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D. Óscar Romero: «A minha única conversão é a Cristo»

Imagem D. Óscar Romero | El Salvador | Foto: Rachel Heidenry | D.R.

D. Óscar Romero: «A minha única conversão é a Cristo»

«El Salvador é um país pequeno, que sofre e trabalha. Aqui vivemos grandes diferenças no aspeto social: a marginalização económica, política, cultura, etc.  Numa palavra: INJUSTIÇA. A Igreja não pode ficar calada frente a tanta miséria porque trairia o Evangelho, seria cúmplice daqueles que pisam os direitos humanos. Foi esta a causa da perseguição da Igreja: a sua fidelidade ao Evangelho.»

São palavras de Óscar Arnulfo Romero, o arcebispo de S. Salvador assassinado em 1980 pelos Esquadrões da Morte quando celebrava missa, que em breve será beatificado, depois de o papa Francisco ter na manhã desta terça-feira autorizado a Congregação para a Causa dos Santos, no Vaticano, a promulgar o decreto respeitante ao martírio do prelado, morto por «ódio à fé» a 24 de março de 1980.

A posição de Óscar Romero integra uma carta que escreveu a S. Wagner no dia 9 de fevereiro de 1978. Trata-se de um fragmento inserido no livro "Se me matam, ressuscitarei no povo - Inéditos 1977-1980", missivas que a Editrice Missionaria Italiana vai disponibilizar nas livrarias transalpinas a partir de 24 de março, quando passam 35 anos da morte do prelado.

«Durante muitos anos na Igreja» - escrevia o arcebispo mártir a Alfredo T. a 28 de outubro de 1977 - fomos responsáveis por muitas pessoas terem visto na Igreja um aliado dos poderosos no campo económico e político, contribuindo desta maneira para formar esta sociedade de injustiças em que vivemos... Deus está a falar-nos através dos acontecimentos, das pessoas. Falou-nos através do padre Rutilio, do padre Navarro [sacerdotes assassinados], dos camponeses, etc. Fala-nos através da paz, a esperança que sentimos, inclusive no meio de tantos sofrimentos».

Noutra carta privada, de novembro de 1977, D. Romero mencionava o «pecado social»: «A situação social de El Salvador é terrivelmente injusta. Vivemos no pecado social. A Igreja está a procurar levar a sua voz a todos os ambientes para que, como cristãos, assumamos a nossa responsabilidade para vencer o pecado e construir a fraternidade com base na justiça».

No livro surge também, e com clareza, que o arcebispo assassinado não era um agitador político: a sua decisão de caminhar com os pobres era evangélica, e Romero pedia aos padres e religiosos que se abstivessem de participar em manifestações políticas. Quando se aproximavam algumas manifestações de grupos estudantis e sindicatos, escreveu em junho de 1977 ao padre José C.R. pedindo-lhe «vivamente» que não participasse: «Não ignora todos os problemas que a nossa Igreja tem de enfrentar neste momento histórico. Não seria nem justo nem oportuno acrescentar outros problemas com a participação de sacerdotes em manifestações políticas. Temos demasiadas e amargas experiências».

Todavia, esta perspetiva não significava indiferença: «É deplorável que os trabalhadores que trabalhadores da vinha, que deveriam estar na primeira linha na pastoral de Medellín e Puebla» - escreveu Romero em agosto de 1979 - «escolham uma posição cómoda que os deixa indiferentes perante os necessitados de que nos fala o Evangelho. Rezemos pela nossa perseverança e para que muitos voltem à fidelidade».

Para concluir, assinala-se a passagem de uma carta a José Heriberto S.R., escrita a 16 de novembro de 1977: «Como me perguntas o que penso da formação num quartel, tratarei de dar-te a minha opinião mediante a realidade que vemos todos os dias no nosso país.»

«Seguramente, num quartel não te educam a viver segundo o plano de Deus. Tu conheces as ações de muitas pessoas que se formam nos quartéis e podes ver com clareza que não são comportamentos cristãos. Ser homem significa ter a coragem de construir um mundo de fraternidade, de enfrentar os problemas que se colocam dia a dia tanto a nível pessoal como a nível social; finalmente, significa desempenhar a tarefa pela qual Deus nos pôs neste mundo, SER HOMEM é CONSTRUIR e não DESTRUIR. Se te alistarem ou acabares nesse local, tem sempre presente os teus princípios cristãos e defende-os com coragem.»

A Congregação para a Doutrina da Fé examinou em 1998 a causa de canonização de Óscar Romero. Em entrevista ao diário italiano "Avvenire", o arcebispo italiano Vincenzo Paglia, atualmente presidente do Pontifício Conselho para a Família, explicou que «o resultado final do estudo dos testemunhos processuais, dos documentos e das mais de 50 mil cartas do arquivo» do prelado salvadorenho foi que «o seu pensamento teológico era "igual ao de Paulo VI, definido na exortação "Evangelii nuntiandi", como respondeu ele mesmo em 1978, quando lhe perguntavam se apoiava a Teologia da Libertação».

«Num contexto histórico caracterizado por extrema polarização e por uma cruel luta política, confundiu-se por conivência com a ideologia marxista a defesa concreta dos pobres, que Romero apoiava não por proximidade às ideias socialistas, mas por fidelidade à Tradição, a qual desde sempre reconhece a predileção dos pobres como escolha mesma de Deus», sublinhou o arcebispo Vincenzo Paglia.

Romero, continuou a explicar o prelado italiano, perante a repressão do governo militar e a subversão dos grupos de guerrilha revolucionária, perante aos seus padres mortos e torturados, perante um clima de violência e perseguição, reagiu «como bispo» e pediu com determinação «justiça às autoridades, o respeito pelos direitos humanos», começando «a denunciar publicamente a atrocidade e as injustiças», ao mesmo tempo que protegia «os oprimidos, o clero e os fiéis perseguidos».

A sua ação decorreu «dos ensinamentos dos Padres da Igreja e através do magistério conciliar e pontifício. Poucos meses antes de morrer, quando um jornalista venezuelano lhe refaz a enésima pergunta sobre a sua conversão de "padre com vestes talares" em pastor militante que foi demasiado longe na política, responde: "A minha única conversão é a Cristo, e durante toda a minha vida"», acrescentou Vincenzo Paglia.

A autorização do papa Francisco à Congregação para a Causa dos Santos decorre do parecer unânime que os peritos teológicos daquele dicastério expressaram, a 8 de janeiro, sobre o reconhecimento do martírio de Romero, morto aos 62 anos.

A causa da beatificação chegou ao Vaticano em 1996, depois de concluída a fase diocesana. Seguiram-se cartas do episcopado salvadorenho, superando antigas divisões, em que foi transmitido à Santa Sé o voto unânime para o reconhecimento do martírio, missivas a que se juntaram numerosas petições de outros fiéis.

Também esta terça-feira o papa autorizou a congregação a promulgar os decretos relativos ao martírio dos Servos de Deus Michele Tomaszek e Sbigneo Strzałkowski, da Ordem dos Frades Menores (Franciscanos) Conventuais, e de Alessandro Dordi, sacerdote diocesano, mortos por ódio à fé a 9 e 25 de agosto de 1991, no Peru.

 

Andrea Tornielli
In "Vatican Insider"
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 03.02.2015

 

 
Imagem D. Óscar Romero | El Salvador | Foto: Rachel Heidenry | D.R.
A situação social de El Salvador é terrivelmente injusta. Vivemos no pecado social. A Igreja está a procurar levar a sua voz a todos os ambientes para que, como cristãos, assumamos a nossa responsabilidade para vencer o pecado e construir a fraternidade com base na justiça
Num contexto histórico caracterizado por extrema polarização e por uma cruel luta política, confundiu-se por conivência com a ideologia marxista a defesa concreta dos pobres, que Romero apoiava não por proximidade às ideias socialistas, mas por fidelidade à Tradição, a qual desde sempre reconhece a predileção dos pobres
Romero, perante a repressão do governo militar e a subversão dos grupos de guerrilha revolucionária, perante aos seus padres mortos e torturados, perante um clima de violência e perseguição, reagiu «como bispo» e pediu com determinação «justiça às autoridades, o respeito pelos direitos humanos», começando «a denunciar publicamente a atrocidade e as injustiças»
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