bem em Sodoma e Gomorra que sentencia estas cidades à sua morte suicida.

Este sentido de santidade, profundamente humano, no que a humanidade tem de melhor em termos éticos e políticos – também religiosos –, profundamente coincidente com o sentido de bem que a tradição em que nos inserimos tem como a própria do ser humano, no seu melhor, é alargável a todos as pessoas que assim ajam. É este o sentido profundo de «católico», que consubstancia o ministério do cristianismo, mormente o da Igreja que adotou esta designação: o bem de todos. É este o sentido criador inicial do próprio ato divino genesíaco.



A história humana é um mar de atos de santidade preenchido por todos os que agiram segundo o bem – o que, para o cristão, significa agir segundo o desejo de Deus para o ser humano, todo e todos



Assim sendo, este sentido de santidade tem a sua versão laica: todos os que praticam o bem, quando praticam o bem e porque praticam o bem, são, nisso, santos. Nisso, pois a santidade, no mundo do movimento, não é magicamente perene. Há que porfiar; há que ser constante, como se vê afirmado no parágrafo sete da mesma «Exortação».

Deste modo, a história humana é um mar de atos de santidade preenchido por todos os que agiram segundo o bem – o que, para o cristão, significa agir segundo o desejo de Deus para o ser humano, todo e todos.

Em coincidência com este mar de bem, há todo um conjunto de ato de não-bem, esses que concretizam o mal. O excesso dos atos de mal sobre os de bem teria já precipitado o mundo no caos humano. Tal ainda não se verificou, pelo que há um excesso de atos de bem sobre os de mal. Não importa que não seja esta a perceção ou consciência que habitualmente se tem do que se passa no mundo, em que se aposta cada vez mais em mostrar o que é mau, sem que se perceba qual o racional real que subjaz a esta mania: tentativa consciente ou inconsciente de aniquilação acelerada da humanidade, num ato de niilismo cobarde? Não sabemos.

O bem, na totalidade dos atos que se praticam, sustenta o mundo humano: é o bem-nosso-de-cada-dia, esse que se pede na forma simbólica do pão, que mantém a humanidade sendo.



«Certamente, os eventos decisivos da história do mundo foram essencialmente influenciados por almas sobre as quais nada se diz nos livros de história. E saber quais sejam as almas a quem devemos agradecer os acontecimentos decisivos da nossa vida pessoal, é algo que só conheceremos no dia em que tudo o que está oculto for revelado»



É uma heroicidade santa – não, não há incompatibilidade entre o herói e o santo, apenas os cobardes da santidade pensam assim –, anónima, a maior parte das vezes. Tais atos são praticados, concretamente, em cada momento que se queira considerar na vida da humanidade, aos milhões: por exemplo, no que foi acontecendo mundo fora durante o tempo que levou este parágrafo a ser escrito. Provavelmente, milhares de milhão de atos de bem foram, em tão breve tempo, realizados. É a isto que, no universo humano, o Papa Francisco se refere.

No seu escrito, torna-o claro ao citar longamente a Santa Teresa Benedita da Cruz, o que aqui repetimos, dada a beleza e radicalidade do que é dito: «Na noite mais escura, surgem os maiores profetas e os santos. Todavia a torrente vivificante da vida mística permanece invisível. Certamente, os eventos decisivos da história do mundo foram essencialmente influenciados por almas sobre as quais nada se diz nos livros de história. E saber quais sejam as almas a quem devemos agradecer os acontecimentos decisivos da nossa vida pessoal, é algo que só conheceremos no dia em que tudo o que está oculto for revelado» (Vida escondida y Epifanía, Obras completas, V, Burgos, 2017, p. 637).


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: Splendens/Bigstock.com
Publicado em 19.09.2018

 

 

 
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