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Em memória de D. José Policarpo (1936-2014): Povo de missionários em contexto de secularização

D. José Policarpo morreu esta quarta-feira, 12 de março de 2014, em Lisboa, vítima de um aneurisma na aorta, o patriarcado de Lisboa.

Nascido a 26 de fevereiro de 1936 - tinha completado 78 anos há poucos dias - na aldeia do Pego, freguesia de Alvorninha, concelho das Caldas da Rainha, D. José Policarpo foi ordenado padre a 15 de agosto de 1961.

A 26 de maio de 1978 o papa Paulo VI nomeou-o bispo auxiliar de Lisboa, e a 5 de março de 1997 o papa João Paulo II confiou-lhe o cargo de coadjutor do patriarca.

No dia 24 de março de 1998 sucede a D. António Ribeiro e a 21 de fevereiro de 2001 é criado cardeal.

A 18 de maio de 2013 o papa Francisco aceita o seu pedido de resignação e nomeia D. Manuel Clemente como sucessor.

A 30 de novembro de 2013 o papa Francisco confirmou-o como membro da Congregação para a Educação Católica, um dos dicastérios (principais "ministérios") da Santa Sé.

Integrou também a estrutura dos Pontifícios Conselhos da Cultura e Leigos.

Autor de vasta obra no domínio da teologia e da pastoral, que realçou a importância a dar aos «sinais dos tempos», D. José Policarpo foi presidente da Conferência Episcopal Portuguesa e magno chanceler da Universidade Católica, depois de ter dirigido a Faculdade de Teologia.

O patriarca emérito, que participava no retiro do episcopado que decorre em Fátima, continuava a proferir palestras.

D. José Policarpo acreditava que «evangelizar é intervir na cultura», pelo que «não haverá civilização cristã sem evangelização da cultura».

O corpo do cardeal chega esta quinta-feira à sé de Lisboa, pelas 15h00, permanecendo em câmara ardente. As exéquias estão marcadas para sexta-feira, às 16h00, também na catedral, seguindo depois para o mosteiro de S. Vicente de Fora, panteão dos Patriarcas.

 

1.

É manifesto que o fenómeno da secularização, como está descrito no «Instrumentum Laboris», e a deriva do secularismo se fazem sentir igualmente no nosso país e na nossa cultura, apesar da sua história fortemente marcada pelo catolicismo, pela fidelidade ao Papa, pelo ardor missionário e pelo amor a Nossa Senhora, coroada Rainha de Portugal.

Todos estes valores sofrem a erosão da mudança cultural: correrão eles o risco de desaparecer?

O secularismo marca o ambiente cultural e influencia a vida daqueles que não têm convicções profundas nem estão habituados a exercitar a liberdade, apesar das condicionantes culturais. Este secularismo, sendo a água onde todos os peixes devem navegar, não impede que alguns sigam o seu caminho.

Enfrentar uma cultura hostil à sua missão e à sua perspectiva de vida não é uma novidade para a Igreja. Foi assim no Império Romano e em todos os continentes onde a Igreja levou a mensagem de Jesus. No Ocidente habituámo-nos a um enquadramento cultural profundamente marcado pelo cristianismo, por que, apesar de todos os erros, a fé cristã transformou a cultura, tornou-se cultura. Esta mudança é muito brusca para que a ela nos habituemos com facilidade; é semelhante à agitação sentida pela Igreja aquando da queda do Império Romano e ao enfraquecimento do quadro cultural que o sustentava. Apenas a ousadia do Espírito nos permitirá recomeçar. Um novo tempo, que não é o retorno ao tempo da Idade Média, mas a um tempo novo. É a audácia da esperança. Na primeira parte do «Instrumentum Laboris» senti a falta de sinais de esperança. Em todas estas circunstâncias da história, a Igreja deve poder discernir “sinais”, “sinais dos tempos”, e novas oportunidades do Reino.

Para enfrentar os novos caminhos da missão, a Igreja confronta-se com dificuldades no seu interior: a sua linguagem, a sua forma de se relacionar com a sociedade – as suas estruturas e as suas leis –, sobretudo uma religiosidade sem a força transformadora da fé. Uma Igreja que defende o «status quo» adquirido ao longo dos séculos, mas que está enfraquecida no ardor da fé e na fidelidade a Jesus Cristo, é vulnerável a estas mudanças culturais.

 

2.

Como em todos os enquadramentos culturais onde a Igreja faz o anúncio de Jesus Cristo, diante de uma cultura secularizada ela é confrontada com duas atitudes aparentemente irreconciliáveis: a ruptura ou a identificação com muitos valores que na sua inspiração profunda são comuns ao que ela propõe. Este dilema já se tinha colocado a Jesus, frente aos fariseus e aos doutores da lei: nada do que pertence à Lei é para ser abolido, mas o Reino dos Céus exige uma ruptura, onde se poderá semear o futuro.

 

3.

Mas falemos do espírito de missão, uma das linhas de força da identidade cultural dos católicos portugueses. Como é que ele resiste numa cultura secularista? Estou convencido que um verdadeiro espírito de missão, enraizado na experiência da fé, é o dinamismo que melhor pode penetrar nesta cultura secularizada.

 

3.1.

Em primeiro lugar, é preciso reconhecê-lo, assiste-se a uma secularização do espírito de missão, que se exprime na solidariedade de pessoas e de instituições. Ao nível do Estado laico há um esforço para demonstrar que ele pode resolver os problemas sociais e favorecer a entreajuda entre pessoas, sem apelar à Igreja. Esta não detém a exclusividade do serviço social. Os profetas da laicização da sociedade falam de uma “ética republicana”, que anuncia a capacidade da república construir uma sociedade solidária. Por outro lado, poderosas organizações não governamentais (ONG) mobilizam a sociedade civil, neste espírito de missão de alcance internacional. Muitos cristãos estão empenhados nessas missões.

 

3.2.

No interior da Igreja surgem novas expressões da missão «ad gentes».

O número de missionários, padres, religiosos e leigos que partem para missões de longa duração ainda é impressionante. Sobretudo entre os jovens universitários está em marcha a experiência de partir em missão, por uma curta duração, durante um ano ou alguns meses, em colaboração com as Igrejas locais, sobretudo da África de língua portuguesa. Só em Lisboa há centenas de jovens que a cada ano se inscrevem. Nasceram estruturas permanentes, do tipo ONG, como os “Leigos para o Desenvolvimento”. Estas experiências missionárias de curta duração são, por vezes, o terreno onde amadurecem vocações missionárias, sacerdotais, religiosas e laicais.

 

3.3.

Mas o grande desafio pastoral para a Igreja é suscitar um sentido de missão, a alegria e a urgência de testemunhar a fé na sociedade que os crentes partilham com todos os outros. Trata-se de descobrir a simplicidade da missão. Foi esse o desafio do Congresso Internacional para a Nova Evangelização. A população de Lisboa mostrou que estava pronta a aceitar expressões da missão em espaços profanos. Na grande manifestação de encerramento, em torno da imagem de Nossa Senhora de Fátima, cerca de um milhão de pessoas caminharam numa procissão de luz.

Um aspecto muito importante da missão num ambiente cultural secularizado é a acção dos cristãos leigos no coração das realidades terrestres. Com a crise da Acção Católica e o surgimento dos movimentos carismáticos, esta dimensão da missão caiu no esquecimento; nas estruturas pastorais não há quase nada que esteja orientado para uma ajuda específica a estes cristãos e à sua missão. Em Lisboa temo-nos esforçado por valorizar esta missão, propondo aos fiéis que, em grupo, façam uma leitura das realidades da sociedade, à luz da Doutrina Social da Igreja. A Palavra de Deus e o ensinamento da Igreja são os faróis que iluminam esta leitura crente das realidades actuais.

Continuo a crer que, em termos culturais, mesmo em águas agitadas é possível navegar na direcção das escolhas de vida e de verdade.

 

D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa
Plenário do Conselho Pontifício da Cultura, Roma, 06.03.2008
© SNPC | 13.03.14

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